Estamos prestes a assistir mais uma Copa do Mundo.
Como acontece a cada quatro anos, milhões de brasileiros voltarão a vestir a mesma camisa, discutir escalações, celebrar vitórias e sofrer derrotas. Durante algumas semanas, um país frequentemente dividido encontrará novamente um raro ponto de encontro. Poucas manifestações culturais possuem essa capacidade de mobilizar emoções, construir identidade coletiva e gerar senso de pertencimento como o futebol.
Talvez seja justamente por isso que o tema mereça uma reflexão mais cuidadosa.
Ao longo dos últimos anos, tenho dedicado boa parte da minha vida ao estudo da liderança consciente. Entre as quatro dimensões que compõem a metodologia que desenvolvi, existe uma que considero particularmente desafiadora: a dimensão do legado. Em algum momento, todo líder, toda organização e toda instituição precisam encarar uma pergunta simples, mas profundamente desconfortável: qual é o impacto real que estamos deixando para as pessoas, para as organizações e para a sociedade?
O impacto invisível das apostas no futebol brasileiro
Essa pergunta se tornou cada vez mais presente para mim ao observar o crescimento da indústria das apostas esportivas no Brasil.
Não porque eu tenha qualquer interesse em discutir a liberdade individual de quem aposta. Tampouco porque acredite que o problema possa ser reduzido a uma questão moral. Pessoas adultas devem ter liberdade para fazer suas escolhas. O ponto que me inquieta é outro.
O que acontece quando uma paixão nacional passa a funcionar como principal plataforma de expansão de uma atividade que cresce justamente a partir da repetição frequente de um comportamento potencialmente compulsivo?
Talvez o futebol tenha deixado de ser apenas o produto. Talvez tenha se transformado também em uma poderosa mídia.
Basta assistir a alguns minutos de uma transmissão esportiva para perceber como as apostas passaram a ocupar praticamente todos os espaços disponíveis. Estão nos uniformes, nos estádios, nas entrevistas, nas transmissões, nos intervalos comerciais, nas redes sociais e, cada vez mais, associadas aos ídolos que mobilizam milhões de pessoas.
O fenômeno é tão presente que já não chama atenção.
E talvez seja exatamente esse o problema.
Quando o crescimento financeiro ignora o legado social
Uma das características mais perigosas de qualquer transformação cultural é a sua capacidade de se tornar invisível. Quando algo passa a fazer parte da paisagem cotidiana, deixamos de questionar seus efeitos. A repetição cria familiaridade. A familiaridade cria aceitação. E a aceitação reduz nossa capacidade crítica.
Ao observar esse cenário, não consigo deixar de pensar em uma reflexão que costumo provocar em líderes durante programas de desenvolvimento.
Nem tudo o que gera resultado produz valor. Nem tudo o que gera crescimento produz desenvolvimento. Nem tudo o que é legal ou permitido necessariamente contribui para uma sociedade mais saudável.
São perguntas difíceis porque desafiam uma lógica que domina grande parte das decisões contemporâneas: a lógica do resultado imediato. Quando o único critério de sucesso passa a ser crescimento, audiência, faturamento ou rentabilidade, corremos o risco de perder de vista uma questão mais ampla e mais importante: o que estamos fortalecendo através das nossas escolhas?
A liderança consciente e o jogo fora das quatro linhas
A história está repleta de exemplos de atividades extremamente lucrativas que produziram impactos sociais profundamente negativos. Em muitos casos, o problema não estava na atividade em si, mas na incapacidade de enxergar seus efeitos de longo prazo enquanto os benefícios de curto prazo pareciam irresistíveis.
É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre futebol.
E deixa de ser sobre apostas.
Ela passa a ser sobre consciência.
A verdadeira liderança começa quando somos capazes de enxergar além das narrativas, dos incentivos e dos resultados imediatos. Ela exige a disposição de perguntar não apenas o que funciona, mas também a serviço de quê aquilo funciona.
Porque, no final das contas, o legado não é construído pelas intenções que declaramos. Ele é construído pelos efeitos que deixamos. Talvez essa seja a reflexão mais importante desta Copa.
Enquanto assistimos ao jogo que acontece dentro das quatro linhas, vale a pena dedicar alguns minutos ao jogo que está acontecendo fora delas.
Nem sempre o que mais influencia uma sociedade é aquilo para o qual estamos olhando. Às vezes, é justamente aquilo que aprendemos a não enxergar.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil.