O coordenador político da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias (PT), disse reconhecer que, no Brasil, o avanço do crime organizado criou "dois" Estados.
"No Brasil, hoje, temos o Estado oficial e o Estado paralelo", afirma Dias em entrevista à BBC News Brasil.
A afirmação do ministro veio em meio à tentativa do governo de aprovar medidas voltadas para a segurança pública. O tema é apontado por pesquisas como uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro no momento, ao lado da saúde.
No final de março, por exemplo, Lula sancionou a Lei Antifacção, que, entre outras medidas, aumentou as penas para lideranças de facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho(CV).
Apesar disso, o governo ainda patina na tentativa de aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, apresentada oficialmente em abril de 2025, mas que até agora ainda não foi aprovada pelo Congresso Nacional.
À BBC News Brasil, Dias afirma que o governo sabe que o tema é sensível, que o relógio joga contra o governo e que a população ainda não teria sentido os efeitos das ações nessa área.
"Ainda não deu tempo. A redução da sensação de insegurança foi muito pequena. Ela foi muito baixa (...) Eu avalio que é provável que até as eleições, a gente já vai alcançar uma sensação melhor".
Ele será um dos principais responsáveis pelas articulações político-partidárias com o objetivo de garantir um inédito quarto mandato presidencial a Lula. Dias governou o Piauí por quatro mandatos e é tido nos bastidores como um dos ministros de confiança de Lula.
As pesquisas de intenção de voto e de avaliação de governo apontam, no entanto, que Dias terá um trabalho difícil nos próximos seis meses.
Segundo o Datafolha, a avaliação negativa do governo Lula é maior que a positiva. Enquanto 32% consideram seu governo ótimo ou bom, 40% consideram seu governo ruim ou péssimo.
Para deixar as coisas ainda mais complicadas para o governo, as pesquisas também apontam que um crescimento nas intenções de voto de seu principal provável adversário nas eleições de outubro deste ano: o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ainda de acordo com o Datafolha, em simulação de segundo turno entre os dois, Lula tinha uma vantagem de 15 pontos percentuais sobre Flávio em dezembro de 2025. Em março, essa diferença caiu para três pontos percentuais. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, há empate técnico entre os dois.
Na entrevista, Dias tenta minimizar os diagnósticos feitos por pesquisas de intenção de voto que mostram um cenário difícil para a reeleição de Lula.
Segundo ele, a crise de popularidade de Lula não seria tão grave quanto se comenta; pesquisas internas encomendadas pelo PT e pelo governo mostram níveis de aprovação superiores aos detectados por institutos como o Datafolha.
Ele diz acreditar que o cenário das eleições deste ano será "melhor" que o enfrentado por Lula em 2022, quando disputou a presidência contra Jair Bolsonaro (PL).
"Em 2026 há uma possibilidade (de vitória) melhor do que 2022. A conjuntura de 2022 era desafiadora por tudo o que a gente viveu."
À BBC News Brasil, Dias também tentou ponderar o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, mas disse que não haveria um clima de "já ganhou" no comando da campanha de Lula.
"(Flávio) vai ter que ser testado nas urnas. É a primeira candidatura (presidencial) dele. Nada de sapato alto, nada de já ganhou. É uma eleição, sim, polarizada", disse.
O ministro e coordenador da campanha de Lula disse ainda que o governo não vai aceitar possíveis tentativas de interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano, em referência ao temor expressado, nos bastidores, por assessores do presidente Lula.
"Não vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países porque isso é soberania".
Confira a entrevista.
BBC News Brasil - O presidente Lula enfrenta hoje uma crise de popularidade. Por que o presidente Lula está tão impopular?
Wellington Dias - Estas eleições precisam levar em conta onde o Brasil estava. Se a gente lembrar de 2022 ou 2021, mesmo após a pandemia, a gente tinha uma ausência de um plano para que pudéssemos superar os estragos da pandemia (...) Um dos pontos que nós não fizemos bem foi que a população não percebeu o tamanho da destruição. A gente falou na campanha de uma destruição de várias políticas, mas ao assumir, a gente veio para uma linha do "Brasil voltou" e não tratamos sobre o que aconteceu no Brasil com a força necessária (...) Mas hoje, o Brasil alcança crescimento econômico em torno de 3% ao ano, tiramos o Brasil do Mapa da Fome e tiramos mais de 14 milhões de pessoas da pobreza nos anos de 2023 e 2024.
BBC News Brasil - Mas então por que, hoje, o presidente Lula, é tão impopular?
Wellington Dias - Ele não é tão impopular. Quando a gente pega individualmente, é o mais popular dos líderes.
BBC News Brasil - Mas a desaprovação ao governo dele hoje é maior do que a aprovação.
Wellington Dias - Isso depende o parâmetro utilizado.
BBC News Brasil - Cito aqui dados da pesquisa do Datafolha...
Welligton Dias - A gente acompanha pelo governo usando o Vox Populi que faz pesquisas diárias e semanais. A gente teve, sim, um momento de perda de popularidade quando houve aquele episódio do Rio de Janeiro, uma matança, e o governo condenou a forma como isso aconteceu. [Nota da redação: no dia 28 de outubro de 2025, 117 pessoas foram mortas durante uma operação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro] O presidente teve a coragem de reagir em relação à forma como aconteceu.
Mas, em seguida, tivemos uma recuperação. Hoje a aprovação, pelo que acompanhamos, fica entre 50, 51%. Às vezes chega até a 52%. Quando a gente olha em relação às eleições, o presidente fica seis ou sete pontos percentuais na simulação de primeiro turno a frente do principal candidato, que é Flávio Bolsonaro.
É bom lembrar que vencemos as eleições em 2022 com 1,8%. Eu não nego que há uma tensão permanente. Há uma batalha em redes sociais, uma saraivada de ódio, de mentiras, de fake news e isso tem seu peso. Um dos problemas reais são os juros altos e o endividamento da população. Mas o governo se debruça sobre isso agora.
Quando assumimos, tinha um problema semelhante e fizemos o programa Desenrola, que tirou muita gente do endividamento e agora estamos novamente tendo que reeditar. Porque um país que tem saldo positivo no balanço de pagamentos, reserva cambial, a inflação num dos mais baixos patamares da história, desemprego mais baixo patamar da história... e uma taxa básica de juros como a nossa (...)acho que há um equívoco na política (monetária).
BBC News Brasil - O senhor fala como se o fato de a taxa básica de juros estar no patamar em que está não fosse de alguma forma resultado de atividades do governo. Economistas afirmam que a taxa básica de juros está nesse patamar porque o governo não contém os seus gastos. Isso também não é responsabilidade do governo?
Wellington Dias - Quando assumimos, o país já tinha um endividamento na casa de 80% do PIB e havia várias bombas que vieram a estourar já em 2023 e 2024. Um exemplo eram os precatórios. Adiaram o pagamento de uma despesa grande que era o precatório e ela vem cair no colo do presidente Lula em 2023 e 2024.
Outro fator foi o endividamento dos Estados. Fizeram uma proposta de retirar a receita dos Estados e jogaram a conta para o governo seguinte e o mercado olhava para isso e não tratava com a mesma força (de agora). A gente tinha uma inflação que ultrapassava de 10%, chegando a 14% e agora está em 4%.
BBC News Brasil - Algumas pesquisas apontam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. O governo subestimou Flávio Bolsonaro como candidato?
Wellington Dias - Não. A gente nunca subestimou nenhum candidato. Mas nós temos um presidente que, em várias eleições, perdeu em pesquisas e ganhou no voto. Temos um candidato que, realmente, cresceu rapidamente, mas dentro do seu próprio campo. Tanto que vários candidatos do seu campo político começaram a desistir.
Cito como exemplo o Ratinho Junior (PSD), o Romeu Zema (Novo), que desistiu e agora diz que não desistiu. Depois, tivemos a candidatura do (Ronaldo) Caiado. Mas na visão que a gente tem, o presidente Lula é um candidato que tem, em relação a 2022, um ambiente menos tenso do que tínhamos.
BBC News Brasil - O senhor acha que essa eleição contra Flávio Bolsonaro vai ser mais fácil do que a eleição contra o pai dele?
Wellington Dias - Não tem eleição fácil.
BBC News Brasil - Fácil, mas em comparação com a anterior?
Wellington Dias - A eleição que era uma missão impossível foi a de 2022. A gente estava fora do governo, o país nos destroços e o governo usando tudo o que tinha (para vencer). Teve o tal do Auxílio Brasil, a Polícia Rodoviária Federal impedindo as pessoas de votar, questionamentos sobre fraudes nas urnas. Eleição difícil foi a de 2022.
BBC News Brasil - Então acha que essa vai ser mais fácil?
Wellington Dias - Acho que ela vai se dar num ambiente e numa condição melhor. Do ponto de vista do nosso campo político, agora é que a gente está trabalhando os palanques em cada Estado e há a possibilidade real de fazermos uma quantidade de governadores maior do que na eleição anterior.
BBC News Brasil- Quão competitivo o senhor acha que o Flávio Bolsonaro é enquanto candidato?
Wellington Dias - (Flávio) vai ter que ser testado nas urnas. É a primeira candidatura (presidencial) dele. Nada de sapato alto, nada de já ganhou. É uma eleição, sim, polarizada. É uma eleição em que, infelizmente, tem um lado para o qual vale tudo. Pode mentir, ficar o tempo todo dizendo: "Eu sou contra isso, eu sou contra aquilo. Nós vamos varrer o PT".
Mas qual é a proposta? No primeiro momento, a população descarrega sua insatisfação contra o endividamento em alguém que é contra o sistema, mas isso não se sustenta por muito tempo (...)A possibilidade de vitória é real. Agora, a ordem é trabalhar e trabalhar muito, e respeitar sua excelência, o povo. Ela que toma a decisão das urnas.
BBC News Brasil - Na sua opinião, a possibilidade de vitória nesse pleito é maior do que foi em 2022?
Wellington Dias - Em 2026 há uma possibilidade (de vitória) melhor do que 2022. A conjuntura de 2022 era desafiadora por tudo o que a gente viveu. E acho que tanto dentro do Brasil como fora foi possível acompanhar. Quando a gente começar a eleição, vamos poder comparar.
Enquanto governo, não podemos fazer publicidade comparativa. Mas como candidatura, sim. Tínhamos um nível de pobreza que chegava na casa dos 37% da população e a gente reduziu o patamar para 20%. Temos os níveis de pobreza e pobreza extrema mais baixos da história. A classe média, que vinha decaindo, voltou a crescer. Nós temos aí uma condição de conquistar cada vez mais brasileiros. A juventude quer saber: "Eu estou estudando, dando um duro danado. Quando eu me formar, vai ter vaga para mim?" Quem é que pode oferecer isso? É Luiz Inácio Lula da Silva.
BBC News Brasil - Por falar em jovens, porque a desaprovação do presidente é tão grande na faixa etária de jovens entre 16 e 24 anos de idade?
Wellington Dias - Se você pegar um jovem de 24 anos de idade, ele viveu um período de muita incerteza nos últimos anos. Quando ele completou seus 16, 17, 18 anos, ele já estava dentro desse turbilhão de um país decaindo, vendo seu pai perder o emprego, vendo a mãe bater na porta e não achar emprego. O que aconteceu de lá pra cá? Mudança.
Essa percepção muitas vezes fica diluída em meio a esse turbilhão de fake news, de notícia falsa. Mas qual é a real? A real é que o Brasil tem quase 5 milhões de novas pessoas trabalhando, que estavam desempregadas em 2021 e 2022. Nós temos 11 milhões de pequenos empresários que não tínhamos lá em 2020 e em 2022. Boa parte deles é jovem.
Onde é que ele está com problema? Esse jovem montou um pequeno negócio, tomou um financiamento, mas não está conseguindo pagar. Isso aqui causa insatisfação. Então é isso que a gente quer cuidar agora.
BBC News Brasil - Mas esse jovem que tomou esse financiamento e não está conseguindo pagar, ele atribui parte desses juros altos ao governo...
Wellington Dias - Sim. Em primeiro lugar, toda a responsabilidade pelo que acontece (de ruim) é jogada para o governo. De um lado, há defesa de um Banco Central independente. Mas nessa hora a culpa não é do Banco Central independente. A culpa é do governo.
De qualquer maneira, o governo detecta o problema e está tratando. Do jeito que fizemos o programa Desenrola Brasil lá atrás. Nós vamos agora trabalhar uma alternativa para que essas pessoas possam ter aí um oxigênio e possam poder escapar dessa armadilha.
BBC News Brasil - Esse novo programa contra endividamento será lançado a seis meses das eleições. Como o senhor responde às críticas de que esse programa tem fins eleitoreiros?
Wellington Dias - O programa foi lançado, na verdade, em 2023. O governo Bolsonaro entregou o país com elevado endividamento e fizemos o Desenrola. Esse programa alcançou milhões de brasileiros que conseguiram descontos, taxas mais baixas, crédito mais baixo e saíram do endividamento.
O problema é que a taxa básica de juros seguiu crescendo e isso levou à elevação do endividamento com o cartão de crédito, cheque especial, crediário. Ou seja, tanto quem está na informalidade como na informalidade terminou sendo prejudicado. O ganho que teve na renda foi engolido por conta dos juros elevados.
BBC News Brasil - As pesquisas mais recentes apontam que 2/3 dos evangélicos desaprovam o governo Lula. O que falhou na estratégia do governo para se aproximar do público evangélico?
Wellington Dias - Nos levantamentos que a gente faz, teve uma melhora. Ela é grande como poderia ser? Não. O que o presidente Lula determinou? Ele disse: "Eu quero que as ações e os programas do meu governo possam chegar ao povo evangélico".
Hoje, tem programas de habitação que estão trabalhando com entidades evangélicas. Fizemos qualificação para essas entidades e hoje muitas pessoas do povo evangélico podem ter sua casa e seu apartamento.
BBC News Brasil - Mas o senhor reconhece que os evangélicos ainda têm uma preferência maior por candidatos da direita, como Flávio Bolsonaro?
Wellington Dias - Sim. Minha esposa, Rejane Dias, é evangélica. Meus filhos são evangélicos. Eu sou católico. Eu frequento celebrações evangélicas e vejo que, infelizmente, muita gente terminou se afastando do nosso campo político levado por mentiras como a de que o presidente Lula iria fechar igrejas.
O que aconteceu? Todas as denominações tiveram crescimento neste período em que Lula e Alckimin governaram o país. Quantas leis foram aprovadas para que pudesse inibir a atividade das igrejas? Nenhuma.
BBC News Brasil - Mas qual é a estratégia do PT para reverter esse quadro?
Wellington Dias - O desafio não é pequeno, mas também não é difícil. Nós temos que vencer a mentira, como por exemplo essa do fechamento da igreja, ou de que íamos tributar as igrejas, tomar terras e instalar um regime autoritário.
Nós temos hoje uma quantidade de pessoas que está no limbo. Elas não fazem mais parte do segmento de Jair Bolsonaro, mas também não vieram para o nosso campo. Se olharmos o que acontece na composição dos líderes em cada Estado, nós vamos ter uma quantidade maior de lideranças evangélicas participando do nosso campo.
Cada vez mais as várias denominações passam a ter uma preocupação com esse fenômeno em que a igreja acabou se confundindo com um partido ou com um governo.
BBC News Brasil - Mas existe uma estratégia prática já definida sobre como é que vocês vão acessar esse segmento ao longo da campanha?
Wellington Dias - Na prática, o que a gente quer é seguir essa orientação do presidente. A orientação do presidente do Brasil é trabalhar com o povo evangélico, com o povo católico, com o povo espírita, independente de igreja e independente de religião.
Vamos ter que dialogar mais com a classe média, com a juventude. Vamos ter que conversar com o pessoal do agro. Olha aqui essa situação: qual é a razão de pessoas do agro serem contra o governo do Brasil? Nós praticamente dobramos o financiamento com taxas melhores, mesmo no momento de juros altos.
BBC News Brasil - Esse governo vai completar quatro anos. O governo não demorou para abrir essas conversas?
Wellington Dias - Não. Na verdade, precisamos lembrar: havia uma destruição e nós fomos para a reconstrução. Quem já viveu uma desavença, quando se tem um afastamento, não é da noite pro dia que se resolve. Por quê? Porque isso demanda confiança.
BBC News Brasil - O senhor falou em soberania e, há alguns dias o senador Flávio Bolsonaro foi aos EUA e disse que as terras raras do Brasil podem ser a solução dos EUA em relação à China. Como o senhor classifica esse posicionamento?
Wellington Dias - Quando a gente fala em soberania é disso que estamos falando. O Brasil não quer ser submetido a ninguém, nem à China, nem aos Estados Unidos. Nós queremos ser dono do nosso nariz.
BBC News Brasil - Mas como é que o senhor classifica o posicionamento do senador Flávio em relação a isso?
Wellington Dias - Antipatriota e entreguismo. Não consigo imaginar termos um presidente que se coloca de joelhos para outro presidente e ainda mais um presidente com tanta instabilidade como o presidente dos EUA neste momento (...)
Essa posição de Flávio Bolsonaro não é a da maioria do Senado, do Congresso ou do povo. Nós queremos um povo soberano, um povo que não se submete, que não quer ser colônia de ninguém. Já fomos colônia de Portugal. É isso que a gente quer? Não. Isso já passou. Hoje, somos um país independente.
BBC News Brasil - Há pesquisas indicando queda na popularidade do presidente Lula na região Nordeste e desaprovação de 55% dos beneficiários do Bolsa Família. Como é que o governo pretende reverter essa piora na popularidade nesses dois segmentos que, historicamente, sempre foram leais a Lula?
Wellington Dias - O Bolsa Família é aprovado hoje por 92% da população. Do ponto de vista dos beneficiários, 64% aprovam o presidente Lula, segundo nossas pesquisas. Quando a gente olha o Nordeste, as pesquisas por Estado não estão batendo com essas que estão publicando. As pesquisas, apontam que o presidente Lula, no Nordeste, tem a ampla maioria das intenções de voto nos nove Estados do Nordeste.
BBC News Brasil - Não se trata de ele ser favorito ou não. Mas de compararmos Lula com a sua própria popularidade em março de 2022.
Wellington Dias - É preciso dar uma examinada aqui melhor (...) Se você olha as últimas eleições no Brasil desde 1998, o PT sempre encabeça uma chapa que fica em primeiro ou em segundo lugar. É um partido e a liderança do presidente Lula é muito forte. Nesta eleição, eu lhe confesso, o grande ponto era o presidente Lula (...) agora, onde é que estava Flávio Bolsonaro e o seu time na época do tarifaço? Estavam do lado dos americanos causando prejuízo ao Brasil.
BBC News Brasil - Muitos especialistas dizem que essa eleição, especificamente, vai ser decidida por uma margem muito pequena de eleitores que hoje estão indecisos, em geral mulheres. Qual é a estratégia do PT para conseguir o voto das mulheres que estão hoje indecisas sobre as eleições?
Wellington Dias - Temos uma situação de crescimento da quantidade de pessoas que anula, vota em branco ou não comparece às urnas. O que me anima sobre isso? É que a maior parte desse grupo é de eleitores que votaram em Bolsonaro. Isso mostra que houve um desencanto.
A decisão foi de vir para o campo da centro-esquerda? Não. Esse grupo se manteve como não indeciso ou não opina. Aqui, tem um trabalho a fazer. Será uma eleição polarizada? Sim. Vai ter tensionamento? Sim. Mas acho que teremos um tensionamento menor que em 2022.
BBC News Brasil - Mas há alguma estratégia específica para esse eleitorado?
Wellington Dias - O primeiro ponto é questionar: você quer um país com estabilidade? Quem é que pode dar estabilidade? Você quer um país que possa seguir crescendo? Lá atrás era um país que estava decrescendo. Agora, é um país que volta a crescer.
Você quer um país que possa melhorar e ampliar acesso à educação, à saúde. Você quer um país que abra oportunidade para seu filho e sua filha, para você mesmo, para o emprego, para empreender? Na comparação, em qualquer área, vamos chegar à conclusão de que quem oferece isso é o governo Lula.
BBC News Brasil - Flávio Bolsonaro parece que vai se apoiar na figura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) para tentar atingir esse eleitorado feminino. Quanto a primeira-dama Janja contribui ou atrapalha na busca do eleitorado feminino?
Wellington Dias - Michelle já fazia isso com o candidato e depois presidente Bolsonaro. Mas a situação é muito mais complexa. Acho que é menosprezar o eleitorado feminino achar que (elas decidir o voto) por conta de alguém sozinho.
A primeira-dama, Janja, por exemplo, foi uma líder importante na pactuação sobre o combate à violência contra as mulheres e foi reconhecida como uma espécie de embaixadora no combate à fome e à pobreza. Mas não é só isso que conquista a confiança das mulheres. Você tem variadas situações.
BBC News Brasil - Mas na busca deste eleitorado, Janja ajuda ou atrapalha o presidente Lula?
Wellington Dias - Ela ajuda. Eu acho que ela ajuda (...) A gente tem um conjunto gigantesco de mulheres que sabem o que significa ter determinados líderes, como o Flávio Bolsonaro como presidente do Brasil. O que significa? Nós tivemos um crescimento da violência no Brasil (durante o governo de Jair Bolsonaro). Houve a propagação da arma. O símbolo era a arma. Quem é que paga isso? As mulheres.
BBC News Brasil - Sobre violência, a segurança pública é apontada pelos eleitores brasileiros como um dos principais tópicos de preocupação. O que o governo Lula 3 pode dizer que vai entregar nessa pauta?
Wellington Dias - Um país menos violento.
BBC News Brasil - Mas se o país estivesse tão menos violento, esse tema seria tão alvo assim de preocupação?
Wellington Dias - Quando você olha homicídios, nós tivemos queda. Uma queda relevante nesses três anos do presidente Lula.
BBC News Brasil - Mas essa queda começa, se eu não estou equivocado, começa ainda no governo Bolsonaro... [Nota da redação: segundo dados do IBGE, IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a queda nas taxas de homicídios começaram 2018, no último ano do governo de Michel Temer].
Wellington Dias - Não. Houve crescimento. Infelizmente, naquele período, vários Estados não consolidavam os seus dados e não registravam ocorrência. O Ministério da Justiça verificou os dados.
A violência é um problema grave e o governo do presidente Lula não desconhece isso. Nós temos que trabalhar muito mais integrado. Qual era o problema? A legislação brasileira praticamente colocava nas mãos dos Estados o poder de ação.
E, agora, a gente passa a ter com essa PEC da Segurança e da lei de combate às facções uma condição de trabalhar mais integrado (...) As pessoas querem saber o seguinte: "A minha filha pode ir e voltar da escola? Eu posso ir para a igreja à noite? Eu posso participar no dia a dia do meu trabalho? Eu posso ir ao meu trabalho e voltar em paz? Eu posso sentar na calçada da minha casa?"
BBC News Brasil - Esse tema já era reconhecido pelo governo como um tema prioritário, mas a PEC e a lei antifacção, que foi aprovada, só aconteceu no final deste governo. Por que demorou tanto?
Wellington Dias - Tem que perguntar pro Congresso. Na verdade, é PEC da Segurança Pública foi trabalhada no período com Flávio Dino quando ele ainda era ministro da Justiça. O presidente preferiu sentar com os governadores, dialogar e não fazer nada à força. No começo, teve muita resistência. (...)
O Brasil, com isso, se prepara melhor. É da noite para o dia? Não posso dizer que sim. Na verdade, vamos, agora, vencer a criminalidade porque hoje ela está misturada. No Brasil, hoje, temos o Estado oficial e o Estado paralelo. O Brasil vinha caminhando para o que aconteceu com o México. O que aconteceu com a Itália. De certo modo, até com os Estados Unidos, onde em muitos lugares o crime terminou se associando com empresas.
Olhe as últimas investigações sobre o setor de combustíveis e fundos de investimento. Olhe as investigações sobre o Banco Master, em que vários empresários foram presos. Separar o joio do trigo é uma missão muito grande.
Mas paralelo a isso, como é que eu tenho dinheiro pra ter mais viatura, mais equipes, mais presença e não ter assaltos e a matança que acontece em cada bairro, cada vila, cada lugar onde as pessoas vivem? Agora, estamos mais perto disso.
BBC News Brasil - O senhor acha que a população consegue sentir isso na ponta?
Wellington Dias - Ainda não deu tempo. A redução da sensação de insegurança foi muito pequena. Ela foi muito baixa (...) Eu avalio que é provável que até as eleições, a gente já vai alcançar uma sensação melhor.
BBC News Brasil - O avanço das investigações sobre um dos filhos do presidente, Fábio Luís, o Lulinha, preocupam a campanha à reeleição de Lula?
Wellington Dias - Não. Em primeiro lugar, porque o Fábio nega qualquer participação. Em segundo lugar: que presidente tem coragem de dizer o que disse o presidente do Brasil? "Seja meu filho ou o filho de quem quer que seja, do mais rico ou do mais pobre, a lei é a lei".
Olha o que aconteceu quando, lá atrás, o filho do presidente (Jair Bolsonaro) foi acusado? (Houve) toda uma proteção no sentido de não deixar ter a investigação. Não deve ser fácil a um pai dizer o que ele (Lula) disse.
Você tem ideia do que já se disse sobre os filhos do presidente Lula? Que eram donos de não sei quantas fazendas, mas nunca acharam um boi. Que eram donos de não sei quantas empresas, mas nunca acharam uma ação dessa empresa. Infelizmente, a mentira para alguns é algo banal e isso é ruim para uma sociedade.
Em relação a Flávio Bolsonaro, o tempo dirá. Você pode enganar muita gente por muito tempo. Mas não pode enganar todo mundo a vida toda. Esse é um ditado certeiro e, com certeza, o tempo dirá: verdadeiro.
BBC News Brasil - Se for reeleito, Lula vai sair do governo com 85 anos. Como é que o senhor responde às críticas de que o presidente Lula, essa altura da vida, deveria, em vez de disputar uma nova eleição, abrir espaço para renovação no campo da esquerda?
Wellington Dias - O interessante é que quem propôs isso foi a oposição. É muito fácil dizer que o Flávio é muito novo. Por que não colocam outro? É muito fácil fazer esse tipo de palpite.
Minha mãe, Terezinha Dias, tem 84 anos e corre atrás de cabra no sertão do Nordeste, cheia de energia. Eu vejo o presidente Lula muito parecido com ela. Uma pessoa cheia de energia.
Quantas vezes a gente viaja pelo Brasil e a gente chega de volta em Brasília todo mundo estropiado, como se diz numa linguagem nordestina, e o presidente Lula segue com todo o vigor.
Ele faz exercícios, se alimenta bem, busca dormir uma quantidade boa de horas por dia e é alguém muito antenado com o que acontece no mundo.
BBC News Brasil - O governo vai conseguir aprovar o fim da escala 6x1?
Wellington Dias - Eu espero que seja aprovado e digo o porquê. O Brasil é uma das maiores potências econômicas do mundo. A gente admira países da Europa e de outras regiões. O que eles têm de diferente? Em primeiro lugar: mais igualdade — e maior igualdade passa por termos um tempo maior para as várias atividades humanas.
É mais humano colocar uma carga horária em que se tenha mais tempo para a família, para inclusive ter um melhor aproveitamento do trabalho. Isso significa mais oportunidade de emprego.
BBC News Brasil - Muitos empresários e entidades de classe dizem que se o fim da escala 6x1 for aprovada o efeito será reverso.
Wellington Dias - O que me alegra é que, enquanto uns poucos dizem isso, são muitas as empresas que já estão adotando antes da aprovação. O setor bancário já atua com 30 horas semanais. Várias empresas e vários setores trabalham assim e quem é que mais lucra no país? Os bancos.
É preciso ser muito desumano e não olhar para os avanços da humanidade. Os lugares do mundo mais avançados há muito tempo estão com jornada de 30 horas semanais. Estamos falando, no Brasil, em uma jornada de 40 horas semanais e isso significa reconhecer que a tecnologia avançou.
BBC News Brasil - Muitos assessores próximos ao presidente não descartam uma possível intervenção dos EUA nas eleições. A campanha do presidente teme uma interferência externa nas eleições?
Wellington Dias - Não vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países porque isso é soberania.
É bom lembrar que, faz pouco tempo, tentaram interferir nas formas de comunicação interna do Brasil e na nossa democracia... inclusive chegaram aqui a perseguir líderes do STF por conta disso.
O Brasil tem três poderes e vamos buscar respeito. A nossa Constituição tem como um dos seus primeiros pilares a soberania, a democracia, o respeito ao outro país, sejam os Estados Unidos, seja quem for. Queremos respeito e vamos usar tudo o que for possível para que tenhamos aqui uma eleição livre e limpa e que vença o melhor. É isso que é bom na democracia.