O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou após o colapso do banco digital Ueno Bank, que deixou quase metade da população sem acesso a seus fundos e gerou forte crise social. Em meio a protestos e acusações de conflito de interesses — já que Peña foi acionista do grupo controlador —, a Câmara aprovou por unanimidade a abertura de impeachment antes do anúncio. O caso segue para o Senado, que decidirá se aceita a renúncia ou destitui o líder, enquanto o vice Pedro Alliana assume o cargo.
Congresso avalia impeachment de Santiago Peña após colapso de banco digital afetar 3 milhões de clientes. Banco Central interveio ao constatar que instituição virtual não tinha fundos para honrar compromissos.A Câmara dos Deputados do Paraguai autorizou nesta quinta-feira (04/11), por unanimidade, a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, minutos depois de ele anunciar sua renúncia na esteira de um escândalo que deixou quase metade da população do país sem acesso às suas contas bancárias.
O processo agora segue para o Senado, a quem caberá decidir se aceita a renúncia de Peña ou aprova definitivamente a destituição forçada dele do cargo.
A votação na Câmara ocorreu enquanto milhares de pessoas protestavam pelo terceiro dia consecutivo, tentando recuperar suas economias, salários e pensões perdidos com o colapso do Ueno Bank, alvo de intervenção do Banco Central (BCP) na última terça-feira.
O banco digital criado em 2021 reunia 2,9 milhões de clientes — em um país de 6,5 milhões de habitantes — e administrava cerca de 850 milhões de dólares em recursos públicos.
O BCP interveio no Ueno após constatar que a instituição descumpriu os requisitos mínimos de solvência. Como consequência, milhões de clientes perderam acesso às suas contas, espalhando pânico entre a população e gerando correria aos bancos.
Santiago Peña: "Quero pedir desculpas ao povo"
Momentos antes de os deputados autorizarem o impeachment de Peña, o presidente havia publicado um vídeo no X anunciando a renúncia.
"Faço isso tendo em mente a estabilidade do nosso país, a paz social e a necessidade de preservar nossas instituições democráticas", afirmou Peña em uma mensagem em vídeo gravada e divulgada nesta quinta. "Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento lhes falhei."
Peña agiu após perder o apoio de aliados dentro do seu próprio Partido Colorado, de orientação conservadora, num momento em que os deputados já debatiam o impeachment.
O vice-presidente Pedro Alliana deve assumir a Presidência em seu lugar.
Entenda a crise no Paraguai
Parlamentares acusaram Peña de conflitos de interesse, uso indevido de fundos de pensão e acobertamentos institucionais relacionados ao colapso do Ueno.
"Meu maior desejo é que a devolução desses recursos seja garantida, que o fundo de garantia de depósitos cumpra sua finalidade e que os recursos públicos, assim como os recursos que pertencem a todos os paraguaios, sejam protegidos", acrescentou Peña em seu pronunciamento.
Peña foi acionista do grupo que controlava o Ueno até março de 2025, e nomeou seu ex-presidente, Carlos Carvallo, para o BCP em 2023.
Carvallo acabou renunciando ainda na terça-feira, e Peña promulgou uma lei que dá prazo de cinco dias úteis para restituir a maioria dos fundos dos clientes do Ueno, mas as medidas não foram suficientes para conter a crise.
Aliado do presidente dos EUA, Donald Trump, Peña assumiu o mandato em agosto de 2023 e governaria por cinco anos, até 2028.
ra/md (Reuters, AFP, AP)