Durante participação recente no programa Roda Viva, Miguel Falabella trouxe à tona uma discussão que atravessou boa parte de sua trajetória artística: a decisão de não transformar sua vida pessoal em assunto público. Aos 69 anos, o ator, diretor, autor e apresentador explicou que a escolha de manter discrição sobre sua orientação sexual não nasceu do desejo de esconder quem era, mas da preocupação em preservar sua liberdade profissional em uma época marcada por muito mais preconceito do que vemos hoje.
Ao comentar as especulações que sempre existiram em torno de sua vida afetiva, Falabella afirmou que nunca se sentiu verdadeiramente prejudicado pelos rumores. Segundo ele, isso aconteceu porque desde o início da carreira estabeleceu limites claros entre o artista e o homem fora dos palcos.
"A fofoca nunca me atrapalhou porque eu sempre soube me blindar. Eu nunca transformei a minha vida num espetáculo. Eu tenho tanto o que mostrar que eu não vou ficar mostrando minha intimidade", declarou.
A fala revela uma postura que acompanhou o artista durante décadas. Em vez de utilizar aspectos da vida pessoal como extensão de sua imagem pública, ele preferiu direcionar a atenção para o trabalho. Para Falabella, a exposição da intimidade nunca foi uma necessidade.
O medo de que um único aspecto definisse toda a carreira
Ao recordar o cenário cultural das décadas passadas, o artista reconheceu que o preconceito existente influenciava suas decisões. Embora afirme não ter recebido orientações explícitas para esconder sua sexualidade, ele diz que existia uma percepção coletiva sobre os limites impostos aos artistas que fugiam dos padrões esperados pela indústria. "Até porque, na época em que nós vivemos, com o preconceito [que tinha], talvez eu não tivesse feito metade das coisas que eu fiz", refletiu.
Falabella explicou que sua preocupação não era apenas com a discriminação direta, mas também com o risco de reduzir-se a uma única característica. Segundo ele, uma vez que a sociedade cria uma etiqueta para alguém, é difícil escapar dela. "Nunca me falaram isso abertamente, mas a gente sentia".
Para o artista, havia um receio de que sua identidade pessoal passasse a ocupar mais espaço do que suas realizações profissionais. "Não queria fazer uma carreira em cima disso, não queria ser colocado em uma prateleira, porque depois que te colocam, você não sai mais."
A crítica aos rótulos
Um dos momentos mais marcantes da entrevista aconteceu quando Falabella ampliou a discussão para além da sexualidade. Ele explicou que sempre teve resistência a qualquer tipo de classificação que transformasse uma pessoa em uma definição única.
Como exemplo, relembrou uma conversa com a atriz Zezé Polessa sobre envelhecimento e exposição pública. Segundo ele, quando alguém destaca excessivamente uma característica, corre o risco de ser visto apenas por ela.
"Não fala que você está fazendo 70 anos, não precisa pregoar. Agora tudo será 'a septuagenária', você deixou de ser uma pessoa, virou a 'septuagenária'". A observação reflete uma visão que o acompanha há anos: a de que artistas, e pessoas em geral, são muito mais complexos do que qualquer categoria criada para descrevê-los. "Nunca quis ter rótulos e etiquetas grudadas no meu corpo e no meu ser artista, entendeu? Eu me blindei mesmo e uma época foi bem cascuda."
Uma estratégia de sobrevivência profissional
O relato de Falabella também oferece um retrato importante do contexto vivido por muitos artistas de sua geração. Em um período no qual a diversidade ainda encontrava pouca representatividade na televisão e no entretenimento, preservar determinados aspectos da vida privada era, para alguns profissionais, uma forma de proteger oportunidades e evitar limitações impostas pelo mercado.
Ao olhar para trás, o artista não demonstra arrependimento. Pelo contrário: suas declarações sugerem que a discrição foi uma decisão consciente para garantir que sua obra falasse mais alto do que qualquer aspecto de sua vida pessoal.
Depois de mais de 50 anos de carreira, responsável por sucessos no teatro e na televisão, Miguel Falabella parece reafirmar uma convicção que sempre guiou sua trajetória: antes de qualquer rótulo, ele queria ser reconhecido pelo seu trabalho. E talvez seja justamente essa recusa em caber em definições simples que tenha ajudado a construir uma carreira tão plural e duradoura.