Enxaqueca é genética, mas fatores ambientais agravam a doença, dizem especialistas

Tratamento adequado requer medicamentos e mudanças no estilo de vida e é fundamental para a redução do risco de progressão da doença

16 mar 2026 - 08h39

A enxaqueca é muito mais do que uma simples dor de cabeça. Trata-se de uma condição neurológica complexa que pode afetar significativamente a qualidade de vida. Embora exista um componente genético envolvido, especialistas explicam que diversos fatores do dia a dia também podem influenciar a frequência e a intensidade das crises. 

Entenda o que causa a enxaqueca e veja hábitos que ajudam a reduzir as crises, segundo neurologista especialista em cefaleia
Entenda o que causa a enxaqueca e veja hábitos que ajudam a reduzir as crises, segundo neurologista especialista em cefaleia
Foto: Reprodução: Karola G/Pexels / Bons Fluidos

O que causa a enxaqueca?

Certos fatores estão relacionados ao estilo de vida e podem ser ajustados ao longo do tempo. Outros, no entanto, fazem parte de características individuais do organismo. "Alguns deles são os chamados fatores de risco modificáveis, ou seja, coisas sobre as quais as pessoas podem ter algum controle, como tabagismo, obesidade, restrição de sono e uso excessivo de medicamentos e estimulantes", explicou o neurologista Dr. Tiago de Paula.

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"Infelizmente, alguns outros fatores de risco são considerados não modificáveis, como histórico familiar de enxaqueca e ser do sexo feminino. As mulheres manifestam mais quadros de enxaqueca do que os homens, cerca de três vezes mais, segundo estudos populacionais. As oscilações do estrogênio (na menstruação, ovulação, gravidez e menopausa) afetam a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores, como serotonina e CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e isso acaba por potencializar mais a doença nas mulheres", diz o especialista em cefaleia.

Por que tratar a enxaqueca é tão importante

Segundo o médico, quando não é tratada adequadamente, a enxaqueca pode se tornar cada vez mais frequente. Pessoas que apresentam três ou mais dias de crise por mês têm maior risco de desenvolver a chamada enxaqueca crônica.

"O risco de enxaqueca crônica aumenta quando as pessoas têm três ou mais dias de crises de enxaqueca por mês. Principalmente, quando utilizam muitos remédios de crise que cronificam a doença pela cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Esses medicamentos não tratam a doença e, quanto mais remédios você toma, menos eles funcionam e mais dor você sente. É um quadro conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Além disso, esses remédios podem prejudicar a eficácia dos tratamentos de primeira linha", alerta o médico.

Para explicar como o cérebro cria esse padrão de dor, o especialista usa uma metáfora simples. "Explicando de forma alegórica, quanto mais frequentemente o caminho é percorrido, mais fácil é para o cérebro encontrá-lo na próxima vez e maior a probabilidade de o cérebro percorrer o caminho da crise de enxaqueca novamente. Tentar deixar as plantas crescerem sobre o caminho pode evitar que ele se torne maior com o tempo. Isso deve incluir tratamentos preventivos, que visam reduzir o número de crises e aumentar a quantidade de tempo que o cérebro passa fora do caminho das crises de enxaqueca".

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Ele acrescenta que o estilo de vida também influencia diretamente nesse processo. "Por outro lado, se uma pessoa não trata a enxaqueca, tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direito, ela tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves. Mas não podemos colocar as pessoas em uma bolha, por isso a doença deve ser tratada".

Tratamentos que ajudam a controlar a doença

Hoje, existem abordagens modernas para o controle da enxaqueca, que combinam mudanças no estilo de vida com terapias médicas específicas. "Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida acompanhadas por nutricionistas e psicólogos, utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição. Como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a excitabilidade cerebral diminuindo progressivamente a sensibilidade do cérebro a dor. Ajudando, assim, no controle da enxaqueca".

Outra alternativa envolve medicamentos chamados anti-CGRP, desenvolvidos especificamente para tratar a doença. "Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca".

Em alguns casos, a combinação dessas terapias pode trazer resultados ainda melhores para pacientes com quadros crônicos.

Hábitos que podem ajudar a reduzir as crises

Além do tratamento médico, pequenas mudanças na rotina também podem contribuir para o controle da enxaqueca. Entre as recomendações mais comuns, estão:

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1. Manter uma rotina de sono regular

"Muitas pessoas com enxaqueca sentem que seu sono é afetado. É um ciclo vicioso: crises de enxaqueca e dor podem dificultar o sono. Quando alguém com enxaqueca não dorme bem, isso pode desencadear mais crises. Esse ciclo torna o sono uma parte importante do controle da enxaqueca", diz o médico.

2. Praticar atividade física regularmente

"Mas o exercício pode reduzir a frequência, a gravidade e a duração das crises de enxaqueca em pacientes que toleram. Acredita-se que o exercício eleva os níveis de betaendorfinas, substâncias químicas que podem reduzir o estresse e a dor".

3. Fazer refeições em horários regulares

"O cérebro do paciente com enxaqueca prospera com a consistência. Por isso, é importante fazer refeições regulares ao longo do dia, manter-se hidratado e evitar o jejum".

4. Registrar as crises em um diário

"Ele permite identificar gatilhos, frequência e gravidade das crises, facilitando o diagnóstico e a criação de um plano de tratamento adequado com o médico".

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5. Investir em técnicas de relaxamento

"Já o mindfulness contribui para a regulação emocional, melhora da atenção e redução da reatividade ao estresse e à dor, atuando diretamente na redução da carga alostática que pode precipitar crises".

Segundo o especialista, práticas como respiração profunda, relaxamento muscular e mindfulness podem ajudar a equilibrar o sistema nervoso e diminuir a probabilidade de novas crises. "Além disso, controlar o estresse é importante para encontrar atividades prazerosas. Pequenas mudanças no estilo de vida podem ter um impacto significativo no controle da enxaqueca", finaliza.

Sobre o especialista

Dr. Thiago de Paula (CRMSP 168999 | RQE 18111) é médico neurologista e especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP). Membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atualmente, integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). 

*Fonte: Holding Comunicação

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