A amamentação exclusiva até os 6 meses e prolongada até os 2 anos traz benefícios para mães, bebês e até empresas, reduzindo doenças e fortalecendo vínculos. Iniciativas como salas de ordenha e horários flexíveis no trabalho ajudam mães a continuar amamentando após a licença, promovendo bem-estar e melhores relações no ambiente corporativo. 🍼✨
Amamentar é, acima de tudo, uma questão de saúde pública e qualidade de vida
A Organização Mundial da Saúde é taxativa: o aleitamento materno é a estratégia mais eficaz para nutrição e fortalecimento do sistema imunológico infantil. Deve ser mantido com exclusividade por, no mínimo, seis meses, e, idealmente, estendido até os dois anos ou mais.
Para as mães, o aleitamento reduz o risco de hemorragia pós-parto, diminui a incidência de câncer de mama e ovário e aprofunda o vínculo afetivo com o bebê. Já para os pequenos, o leite é o padrão-ouro da alimentação — rico em anticorpos, com dose certa de nutrientes e fundamental para a regulação emocional. O termo 'ouro' inspirou o nome da campanha de incentivo no Brasil: Agosto Dourado. Entretanto, ainda que a ciência reafirme esses benefícios, a sociedade — inclusive o ambiente de trabalho — segue alimentando mitos que colocam o aleitamento em segundo plano.
Fala chocante
Aconteceu em Portugal, mas poderia ser no Brasil: em 2025, Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social portuguesa, afirmou em entrevista que desejava endurecer as leis de apoio a mães lactantes. Sem apresentar provas, ela ironizou a necessidade de amamentar crianças mais velhas, insinuando que as mulheres o fariam apenas para trabalhar menos.
Essa fala pode até se passar por preocupação com a produtividade, mas esconde diversas problemáticas: além de descredibilizar as mulheres, dá a impressão de que o aleitamento materno é uma escolha banal. "Amamentar não é apenas uma decisão individual, nem deve ser visto como luxo: é um direito, e esse direito deve ser estendido ao ambiente de trabalho. Quando a empresa apoia isso, colhe frutos de confiança, lealdade e bem-estar", afirma Loretta Campos, pediatra e fundadora do Espaço Zune, clínica de referência em Goiânia.
A lei brasileira
Legalmente falando, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante uma licença-maternidade de 120 dias (quatro meses), com a possibilidade de extensão para 180 dias (seis meses), através do Programa Empresa Cidadã, além de dois intervalos diários de 30 minutos para amamentação ou ordenha e estabilidade no emprego até cinco meses após o parto.
Porém, Cinthia Calsinski, Enfermeira Obstetra e Consultora Internacional de Amamentação, reforça: é preciso ir além. "A partir dessa base legal, é possível avançar com políticas internas mais completas, como horários flexíveis, retorno gradual ao trabalho e acompanhamento da colaboradora no retorno da licença. Essas ações mostram valorização da maternidade e contribuem para a continuidade da amamentação, algo que traz benefícios comprovados à saúde", orienta.
A amamentação após a licença é possível
Um mito persistente entre as novas mães é que o fim da licença-maternidade significa o fim do aleitamento. Mas, com o apoio do ambiente profissional, essa não precisa ser a realidade. Uma prática simples e eficaz é a criação de um ambiente na empresa para a amamentação e ordenha do leite, medida indicada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde. "Mesmo que não seja obrigatória por lei para todas as empresas, é uma medida de cuidado concreto que facilita a ordenha e o armazenamento do leite no ambiente de trabalho", complementa a especialista.
A recomendação da especialista é que esse espaço seja reservado, arejado, com uma poltrona confortável, pia com água corrente, tomada próxima (para bomba elétrica), geladeira exclusiva e boa higiene. "Essa estrutura demonstra comprometimento da empresa com o bem-estar da colaboradora, o que ajuda a manter a produção de leite mesmo à distância do bebê."
Provando que é possível
O Espaço Zune, por exemplo, conta com uma política interna de incentivo ao aleitamento após o fim da licença. "Adaptamos nossas políticas oferecendo flexibilidade de horários, intervalos para ordenha e um olhar individualizado para cada colaboradora que está nessa fase. Respeitamos esse momento como parte do cuidado integral à saúde da mãe e do bebê", descreve.
Por lá, há um ambiente reservado para que as mães possam amamentar ou fazer a ordenha do leite materno. "O espaço conta com poltrona, lavatório, tomada, iluminação suave e um ambiente limpo e tranquilo, ideal para que esse momento aconteça com calma, mesmo durante o expediente."
Ela descreve que o maior desafio para aplicar essas políticas foi ajustar as rotinas de trabalho com flexibilidade e empatia, entendendo que cada puerpério é diferente. "Outro ponto foi quebrar o mito da 'produtividade perfeita' — mostrar que uma mãe que amamenta pode ser produtiva sim, desde que acolhida e respeitada em suas necessidades. Isso exige sensibilidade e uma cultura organizacional madura", explica.
Para a profissional, foram só benefícios. "As colaboradoras estão mais seguras, motivadas e gratas por poderem viver a maternidade de forma mais leve, sem precisar esconder ou sentir culpa. Além disso, percebemos melhora no clima organizacional, fortalecimento de vínculos entre equipe e empresa, e maior engajamento no retorno da licença-maternidade."
É bom para todo mundo
Amamentar faz bem ao planeta, pois gera menos resíduos. Também é benéfico para a mãe e para o bebê, já que fortalece o vínculo e a saúde de ambos. É excelente para a saúde pública, pois o leite materno reduz a incidência de doenças ao longo da vida. E a enfermeira Cinthia Calsinski lista os motivos pelos quais também é vantajoso para os empregadores:
- Menos faltas, já que bebês amamentados adoecem menos;
- Maior retenção de funcionárias no pós-parto, o que reduz o turnover e os custos de reposição;
- Melhora do clima organizacional, com maior satisfação e engajamento das colaboradoras;
- Fortalecimento da marca empregadora, especialmente entre mulheres em idade fértil.
Dicas práticas
Além da sala de amamentação, Loretta confirma que, no Espaço Zune, há investimento em rodas de escuta e em treinamentos com gestores, trazendo informações baseadas em evidências. Ela reforça que a base de tudo deve ser a escuta ativa. "Comece pelo básico: ouça suas colaboradoras; entenda suas dores, rotinas, dificuldades e desejos. A partir disso, crie um espaço físico simples, mas funcional, e abra espaço para conversas internas sobre o tema."
E sim, é preciso falar sobre amamentação, já que outro grande mito envolve a vergonha que as mulheres sentem ao reivindicar seus direitos. "Muitas relatam que não encontram apoio, não têm onde ordenhar e sentem vergonha ou receio de solicitar pausas. Isso pode levar ao desmame precoce ou ocasionar complicações, como dores, mastite e ingurgitamento. A mulher que retorna ao trabalho precisa ser humanizada", afirma Cinthia.
Na prática, isso significa investir em campanhas educativas internas, rodas de conversa e treinamentos específicos para gestores sobre os direitos da mulher lactante, os benefícios da amamentação e como criar um ambiente acolhedor. "Além disso, oferecer cartilhas digitais, vídeos e incluir o tema em manuais de RH ajuda a naturalizar a discussão dentro da cultura corporativa", conclui.