Da missão da ONU à formação de jovens atletas, iniciativas surgidas após o terremoto de 2010 ajudaram a aproximar os dois países e deixaram marcas que ainda podem ser vistas nos gramados.Brasil e Haiti se enfrentam nesta sexta-feira (19/06) na segunda rodada da Copa do Mundo 2026, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. Mais do que um duelo esportivo, a partida coloca frente a frente dois países que construíram, ao longo das últimas duas décadas, uma relação incomum para os padrões latino-americanos.
O Brasil liderou por mais de dez anos a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), participou de esforços de reconstrução após o terremoto de 2010 e se tornou destino para milhares de haitianos que deixaram o país em busca de novas oportunidades.
Essa aproximação produziu efeitos que foram além da diplomacia, da cooperação humanitária e dos fluxos migratórios. Em alguns casos, também chegou aos gramados.
"O futebol, nesse caso, funciona como uma linguagem simbólica para uma relação histórica, social e política muito mais profunda", diz Roberto Uebel, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM.
Futebol entre Brasil e Haiti
Essa relação complexa entre os dois países tem no projeto Pérolas Negras, criado pela ONG Viva Rio, uma interseção importante. Segundo Rubem César Fernandes, antropólogo e fundador da organização, a ONG esteve no Haiti em 2004, acompanhando os esforços brasileiros na Minustah.
"Nossa função era trabalhar num setor civil que se chama DDR [Desmobilização, Desarmamento e Reintegração]. Então, a gente propôs uma estratégia de entrada nos bairros mais difíceis, mais graves, através do futebol e de noites de festa, música", conta.
Com o projeto, Fernandes percebeu que o futebol era uma maneira de se conectar à comunidade haitiana. Assim, conseguiu convencer o bilionário e filantropo George Soros a bancar um projeto de desenvolvimento de um centro de treinamento de futebol. "E foi assim que começamos, com o trabalho de rua, o trabalho social, que deu lugar a tanta adesão que a gente acreditou que poderia ter resultados de alta performance também, nascendo dali", diz.
O trabalho, porém, enfrentou uma grave crise durante o terremoto que atingiu o Haiti em 2010, e que matou cerca de 300 mil pessoas. "Depois do terremoto, ficou muito mais grave, muito pior. E aí teve uma derrubada também do sistema de governo. Então, ficou muito difícil manter aquela qualidade de trabalho que tínhamos antes", conta.
Por isso, o projeto desembarcou no Brasil. Com um time de refugiados haitianos que fugiam das péssimas condições socioeconômicas pós-terremoto, o Pérolas disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2016 e 2017. Entre os jovens que disputaram a chamada Copinha estava Danley Jean Jacques, meia que atua no Philadelphia Union, dos Estados Unidos, e que irá enfrentar o Brasil na Copa do Mundo.
Além dele, Josué Duverger (goleiro), Carlen Arcus (lateral) e Derrick Etienne (atacante) também passaram pelo projeto no Haiti, foram convocados para a Copa e estarão à disposição do técnico para o confronto contra os brasileiros.
Para Fernandes, a característica de jogo desses haitianos representa o Brasil da memória afetiva popular. "Haiti é uma paixão pelo futebol tão grande e tão popular e, como eu dizia, tão praticada no nível de rua, futebol de rua, eles jogam na curva, na ladeira. E também um estilo muito próprio, muito driblador, muito criativo, muito parecido com o brasileiro, inclusive, dos velhos tempos", diz.
O time do Pérolas Negras, agora com presença nas divisões inferiores do futebol do Rio de Janeiro, continua a existir, embora hoje não seja formado apenas por jogadores haitianos.
O legado da presença brasileira
De acordo com Fernandes, o centro de treinamento ainda existe no Haiti. Não foi destruído nem ocupado pelas gangues. Apesar de alguns furtos, sua integridade foi preservada e seu funcionamento acabou sendo respeitado pelos grupos armados. Ainda assim, as condições necessárias para que opere como antes já não estão presentes.
Para Kai Michael Kenkel, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, pesquisador de operações de paz da ONU e estudioso da atuação brasileira no Haiti, as raízes dos atuais problemas haitianos são múltiplas.
"São instituições fracas, com o país sendo governado por uma elite sem conexão com a população, e, por essa desigualdade, você não tem investimentos em instituições. O exército foi desmobilizado depois de uma intervenção dos EUA, após movimentos que estavam baseados indiretamente na revolução cubana aumentarem a influência no país, esse movimento também enfrentou uma certa resistência dos EUA, que interveio", diz.
Além disso, o legado da Minustah ainda é debatido entre estudiosos. "O Haiti é um país que enfrenta tudo o que você pode enfrentar de problemas: segurança alimentar, violência, pobreza, desenvolvimento. A ONU e a comunidade internacional são ativos lá desde 1994. Houve certos avanços com a Minustah, mas está longe de ser resolvido. A violência e a atuação de grupos armados não parou, mesmo com o Brasil fornecendo o maior contingente e os comandantes durante 13 anos", diz.
O país, porém, tem um valor simbólico muito grande para o hemisfério. "É muito importante lembrar que o Haiti não foi sempre aquele lugar quebrado que ele é agora. No período colonial, era chamado de Pérola das Antilhas, produzindo açúcar e café. Era um lugar economicamente bem desenvolvido, devido à escravidão, mas foi o primeiro lugar onde os negros se organizaram, se libertaram e derrotaram quem queria controlá-los", afirma.
Presença brasileira e imigração
Se o Pérolas Negras é um dos exemplos mais visíveis da aproximação entre os dois países, a imigração haitiana para o Brasil foi talvez sua consequência mais duradoura. Para Uebel, a liderança brasileira na Minustah e nas ações posteriores ao terremoto de 2010 transformaram uma relação antes relativamente distante em uma relação de presença concreta, militar, diplomática, humanitária e social. Por isso, a presença brasileira serviu como elemento de atração para haitianos migrarem para o Brasil.
"A chegada de haitianos ao Brasil, especialmente após 2012, criou vínculos humanos que ultrapassam a diplomacia tradicional. Essa migração tornou o Haiti mais presente na sociedade brasileira, no mercado de trabalho, nas universidades, nas igrejas e nas comunidades locais. Ao mesmo tempo, revelou contradições brasileiras: solidariedade e acolhimento, mas também racismo e xenofobia, tanto social como institucional, precarização laboral e dificuldades de integração. É uma relação social concreta, nascida de uma crise humanitária, mas que permanece viva", diz.
De acordo com dados do Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal, o Brasil registrou a entrada de mais de 206 mil migrantes haitianos de 2010 até hoje, marcando um dos maiores fluxos migratórios da história recente do país.
Por isso, para Kenkel, o confronto entre as duas seleções é especial. "Para todo mundo que esteve envolvido neste esforço que o Brasil fez no Haiti, eu acho muito especial. Acho que há uma comunidade grande e crescente aqui no Brasil também, ralando, contribuindo para o desenvolvimento do país, para quem também é especial, vivendo o momento, jogando contra a seleção mais histórica do mundo", completa.