O Citroën Aircross vive atualmente um cenário de incerteza no mercado brasileiro, assemelhando-se a um "produto zumbi" que, embora ainda figure no configurador oficial da marca, caminha para se tornar peça de museu. De acordo com apurações realizadas pelo Jornal do Carro do Estadão, o modelo vem retirando seu time de campo de maneira gradual e silenciosa. A configuração de cinco lugares já parou de ser priorizada, enquanto as opções de sete assentos devem deixar o catálogo nacional ainda este ano ou, no máximo, em 2027. Os números de vendas reforçam esse roteiro de despedida, com apenas 911 unidades comercializadas no acumulado de 2026, um volume considerado baixíssimo para os padrões da Stellantis.
A situação crítica fica evidente quando se analisa o mix de vendas detalhado pela consultoria K.Lume. No total de emplacamentos deste ano, apenas 27 unidades da versão de cinco lugares encontraram compradores. O Aircross parece ter ficado preso em um meio-termo perigoso, com preços que variam entre 123.790 reais e 134.790 reais para as versões de sete lugares, valores que não são considerados baratos o suficiente para atrair o público racional. Questionada pela reportagem, a Citroën garantiu que a comercialização do Aircross segue normalmente. Em comunicado oficial, a fabricante justificou que "ter sete lugares no segmento B SUV é uma característica única" e afirmou que a opção de cinco lugares ainda possui "seu público de interesse".
Apesar do discurso oficial, fontes do setor indicam que o modelo "perdeu o bonde" ao não oferecer o refinamento e a tecnologia exigidos pelos consumidores atuais. O SUV não consegue competir com rivais mais modernos e melhor conectados que dominam o segmento. Além disso, a unidade fabril de Porto Real, no Rio de Janeiro, deve focar seus esforços na produção do novo Jeep Avenger, o que reduz drasticamente o espaço para o modelo da Citroën. Outro fator determinante para o encerramento do ciclo é o projeto F2U, que dará origem a um novo SUV de sete lugares da Fiat, derivado da mesma base do Citroën Aircross, mas com maior potencial de mercado.
A permanência do veículo no site da marca soa mais como uma inércia industrial para evitar ruídos na rede de concessionários do que uma estratégia comercial de longo prazo. Lojistas já tratam a versão de cinco lugares como fora de linha e não a utilizam em suas estratégias de vendas. Mesmo com a possibilidade de receber um sistema híbrido leve, interlocutores acreditam que a tecnologia não será suficiente para salvar o utilitário. Com a chegada iminente do modelo da Fiat prevista para 2027, o destino do Aircross parece selado como um capítulo breve e difícil na história da marca no país.