Sob a luz ultravioleta, duas novas espécies de escorpiões são descobertas na Amazônia

Os animais foram localizados na base de uma elevação rochosa isolada na Cachoeira do Evandro, no município de em Mucajaí, em Roraima

29 set 2026 - 07h56
Resumo
Pesquisadores da Unesp descobriram duas novas espécies de escorpiões em Roraima usando luz ultravioleta: Cayooca puchus e Brotheas cernii. Encontrados na base de uma elevação rochosa isolada, os animais pertencem à família Chactidae, que não possui relevância médica direta. Além de ampliarem o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica, os exemplares tiveram seus venenos coletados para pesquisas focadas em potenciais aplicações biomédicas e no desenvolvimento de inseticidas biológicos.

Imagine caminhar pela floresta durante a noite, iluminando pedras e vegetação com uma lanterna ultravioleta. De repente, pequenos animais começam a brilhar diante dos seus olhos.

Foi durante essas buscas que nós pesquisadores do Laboratório de Imunologia e Toxinologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) encontramos duas espécies de escorpiões desconhecidas pela Ciência. Os animais vivem na base de um inselberg, uma elevação rochosa isolada.

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O local fica na região da Cachoeira do Evandro, em Mucajaí, Roraima. As espécies foram nomeadas Cayooca puchus e Brotheas cernii.

A descrição científica foi publicada em 6 de junho de 2026, na revista Diversity e também noticiada recentemente pelo portal G1/Roraima.

Descobrir uma espécie não acontece de uma hora para outra

Nós acompanhamos expedições e coletas realizadas na região ao longo de vários anos. O trabalho reuniu exemplares de diferentes idades e sexos.

Em outubro de 2022, utilizamos lanternas ultravioleta para localizar escorpiões durante a noite. Essa técnica funciona porque o corpo dos escorpiões fluoresce sob luz ultravioleta.

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Nós comparamos os exemplares com espécies conhecidas e analisamos diferentes características morfológicas. Observamos tamanho, coloração, granulação corporal e estruturas usadas na identificação taxonômica.

Especialistas de diferentes instituições avaliaram essas características e revisaram a identificação das espécies. Participaram pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Instituto Butantan e Universidade Nacional Autônoma do México.

As análises morfológicas permitiram distinguir os exemplares de espécies próximas já conhecidas. Esse conjunto de evidências sustentou a descrição das duas espécies como novas para a ciência.

Dois escorpiões, duas histórias

As duas espécies pertencem à família Chactidae, encontrada principalmente nas Américas. Essa família reúne escorpiões com grande diversidade morfológica e distribuição predominantemente neotropical.

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No Brasil, Chactidae ocorre principalmente na Amazônia e inclui gêneros como Brotheas e Cayooca. A família também apresenta grande diversidade de formas e características corporais.

Cayooca puchus mede entre 3,2 e 5,1 centímetros. O gênero Cayooca possui apenas duas espécies reconhecidas atualmente.

Cayooca puchus se diferencia por sua granulação corporal mais densa e carenas ventrais marcadas. Carenas são linhas ou cristas elevadas na superfície do corpo dos escorpiões.

Nós escolhemos o nome puchus para registrar a reação de surpresa diante da descoberta. O termo vem de pucheros, expressão espanhola associada a uma expressão de espanto.

Brotheas cernii mede entre 4,5 e 5,7 centímetros. A espécie apresenta corpo menor e granulação mais intensa que espécies próximas.

O nome cernii homenageia o biólogo Felipe Augusto Cerni e sua família. A escolha também registra sua contribuição aos estudos sobre venenos de escorpiões.

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Um pedaço de floresta que funciona como uma ilha

Até o momento, as duas espécies foram encontradas apenas na base desse inselberg. Isso não significa que estejam restritas à área. Novas expedições poderão revelar outras populações ainda não amostradas.

Nossa equipe sugere que o próprio ambiente pode ajudar a explicar esse padrão. O inselberg forma uma paisagem rochosa isolada dentro da floresta. Esse isolamento pode limitar a dispersão e favorecer diferenças entre populações ao longo do tempo.

Em ambientes isolados, populações podem apresentar menor fluxo gênico entre si. Com o tempo, diferenças genéticas podem se acumular. Esse processo pode favorecer barreiras reprodutivas e contribuir para o surgimento de novas espécies.

Nos inselbergs, o isolamento e as condições ambientais particulares podem favorecer a diversificação. Porém, estudos específicos são necessários para verificar se isso ocorreu com Cayooca puchus e Brotheas cernii.

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Quanto da Amazônia ainda não conhecemos?

A descoberta também ajuda a dimensionar um problema maior: a Amazônia é a maior floresta tropical contínua do mundo e ainda guarda importantes lacunas no conhecimento sobre sua biodiversidade.

Na ciência, chamamos de lacuna Lineana a falta de espécies conhecidas, e de lacuna Wallaceana o desconhecimento sobre onde elas vivem. Roraima ainda apresenta importantes lacunas de amostragem, com regiões do estado permanecendo pouco estudadas. Encontrar duas espécies novas na mesma área reforça que outras ainda devem estar presentes.

Há urgência nessa busca: descrever uma espécie é o primeiro passo para reconhecer sua existência. Sob pressão ambiental crescente, algumas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem catalogadas.

Escorpiões e saúde pública

Os escorpiões também têm importância para a saúde pública brasileira. Em 2025, o Brasil registrou 225.695 acidentes envolvendo escorpiões, segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde.

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Esse número correspondeu a mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos registrados naquele ano. O dado mostra a relevância do grupo para a vigilância em saúde.

O Ministério da Saúde destaca maior ocorrência de acidentes nas regiões Nordeste e Sudeste. Na região Norte, Tityus obscurus é o principal causador de acidentes e óbitos.

As novas espécies pertencem à família Chactidae e não estão entre as principais espécies de importância médica. Por isso, a descoberta amplia o conhecimento sobre os escorpiões amazônicos.

E o veneno? Pode esconder outro segredo

A descoberta taxonômica é apenas o primeiro capítulo. Nós já começamos a investigar as moléculas presentes no veneno das duas espécies. Escorpiões são predadores especializados de insetos e desenvolveram, ao longo da evolução, venenos com moléculas muito específicas.

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Essas substâncias interessam à ciência por seu possível uso no desenvolvimento de inseticidas biológicos e em aplicações farmacêuticas e biomédicas.

Estudar esses animais, porém, exige respeitar as condições em que vivem. Como são sensíveis a mudanças de temperatura e umidade, os exemplares vivos ficaram na Universidade Federal de Roraima, em vez de seguir para São Paulo. Mas seus venenos foram coletados e já estão em análise na Unesp.

O próximo passo já está em preparação: novas expedições a Roraima devem investigar também aranhas e barbeiros, ampliando o conhecimento sobre a fauna da região.

A história de Cayooca puchus e Brotheas cernii começa com dois escorpiões brilhando sob uma lanterna. Mas termina com uma pergunta maior: quantas espécies ainda estão escondidas na Amazônia, esperando que alguém acenda a luz?

Talvez a resposta esteja em uma próxima expedição, em uma nova noite de busca ou em algum canto ainda pouco explorado da floresta. Cada espécie descoberta é mais do que um novo nome para a ciência: é uma peça a mais no conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e um lembrete de quanto ainda temos a descobrir e proteger.

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Os autores agradecem a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio financeiro por meio do Programa BIOTA-FAPESP, que tornou possível a realização desta pesquisa.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Manuela B. Pucca recebe financiamento da FAPESP e CNPQ. Ela trabalha na Faculdade de Ciencias Farmaceuticas da UNESP de Araraquara.

Felipe Costa recebe financiamento da FAPESP.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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