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Dor crônica não é fraqueza: por que a ortopedia precisa ir além de remédios e infiltrações

Diante do aumento das dores musculoesqueléticas crônicas, a medicina regenerativa surge como mudança de abordagem na ortopedia, sem promessas milagrosas e com foco em tratamento integrado

18 jan 2026 - 13h04

A ortopedia vive hoje um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso a exames de imagem, medicamentos e técnicas cirúrgicas sofisticadas. Mas, ao mesmo tempo, lidamos com uma epidemia silenciosa de dor musculoesquelética crônica. Joelhos, ombros, coluna e tendões passaram a concentrar queixas persistentes, recorrentes e, muitas vezes, frustrantes tanto para pacientes quanto para médicos.

Medicina regenerativa propõe um novo olhar para dor ortopédica crônica, indo além do alívio do sintoma; entenda
Medicina regenerativa propõe um novo olhar para dor ortopédica crônica, indo além do alívio do sintoma; entenda
Foto: Reprodução: Gustavo Fring/Pexels / Bons Fluidos

Isso acontece porque grande parte dessas dores deixou de ser um problema pontual e passou a ser crônica, multifatorial e bio-psico-mecânica. Não se trata apenas de um tecido "machucado", mas de um ambiente alterado: degeneração progressiva, inflamação de baixo grau, perda de força, excesso ou má distribuição de carga, sono ruim, estresse e comorbidades metabólicas. Nesse contexto, o modelo clássico de tratamento, focado quase exclusivamente em aliviar dor e inflamação, mostra seus limites.

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Quando tratar a dor não é suficiente

Durante décadas, a lógica predominante foi reduzir o sintoma para que o paciente conseguisse manter a rotina. Anti-inflamatórios, analgésicos e infiltrações cumprem esse papel, mas raramente mudam o curso da doença. O resultado é conhecido: melhora temporária seguida de recaída, cronificação e frustração.

É justamente nesse cenário que a medicina regenerativa surge. Não como promessa milagrosa, mas como uma mudança de lógica na ortopedia. Em vez de apenas "calar" a dor, ela busca modular a inflamação, melhorar a qualidade do tecido, otimizar a cicatrização e encurtar o caminho até a função, sempre integrada a um plano estruturado de reabilitação, ajuste de carga e fortalecimento muscular.

Vale reforçar: isso não é mágica. A medicina regenerativa não substitui fisioterapia, biomecânica ou cirurgia quando estas são necessárias. Ela atua como parte de um tratamento mais amplo, olhando para o tecido, para o movimento e para o contexto clínico do paciente.

Entre ciência, regulação e falsas promessas

Muito do debate em torno da medicina regenerativa é contaminado por exageros. Terapias biológicas, como o PRP, têm indicações razoáveis em algumas lesões tendíneas, entesopatias e dores articulares em fases iniciais ou intermediárias, especialmente quando tratamentos bem conduzidos falharam. Por outro lado, artroses avançadas, com deformidades importantes e instabilidade, dificilmente se beneficiam dessas abordagens, nesses casos, realinhamento ou prótese continuam sendo o tratamento mais eficaz.

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No Brasil, esse cuidado precisa redobrar. O uso de PRP e terapias celulares é regulado pelo Conselho Federal de Medicina e pela Anvisa, frequentemente restrito a contextos experimentais ou de pesquisa clínica. Ignorar essas normas ou vender procedimentos como tratamentos estabelecidos quando ainda não são representa um risco ético e sanitário. O maior inimigo da medicina regenerativa hoje não é a falta de evidência, mas o charlatanismo travestido de inovação.

Do ponto de vista do sistema de saúde, o tema é estratégico. Com o envelhecimento da população e o aumento da prática esportiva amadora, a tendência é clara: mais dor crônica, mais afastamentos do trabalho, maior consumo de analgésicos e anti-inflamatórios, com seus efeitos colaterais, e cirurgias realizadas tardiamente, quando as opções conservadoras já se esgotaram. Intervir de forma mais precoce, quando ainda há janela terapêutica, pode significar menos incapacidade, menor custo global e melhor qualidade de vida

Qual será o futuro da área?

O futuro da ortopedia não está em aplicar terapias biológicas indiscriminadamente, mas em integrá-las com critério, baseadas em diagnóstico preciso, evidência científica, protocolos claros e reabilitação de qualidade. A medicina regenerativa já é parte do presente, o desafio agora é torná-la mais padronizada, acessível e protegida do ruído que atrasa sua adoção responsável.

Em resumo, vale deixar claro: medicina regenerativa não é promessa de cura. É tratamento sério, com indicação correta, ciência, regulação e integração com todo o cuidado ortopédico. E, como em toda boa medicina, desconfiança saudável ainda é um dos melhores sinais de maturidade.

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*Fonte: Comunica PR e Dr. Adriano Leonardi, ortopedista, especialista em joelho e médico do esporte

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