A Anvisa ampliou a indicação da vacina MenQuadfi (meningocócica ACWY), permitindo sua aplicação em bebês a partir de 6 semanas no Brasil. Antes restrito a maiores de 12 meses, o imunizante teve a segurança comprovada para a nova faixa etária. A mudança beneficia principalmente a rede privada, oferecendo mais uma opção contra infecções graves causadas pela Neisseria meningitidis, sem alterar o calendário atual do SUS ou representar a incorporação imediata da vacina ao sistema público de saúde.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliou a indicação de uma vacina utilizada na prevenção da doença meningocócica (ou meningite, como é conhecida). A MenQuadfi agora está autorizada para crianças a partir das 6 semanas de vida, aumentando a faixa etária que pode receber o imunizante no Brasil.
A decisão envolve uma vacina meningocócica conjugada ACWY, que oferece proteção contra quatro sorogrupos - A, C, W e Y - da bactéria Neisseria meningitidis. Esse microrganismo pode provocar infecções graves, entre elas a meningite meningocócica.
Mas há uma informação importante para pais e responsáveis: a autorização da Anvisa não significa que o calendário de vacinação do SUS mudou. A medida amplia a indicação do produto, principalmente suas possibilidades de utilização na rede privada, mas não determina sua incorporação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).
O que muda com a decisão da Anvisa?
Até então, a MenQuadfi já estava disponível no mercado privado brasileiro para outras faixas etárias, incluindo pessoas a partir dos 12 meses. Com a nova autorização, o imunizante passa a poder ser utilizado também em bebês mais novos, a partir das 6 semanas. A vacina é aplicada por via intramuscular e pertence ao grupo das meningocócicas conjugadas.
Para avaliar a ampliação, foram considerados dados de segurança de 6.060 bebês com idade entre 6 semanas e menos de 12 meses, que receberam pelo menos uma dose da vacina em diferentes esquemas. A análise também incluiu 5.373 crianças que receberam uma dose de reforço a partir de 1 ano de idade.
De acordo com a Anvisa, os resultados apresentaram um perfil de segurança compatível com o esperado para as vacinas meningocócicas conjugadas, sem que fossem identificadas novas preocupações relevantes.
Isso significa que os bebês terão uma nova vacina no SUS?
Não. É importante diferenciar duas decisões que, apesar de relacionadas, não significam a mesma coisa. A Anvisa é responsável por avaliar e autorizar o uso de medicamentos e vacinas no país, considerando critérios como segurança, qualidade e eficácia. Já a incorporação de um imunizante ao calendário oferecido gratuitamente pelo SUS passa por outras etapas e decisões do sistema público de saúde.
Portanto, permitir que a MenQuadfi seja administrada a partir das 6 semanas não significa que bebês passarão automaticamente a recebê-la pelo SUS nessa idade.
Segundo o infectologista pediátrico Renato Kfouri, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a autorização também não cria, por si só, uma nova orientação para as famílias. "Na prática, não há mudança no calendário de vacinação. A MenQuadfi não apresenta vantagem em relação às outras vacinas meningocócicas ACWY disponíveis, e a decisão da Anvisa também não significa sua incorporação ao SUS. Portanto, não há uma nova orientação de vacinação para os pais em razão dessa autorização", afirma o médico, ao portal Crescer.
Como funciona atualmente a vacinação pelo SUS?
No calendário do Ministério da Saúde, os bebês recebem duas doses da vacina meningocócica C, administradas aos 3 e aos 5 meses de idade. Aos 12 meses, o reforço é realizado preferencialmente com a vacina meningocócica ACWY, ampliando a proteção para os sorogrupos A, C, W e Y. Essa estratégia atualizou-se em julho de 2025, quando a ACWY passou a substituir a meningocócica C no reforço de 1 ano.
Mais tarde, durante a adolescência, o calendário também prevê a meningocócica ACWY para jovens entre 11 e 14 anos. Assim, a recente decisão envolvendo a MenQuadfi não modifica nenhuma dessas etapas do PNI.
E o que recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria?
As recomendações da rede privada podem ser diferentes do calendário público. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta, preferencialmente, a utilização da vacina meningocócica ACWY já no primeiro ano de vida, com doses aos 3 e 5 meses e reforço aos 12 meses.
A MenQuadfi também não é a única vacina ACWY disponível para crianças pequenas. Outros imunizantes contra os mesmos quatro sorogrupos já possuem indicação pediátrica no país.
Com a ampliação aprovada pela Anvisa, portanto, surge mais uma possibilidade de utilização da MenQuadfi em crianças abaixo de 1 ano, mas não há alteração automática das idades atualmente recomendadas nos calendários de vacinação.
Por que a doença meningocócica preocupa tanto?
A Neisseria meningitidis é uma bactéria capaz de colonizar o trato respiratório de seres humanos. Uma pessoa pode carregar o microrganismo sem apresentar sintomas e transmiti-lo por meio de secreções respiratórias.
Em determinadas situações, porém, a bactéria consegue invadir o organismo e alcançar a corrente sanguínea, provocando a chamada doença meningocócica invasiva.
Entre suas manifestações estão a meningite e a meningococcemia, quadro em que a bactéria atinge o sangue. São doenças que podem evoluir rapidamente e exigem atendimento médico imediato. Bebês e crianças pequenas, principalmente durante o primeiro ano de vida, estão entre os grupos mais vulneráveis às formas graves.
Mesmo com tratamento adequado, a doença meningocócica invasiva apresenta letalidade em torno de 10%. Entre aqueles que sobrevivem, até 20% podem desenvolver sequelas permanentes e incapacitantes.
Vacinação continua sendo fundamental
Embora a nova autorização não mude o calendário do SUS, ela amplia as alternativas disponíveis para proteção contra diferentes sorogrupos da bactéria. Para pais e responsáveis, a principal orientação continua sendo manter a caderneta de vacinação da criança atualizada e seguir o esquema correspondente à rede em que a imunização está sendo realizada.
Caso exista interesse em complementar a vacinação na rede particular ou dúvida sobre qual esquema seguir, o pediatra pode avaliar o histórico vacinal e orientar a família individualmente.
A novidade, portanto, não significa que as crianças estejam com doses atrasadas nem que seja necessário correr aos postos de saúde para receber uma nova vacina. O que mudou foi especificamente a faixa etária autorizada para utilização da MenQuadfi no Brasil, que agora começa às 6 semanas de vida.