Por que tantos jovens estão infartando e o que o mundo moderno tem a ver com isso

O aumento de infartos em pessoas com menos de 40 anos acende um alerta sobre estilo de vida, estresse crônico e saúde mental - fatores que hoje pesam tanto quanto os riscos tradicionais

3 fev 2026 - 07h10

Esse é um daqueles temas que assustam porque desmontam uma certeza antiga, quase confortável. Durante muito tempo, infarto foi algo associado ao envelhecimento, a um corpo que já teria passado por excessos demais, a uma conta que só chegaria lá na frente. Hoje, essa lógica não se sustenta mais. Jovens estão infartando. E quando isso acontece, não é apenas o coração que falha. É uma narrativa inteira que desmorona.

Infartos em jovens estão se tornando mais frequentes e refletem mudanças profundas no estilo de vida; entenda o que impacta a saúde do coração
Infartos em jovens estão se tornando mais frequentes e refletem mudanças profundas no estilo de vida; entenda o que impacta a saúde do coração
Foto: Reprodução: Canva/Stefanut Sava's Images / Bons Fluidos

Eu começo este texto com uma frase que tem se repetido com frequência nos consultórios e nas emergências, quase sempre acompanhada de silêncio e espanto. "Cada vez mais nós, cardiologistas, atendemos adultos jovens, muitas vezes com menos de 40 anos, com infarto do miocárdio". O alerta é da cardiologista Ana Konig. E ele não é retórico. Não é exagero. É clínico. É cotidiano. É real.

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Durante muito tempo, infarto foi visto como algo distante da juventude. Um evento associado à idade avançada, a décadas de hábitos ruins ou a um futuro ainda muito longe, quase abstrato. Hoje, jovens chegam às emergências com dor no peito, arritmias, falta de ar e, em alguns casos, infarto instalado. Muitos fazem exercício. Alguns nunca fumaram. Outros não se encaixam em nada do que aprendemos como "perfil clássico de risco". Isso assusta. E, como a própria Dra. Ana Konig reforça, assusta com razão.

Infartos em jovens eram menos frequentes. O que mudou, segundo ela, não foi o coração humano, mas os fatores de risco, que hoje aparecem mais cedo e com muito mais intensidade. Existe uma ideia persistente de que o infarto acontece de forma súbita, inesperada, como se surgisse do nada, como um evento isolado e imprevisível. Mas isso não corresponde ao que a cardiologia observa na prática diária.

Como explica a Dra. Ana Konig, o infarto é o desfecho de um processo lento. A aterosclerose, que é o acúmulo de placas de gordura nas artérias, não se forma da noite para o dia. Ela se constrói em silêncio, ao longo dos anos, muitas vezes começando ainda na adolescência, especialmente quando determinados hábitos estão presentes desde cedo e seguem sendo reforçados pela forma como vivemos. E é exatamente aqui que o mundo moderno entra de forma decisiva nessa história.

De acordo com a cardiologista, trata-se de uma combinação de fatores. Nunca se passou tanto tempo sentado. O sedentarismo deixou de ser exceção e virou estrutura de vida. Trabalhamos sentados, descansamos sentados, nos distraímos sentados. O corpo foi feito para o movimento, mas o mundo foi organizado para a imobilidade, para a economia de energia física e o excesso de estímulo mental.

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A alimentação ultraprocessada se tornou rotina. O sobrepeso e a obesidade aparecem cada vez mais cedo. O tabagismo segue presente, agora também na forma do cigarro eletrônico, muitas vezes percebido como algo menos nocivo, quase inofensivo, quando não é. O sono se fragmentou. Dorme-se menos. Dorme-se pior. Dormir virou algo negociável, adiado, trocado por mais uma entrega, mais uma tela, mais um compromisso. 

O estresse crônico, como destaca a Dra. Ana Konig, é um fator central nesse cenário. E aqui é impossível não olhar para a saúde mental com mais profundidade. Não estamos falando do estresse pontual, que sempre fez parte da vida humana. Estamos falando de viver em estado contínuo de alerta, como se algo estivesse sempre prestes a dar errado.

O cérebro moderno é bombardeado o tempo todo por cobranças, comparações, prazos, instabilidade financeira, excesso de informação e estímulos que não cessam. Vivemos na era da comparação permanente. As redes sociais expõem vidas editadas, corpos idealizados, carreiras que parecem sempre mais avançadas do que a nossa. O jovem cresce com a sensação constante de estar atrasado, de não ser suficiente, de precisar correr mais para não ficar para trás.

A isso se soma a precarização do descanso e do trabalho. Jornadas emocionais longas, vínculos instáveis, sensação de substituibilidade, dificuldade de desligar. O trabalho entra no quarto, na cama, no fim de semana, na mente. Não há fronteira clara entre produzir e existir.

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O descanso vira culpa. O silêncio vira desconforto. Estar ocupado vira sinônimo de valor pessoal. O corpo não entende metas, produtividade ou likes. Ele entende ameaça.

Quando o cérebro percebe ameaça constante, ativa repetidamente o sistema do estresse. A frequência cardíaca aumenta. A pressão arterial sobe. O cortisol permanece elevado. Processos inflamatórios se instalam de forma silenciosa. As artérias sofrem microagressões contínuas. O coração trabalha mais do que deveria, por mais tempo do que foi feito para suportar.

A Dra. Ana Konig também chama atenção para outros fatores que agravam esse cenário, como o uso crescente de drogas estimulantes, entre elas cocaína e anfetaminas, e o uso de anabolizantes, que impõem uma sobrecarga direta e perigosa ao sistema cardiovascular. Em mulheres jovens, fatores específicos como o uso de anticoncepcionais e complicações gestacionais também elevam o risco, muitas vezes sem que isso seja claramente discutido fora do consultório médico.

A genética importa, mas, como a cardiologista ressalta, o estilo de vida pode acelerar ou retardar muito o aparecimento da doença. O que antes levaria décadas para se manifestar, hoje pode aparecer em poucos anos, porque o ritmo de vida encurtou o tempo do corpo.

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É verdade que hoje também diagnosticamos mais. Temos mais acesso a exames, mais informação e mais divulgação na mídia. A Dra. Ana Konig reconhece isso. Mas isso não explica tudo. O risco real aumentou porque o modo de vida mudou rápido demais, enquanto o corpo humano continua sendo essencialmente o mesmo, com os mesmos limites biológicos.

O corpo jovem compensa. Aguenta. Dá sinais sutis que costumam ser ignorados ou normalizados. Taquicardia frequente. Cansaço constante. Irritabilidade. Aperto no peito atribuído apenas à ansiedade. Falta de ar que aparece e some. Sintomas que muitas vezes são tratados isoladamente, sem que o contexto de vida seja realmente considerado. Até o dia em que o limite chega.

A boa notícia, como reforça a Dra. Ana Konig, é que grande parte desses infartos poderia ser evitada. Atividade física regular, cerca de 150 minutos por semana. Alimentação equilibrada. Controle do peso. Não fumar, nem um pouco, nem socialmente. Dormir bem, entre sete e oito horas por noite. Acompanhamento médico regular. Ter um cardiologista para chamar de seu.

Mas há algo que precisa ser dito com clareza. Cuidar da saúde mental hoje é também cuidado cardiovascular. Aprender a desacelerar, colocar limites, reduzir a hiperestimulação, recuperar o direito ao descanso e ao tédio não é luxo, nem privilégio. É prevenção.

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O coração não adoece sozinho. Ele responde ao jeito como se vive, ao ritmo que se impõe, às pressões que se aceita como normais. Cuidar do coração não é algo para depois. Como lembra a Dra. Ana Konig, é uma decisão que começa cedo. Não é só sobre viver mais. É sobre viver bem, por mais tempo.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

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