Por muito tempo, eu lutei contra essa frase: 'As coisas são como são'. Ela me parecia dura, quase seca demais. Eu acreditava que aceitá-la era desistir, baixar a cabeça, abrir mão de desejar algo melhor. Com o tempo, fui entendendo que não se tratava disso. Hoje percebo que essa frase não fala de resignação, mas de honestidade. Fala sobre parar de brigar com a realidade.
Grande parte do meu sofrimento nunca veio exatamente do que aconteceu, mas daquilo que eu imaginei que poderia ter sido diferente. Das conversas que não aconteceram, das pessoas que não foram como eu esperava, das situações que, na minha cabeça, tinham tudo para dar certo. Eu sofria menos pelo fato em si e mais pela história paralela que eu criava - uma realidade alternativa onde tudo fazia mais sentido, onde as pessoas reagiam melhor, onde eu mesmo agia melhor.
Aos poucos, fui percebendo o quanto isso é cansativo. Um cansaço silencioso, quase invisível. Viver comparando o presente com uma versão idealizada da vida desgasta, porque nada nunca parece suficiente. Sempre existe um "poderia ter sido" e enquanto a gente insiste nesse "poderia", o "é" vai passando despercebido.
Isso ficou muito claro para mim nas relações. Levei tempo para entender que cada pessoa só consegue agir a partir do nível de consciência que tem naquele momento. Cada um enxerga o mundo conforme o próprio crescimento emocional e espiritual. Esperar que alguém tenha uma postura, uma sensibilidade ou uma compreensão que ainda não cabem dentro dele é exigir o impossível não por falta de vontade, mas por limite.
Quando eu cobrava do outro algo que ele não conseguia oferecer, eu me frustrava. Quando tentava forçar mudanças, só criava distância. Com o tempo, fui percebendo que não era desinteresse nem descaso; era falta de alcance. As pessoas simplesmente não enxergavam além daquilo. E tudo bem. Cada um está onde consegue estar. Nenhum processo pode ser apressado sem gerar ruptura.
Aceitar isso não foi simples. Houve um certo luto ao perceber que algumas expectativas nunca seriam atendidas. Mas, junto com esse luto, veio um alívio profundo. Parei de exigir, de insistir, de esperar demais. Comecei a escolher melhor onde colocar minha energia. Aceitar o limite do outro não significa concordar com tudo, mas significa parar de sofrer por algo que nunca virá.
Nesse caminho, também comecei a questionar a ideia de felicidade. Sempre me disseram que eu deveria buscá-la, como se fosse um objetivo permanente, quase uma obrigação. Mas essa busca constante me cansava. Havia sempre a sensação de que algo ainda faltava, de que a vida real estava aquém do ideal. Se eu não estivesse feliz, parecia que eu estava falhando.
Com o tempo, fui entendendo que talvez a felicidade não precise ser o centro de tudo. A vida não é feita de estados contínuos de alegria, mas de presença. Há momentos neutros, silenciosos, difíceis e eles também fazem parte. Forçar felicidade onde não há espaço para ela só aumenta a frustração. Quando a felicidade vira meta, qualquer outro estado vira erro.
Lembro-me de uma vez, em uma palestra budista, ter ouvido algo que me causou desconforto: a ideia de que a esperança poderia ser um dos grandes males da humanidade. Não porque ela seja ruim em si, mas porque quem vive de esperança vive na espera. E viver esperando é exaustivo. Espera-se que a vida melhore, que a dor passe, que tudo finalmente se resolva. Enquanto isso, o presente vai sendo adiado.
Essa reflexão ficou em mim. Com o tempo, percebi quantas vezes eu estava mais esperando viver do que vivendo de fato. Colocando tudo no futuro, como se a vida real fosse começar depois que algo mudasse. A esperança, quando excessiva, se transforma numa fuga delicada, quase imperceptível. Uma forma de não aceitar o agora como é.
Hoje, isso não significa que deixei de sonhar ou desejar mudanças. Significa apenas que aprendi a soltar a espera. A viver mais no presente do que na promessa. Quando a gente para de exigir que a vida seja diferente, algo se acomoda por dentro. Não porque tudo melhora, mas porque a luta diminui.
As coisas continuam sendo como são. As pessoas continuam sendo quem conseguem ser. A vida continua imperfeita, instável e, às vezes, difícil. Mas quando eu paro de imaginar constantemente como tudo deveria ser, sobra espaço para simplesmente estar. E, curiosamente, é nesse espaço, mais simples, mais honesto, que momentos de paz aparecem. Não como conquista, não como objetivo, mas como consequência, afinal, as coisas são como são e tudo bem!