A divulgação sobre o surgimento do Primeiro Comando do Golpe no sistema prisional do Rio expõe os riscos de replicar fontes anônimas sem checagem independente. Divulgada a partir de um servidor da Seppen e repetida pela imprensa sem novos dados, a narrativa desvia o foco de problemas de gestão, como a superlotação carcerária, e alimenta o medo em período pré-eleitoral. O caso ilustra como ameaças não confirmadas geram impactos políticos e institucionais reais antes mesmo de serem comprovadas.
Em 31 de agosto, o jornal Extra publicou a notícia de que uma dissidência da facção Povo de Israel (PVI) estaria se organizando dentro do sistema penitenciário fluminense. Seu nome seria Primeiro Comando do Golpe (PCG) e poderia se tornar, segundo a reportagem, a "quinta facção" do estado. A notícia foi baseada em fonte anônima da Secretaria Estadual de Polícia Penal do Rio de Janeiro (Seppen).
No mesmo dia, ao menos seis veículos replicaram a reportagem citando expressamente o Extra como fonte: BNEWS, Bahia Informa 24h, Brasil em Folhas, Vitrine do Cariri, InfoMoney e Veja.
O fato de seis manchetes repetirem a mesma história não a confirma; torna-a apenas mais visível. Dois dias depois, o jornal A Tarde publicou uma versão própria do mesmo caso. Nenhuma das publicações trouxe novas fontes, informações ou apurações. Todas essas informações têm uma única origem: um servidor anônimo da Seppen.
Para quem estuda segurança pública, o caso revela de que modo categorias de ameaça podem ser produzidas, replicadas por veículos de imprensa e naturalizadas antes mesmo que o fato seja confirmado e estabelecido. Também permite abordar como a circulação desse tipo de informação já produz, por si só, impactos sociais, institucionais e políticas próprios, independentemente do que a apuração futura vier a confirmar.
Pouca transparência
Antes de discutir a existência e a estrutura de uma nova facção, é preciso contextualizá-la e observar alguns aspectos essenciais. Quem deu a informação, com que autoridade, por que neste momento e com quais interesses? E mais: quais consequências uma informação dessa natureza pode ter para a sociedade?
Uma das alegações centrais da notícia é de que ao menos 60 detentos já identificados pertenceriam ao novo grupo. Segundo as reportagens, a dissidência PCG teria se formado após a morte do chefe do PVI, Avelino Gonçalves Lima, no ano passado. O PVI nasceu dentro das prisões fluminenses e nunca controlou territórios do lado de fora. A nova facção reuniria presos rejeitados pelas facções hegemônicas por acusações de estupro ou estelionato, e sua renda viria majoritariamente de golpes aplicados por telefone.
As reportagens também trouxeram informações sobre uma vistoria feita em julho pelo Conselho Penitenciário do Estado do Rio (Cperj), quando foram colhidos relatos de detentos sobre agressões físicas sofridas no [Presídio Evaristo de Moraes] e creditadas ao PCG. Cartas atribuídas a esses detentos relatando o ocorrido também circularam no WhatsApp.
Os textos também citam o caso de um agente penitenciário preso no início de agosto pela Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas (Draco) por suspeitas de facilitar a entrada, no presídio, de celulares e drogas para a nova facção. Seis detentos, incluindo o apontado articulador da dissidência, foram colocados sob o regime mais restritivo do sistema prisional brasileiro.
As informações sobre as agressões a detentos e a prisão do agente vêm de instituições diferentes da Secretaria Estadual de Polícia Penal do Rio de Janeiro e seriam, em princípio, comprováveis por ofícios e autos de prisão. Sendo assim, o próximo passo deveria ser a solicitação de acesso ao ofício do Cperj e ao relatório de inteligência que a Seppen informou ter produzido sobre a nova facção. No entanto, até agora, nada veio a público para confirmar tudo isso.
Contradições internas
A própria Seppen — responsável pelo sistema penitenciário do estado desde 2003 — confirmou a existência da nova facção. Ao mesmo tempo, negou publicamente os relatos de agressão colhidos pelo Cperj.
A Seppen não tem o hábito de divulgar espontaneamente dados sensíveis sobre o sistema prisional, como pude constatar ao longo de mais de três décadas de envolvimento e estudo da gestão da segurança pública fluminense. É a partir desse pano de fundo que um vazamento detalhado, vindo de fonte anônima, chama a atenção: uma secretaria pouco afeita à divulgação de dados produziu, desta vez, informação abundante. Isso não comprova manipulação deliberada, mas é uma anomalia que merece registro.
A conveniência do momento também se destaca. O episódio se dá quando a Seppen enfrenta críticas por superlotação. O Presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, onde ocorreram os fatos, têm capacidade para 1.497 presos, mas abrigava 3.244. É o equivalente a 217% de ocupação. Essa informação está no ofício do Conselho Penitenciário do Estado do Rio (Cperj) enviado à Seppen em 9 de julho.
Relacionar de alguma forma essa falha de gestão com a denúncia de uma "ameaça faccional emergente" desloca o centro do problema de uma responsabilidade do Estado para um novo inimigo a combater.
A segurança pública na eleição
O primeiro turno das eleições majoritárias de 2026 aconteceu no dia 4 de outubro, poucas semanas após a notícia de uma possível nova facção começar a circular.
O Rio de Janeiro vive uma situação atípica: Cláudio Castro renunciou ao governo estadual em março para tentar escapar de uma cassação no Tribunal Superior Eleitoral, que o tornou inelegível mesmo assim. Enquanto isso, o estado segue administrado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça até a Assembleia Legislativa escolher um substituto.
Nesse vácuo, a segurança pública é apontada como o tema central da campanha estadual. A série histórica da pesquisa Genial/Quaest mostra a segurança pública saltando de 10% de menções como maior preocupação do país em dezembro de 2023 para 29% em abril de 2025 e 30% em outubro do mesmo ano.
A pesquisa Ipsos registrou um pico de 52% em novembro de 2025, no momento em que a megaoperação policial contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha deixava mais de 120 mortos. Houve um recuo para 41% em fevereiro e 43% em julho de 2026, sempre mais de dez pontos acima da média mundial no mesmo levantamento.
Em agosto deste ano, uma pesquisa Real Time Big Data mostrou 28% dos eleitores apontando a segurança pública como sua principal preocupação especificamente ao votar para presidente. A segurança se mantém à frente de corrupção e saúde.
O padrão é conhecido: operações policiais de grande impacto movem a opinião pública de forma imediata e mensurável, com valor eleitoral direto. A Operação Contenção, apesar da controvérsia sobre o uso da força, também rendeu a Cláudio Castro um pico de aprovação nas semanas seguintes. Um caso como o do PCG, mesmo sem confirmação, entra exatamente nessa janela de mercado político.
Até o momento, o caso do PCG, ou a expressão "quinta facção", não apareceram no discurso de candidatos ou autoridades. O que existe, no entanto, é um ambiente de opinião pública em que esse tipo de notícia, eleitoralmente apropriada ou não, tem valor de mercado imediato.
Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com 2.004 entrevistas em 137 municípios entre 9 e 10 de março de 2026, foi ainda mais direta: 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais declararam ter medo de ao menos um tipo de violência. O próprio Fórum concluiu, na apresentação do estudo, que será o medo, e não dados ou argumentos racionais, a determinar as escolhas eleitorais em outubro.
Vale ainda comentar o que a circulação dessa notícia já está fazendo, independente de sua veracidade: legitima o uso do RDD contra os seis detentos identificados, reforça pedidos de mais efetivo e orçamento para a inteligência penitenciária, e molda a forma como a opinião pública entende a violência nas prisões do Rio. Essas são consequências reais que já estão em curso, mesmo que o fato que as originou não esteja confirmado.
O medo que se descola do dado
Sabemos, com grande solidez histórica, que o cárcere brasileiro produz facções: foi assim com o Comando Vermelho, nascido do convívio entre presos comuns e presos políticos na Ilha Grande, como documentam Carlos Amorim, em "Comando Vermelho: a história secreta do crime organizado", e a antropóloga Alba Zaluar, em seu trabalho sobre organizações populares e violência. Foi assim também com o PCC, que emergiu em resposta direta ao massacre do Carandiru, com sua sociabilidade interna documentada por Karina Biondi e Camila Dias em anos de trabalho etnográfico dentro do próprio sistema prisional.
O risco é que essa mesma tese, correta no plano histórico, funcione como atalho para justificar outras situações. Como toda prisão brasileira tem superlotação e violência, a explicação "o cárcere gerou mais uma facção" está sempre disponível para o caso real, para o exagero e para a notícia falsa. Uma explicação que serve igualmente bem aos três cenários não ajuda a distingui-los. É sabido que a tendência é aceitarmos mais facilmente uma informação quando ela parece confirmar algo que já consideramos verdadeiro.
Em pesquisa anterior sobre policiamento e percepção de insegurança em bairros do Rio, venho documentando como o medo urbano frequentemente se descola dos dados objetivos de criminalidade. Bairros com índices baixos e estáveis de violência registrada podem, ainda assim, produzir uma sensação coletiva de ameaça constante.
A socióloga Vera Malaguti Batista descreveu esse fenômeno, para o Rio de Janeiro, como um medo que tem história própria e se reproduz independentemente da criminalidade efetiva. Se isso vale para um bairro, vale ainda mais para o estado inteiro às vésperas de uma eleição: o medo, uma vez em circulação, não precisa de muita evidência para se sustentar.
Nada do que foi dito até o momento permite concluir que o PCG tenha a estrutura noticiada ou não exista. Porém, a forma como a informação chegou ao público deveria nos deixar mais cautelosos em relação ao dado: veio na voz de fonte única e anônima, reportagens que a repetem sem apuração própria, em um momento eleitoral em que a categoria "nova facção" tem impacto imediato no ânimo eleitoral.
Robson Rodrigues é Coronel da Reserva da Polícia Militar e foi chefe do Estado Maior da PM do Rio de Janeiro. As opiniões deste artigo não são vinculadas à instituição em que atuou.