Uso de IA prejudica aprendizado nas escolas, diz pesquisa

Pesquisa com mais de 25 mil estudantes mostra que delegar tarefas à inteligência artificial pode melhorar notas dos deveres, mas prejudicar o desempenho nas provas

10 ago 2026 - 13h10

A inteligência artificial (IA) pode facilitar pesquisas, explicar conteúdos difíceis e até funcionar como uma espécie de professor particular. Mas, quando passa a fazer pelo estudante aquilo que ele deveria exercitar sozinho, a tecnologia pode produzir um efeito preocupante: tarefas melhores, feitas em menos tempo, acompanhadas de um desempenho pior nas provas.

Estudo aponta que alunos que usam IA para fazer lições podem ter desempenho até 20% pior nas provas; entenda 
Estudo aponta que alunos que usam IA para fazer lições podem ter desempenho até 20% pior nas provas; entenda
Foto: Reprodução: Gustavo Fring/Pexels / Bons Fluidos

É o que indica um amplo estudo realizado com mais de 25 mil estudantes chineses, com idades entre 12 e 18 anos. A pesquisa acompanhou adolescentes durante 30 meses, entre setembro de 2022 e junho de 2025, justamente em um período no qual ferramentas de inteligência artificial generativa começaram a se popularizar.

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O trabalho, intitulado "The Generative AI Learning Penalty", analisou tanto a utilização da tecnologia nas atividades escolares quanto as notas obtidas posteriormente pelos alunos. O artigo foi divulgado pelo Centro de Pesquisa de Política Econômica (CEPR), mas ainda não passou pela publicação em uma revista científica.

Notas nas provas caíram após adoção da IA

Os pesquisadores David Strömberg, Victor Lei e Yanhui Wu observaram uma diferença significativa entre os estudantes que passaram a recorrer à inteligência artificial para resolver o dever de casa e aqueles que não adotaram a tecnologia para essa finalidade.

Seis meses depois do início do uso, os alunos que delegavam atividades à IA apresentavam, em média, desempenho 20% menor nas avaliações mensais. Foram consideradas nove disciplinas, envolvendo áreas como matemática, ciências, humanas e línguas. A diferença variou conforme a área estudada. Nas disciplinas de humanas, a queda chegou a 27%. Em exatas, ficou em 22%. No inglês, o desempenho foi 17% menor e, no chinês, 9%.

Quanto mais tempo usando, maior foi o impacto

A pesquisa também analisou duas avaliações importantes da educação chinesa: o Zhongkao, realizado para o ingresso no ensino médio, e o Gaokao, exame utilizado no acesso à universidade.

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Entre os estudantes que já recorriam à IA havia pelo menos dois anos antes do Zhongkao, as notas ficaram, em média, 24% abaixo das obtidas por aqueles que não delegavam as tarefas à ferramenta. Quando o uso havia começado mais próximo da data da prova, a diferença era menor.

No exame de acesso à universidade, o padrão também apareceu. Aqueles que utilizavam inteligência artificial para fazer o dever de casa havia pelo menos dois anos tiveram desempenho 18% inferior. Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram registros oficiais de desempenho escolar com informações sobre quando cada adolescente começou a recorrer às ferramentas.

Lição melhor e prova pior

Um dos resultados mais curiosos apareceu justamente nas atividades feitas em casa. Enquanto o desempenho nas provas piorava, as notas dos deveres aumentavam. Após seis meses recorrendo à inteligência artificial, os estudantes apresentaram uma melhora de 18% nas avaliações das tarefas de casa em comparação aos colegas que não utilizavam a tecnologia.

Além disso, passaram a terminar os exercícios mais rapidamente. Antes da adoção da IA, uma tarefa exigia, em média, 64 minutos. Entre aqueles que começaram a utilizar as ferramentas, esse tempo caiu para aproximadamente 45 minutos - redução de cerca de 30%.

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À primeira vista, o cenário poderia parecer positivo: trabalhos melhores em menos tempo. O problema surgiu quando os estudantes precisaram demonstrar, sem auxílio, aquilo que realmente haviam aprendido.

Tradicionalmente, um bom desempenho nas tarefas tende a acompanhar bons resultados nas avaliações. Entre os usuários de IA analisados, porém, os pesquisadores encontraram o movimento contrário: quanto melhores ficavam as notas dos deveres, piores eram os resultados nas provas.

O problema não é usar inteligência artificial

Os próprios autores fazem uma distinção importante. Os resultados não significam que qualquer contato com inteligência artificial necessariamente prejudique o aprendizado. O efeito depende principalmente da maneira como a tecnologia é utilizada.

Uma ferramenta pode, por exemplo, explicar um raciocínio, elaborar perguntas, oferecer pistas ou ajudar o aluno a compreender onde errou. Nesse contexto, ela funciona como uma espécie de tutor.

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A situação muda quando o estudante entrega à IA a responsabilidade de solucionar o exercício inteiro e apenas utiliza a resposta pronta. Nesse caso, economiza tempo naquele momento, mas também deixa de passar por etapas importantes do aprendizado, como tentar, errar, revisar e encontrar uma solução.

Aprender continua sendo necessário mesmo com a IA

A preocupação dos pesquisadores vai além das notas escolares. Para utilizar a própria inteligência artificial de maneira eficiente no futuro, ainda seria necessário ter conhecimento suficiente para orientar a ferramenta e avaliar aquilo que ela produz.

O estudo chama atenção, portanto, para uma diferença que pode se tornar cada vez mais importante dentro das escolas: usar inteligência artificial para aprender não é a mesma coisa que usá-la para evitar o processo de aprendizagem.

A facilidade de receber uma resposta pronta pode ser tentadora, principalmente porque o benefício é imediato: sobra tempo e o dever fica pronto mais rapidamente. Já a consequência de deixar de exercitar determinadas habilidades pode demorar meses ou até anos para ficar evidente.

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"Mesmo assim, verificamos que os alunos usam IA e, consequentemente, aprendem menos. Uma razão pode ser que os estudantes não percebem o tamanho dos efeitos negativos, porque a perda de conhecimento ocorre de forma gradual, enquanto as consequências plenas só se manifestam dois anos depois."

Para os autores, esse intervalo entre a facilidade imediata e os possíveis prejuízos futuros ajuda a explicar por que os adolescentes continuam delegando atividades à tecnologia. O desafio, agora, não parece ser simplesmente afastar a inteligência artificial das salas de aula, mas ensinar os jovens a utilizá-la sem abrir mão justamente da parte mais importante: pensar, praticar e construir o próprio conhecimento.

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