Dias mais longos, sol forte e mais atividades ao ar livre costumam marcar o verão. Mas, para quem convive com doenças reumáticas, essa época do ano exige cuidados extras. No Brasil, cerca de 15 milhões de pessoas vivem com algum tipo de condição reumatológica, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia - um número que reforça a importância de informação e prevenção durante os meses mais quentes.
Altas temperaturas, exposição solar intensa e desidratação podem funcionar como gatilhos para dores, fadiga e crises inflamatórias, especialmente em doenças crônicas. Por isso, entender como o verão impacta o organismo é um passo essencial para atravessar a estação com mais conforto e segurança.
Quando o sol vira um fator de risco
Algumas doenças reumáticas pedem atenção redobrada no verão, e o lúpus está entre as principais. Trata-se de uma condição autoimune crônica, na qual o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis do próprio corpo, podendo atingir articulações, pele, rins, coração, cérebro e pulmões.
Os sinais variam bastante de pessoa para pessoa e podem surgir aos poucos ou de forma repentina. Entre os sintomas mais comuns estão cansaço intenso, febre baixa persistente, perda de apetite e peso, dores e inchaço nas articulações, alterações na pele e falta de ar.
Segundo a reumatologista Cláudia Goldenstein Schainberg, a exposição solar pode intensificar esses quadros. "Além desses sinais, manifestações cutâneas e musculoesqueléticas costumam se intensificar com a exposição solar", explica.
Por que o verão pode agravar os sintomas?
Durante o verão, a radiação ultravioleta tende a estimular o sistema imunológico, o que pode favorecer surtos inflamatórios em quem já tem uma doença reumática. Além disso, alguns medicamentos usados no tratamento aumentam a sensibilidade da pele ao sol.
"A exposição solar prolongada pode piorar o quadro por diferentes fatores, como o uso de medicamentos fotossensibilizantes, a sensibilidade aos raios ultravioleta e a intensificação das manifestações cutâneas", alerta a especialista. Não é só o lúpus que entra nessa lista. Artrite reumatoide, espondiloartrites e outras condições inflamatórias também podem sofrer impacto do calor excessivo, especialmente quando vêm acompanhadas de desidratação.
O calor ajuda ou atrapalha as dores?
Existe a ideia de que temperaturas mais altas aliviam dores articulares - e, em parte, isso pode ser verdade. O calor tende a promover relaxamento muscular e reduzir a rigidez, o que traz alívio temporário para algumas pessoas. "Temperaturas mais altas geralmente promovem um relaxamento muscular, o que pode diminuir a rigidez nas articulações. No entanto, o impacto do calor não é uniforme para todos os pacientes", explica Cláudia.
Por outro lado, o calor intenso favorece a perda de líquidos, o que pode aumentar a fadiga e piorar dores, sobretudo em doenças inflamatórias. "Manter-se bem hidratado é essencial para evitar crises de dor, além de prevenir o aumento da fadiga, muito comum em pacientes reumáticos durante o verão", completa.
Cuidados essenciais para atravessar o verão melhor
Algumas atitudes simples fazem grande diferença na saúde reumática durante o verão. Entre as principais recomendações estão:
- Usar protetor solar diariamente, com FPS 50 ou superior;
- Reaplicar o produto a cada duas horas;
- Preferir roupas com proteção UV, chapéus e óculos escuros;
- Evitar exposição direta ao sol entre 10h e 16h;
- Ajustar atividades físicas para horários mais frescos;
- Seguir corretamente o tratamento médico;
- Manter acompanhamento regular com o reumatologista.
"Com cuidados consistentes, o paciente consegue viajar, aproveitar as férias e manter a rotina com mais segurança. A prevenção é a principal aliada para preservar a saúde reumática no verão e evitar crises", reforça Goldenstein.
Mitos comuns sobre doenças reumáticas no verão
- "O calor cura doenças reumáticas": Mito. Essas condições têm origem autoimune, genética ou degenerativa. O clima não elimina a doença;
- "Banhos quentes resolvem todas as dores": Mito. Eles podem relaxar a musculatura, mas o excesso de calor pode causar inchaço, especialmente nas extremidades;
- "No verão, dá para reduzir os medicamentos": Mito. Mesmo com alívio temporário dos sintomas, o tratamento não deve ser interrompido. A continuidade evita complicações a longo prazo.
Para quem convive com doenças reumáticas, o verão não precisa ser sinônimo de limitação. Com informação, acompanhamento médico e hábitos de cuidado, é possível aproveitar a estação com mais equilíbrio, conforto e qualidade de vida - respeitando os limites do corpo e mantendo a saúde em primeiro lugar.