Um novo comprimido de dose única diária contra o HIV demonstrou resultados iguais ou superiores ao atual padrão terapêutico utilizado para manter o vírus sob controle. O fato mais impactante deste avanço é que 98,6% dos pacientes que utilizaram a fórmula experimental mantiveram a carga viral indetectável após 48 semanas de acompanhamento. De acordo com informações da CNN, a conclusão faz parte de um ensaio clínico internacional publicado no periódico científico The Lancet em fevereiro. O regime inovador utiliza a combinação das drogas doravirina e islatravir, eliminando a necessidade de ingerir múltiplos comprimidos e oferecendo uma alternativa eficaz para os tratamentos que utilizam inibidores da integrase, classe que pode perder eficiência com o passar dos anos.
A pesquisa contou com a participação de 553 voluntários distribuídos em oito países. Enquanto o grupo da pílula única atingiu quase a totalidade de controle viral, o grupo que seguiu o tratamento padrão registrou um índice de 95,1%. Estar no estágio indetectável é um marco fundamental, pois significa que a doença está controlada e o vírus torna-se intransmissível. Para o infectologista Moacyr Silva Júnior, do Hospital Israelita Albert Einstein, a importância do estudo reside na criação de novas frentes terapêuticas. "São resultados muito importantes. Ela gera a supressão e, caso o paciente apresente resistência, você vai poder utilizar outras drogas, que atualmente fazem parte do tratamento padrão", analisa o médico.
A simplificação do tratamento para apenas uma pílula diária é vista como um fator determinante para aumentar a adesão dos pacientes, evitando esquecimentos que podem comprometer a eficácia da terapia. Embora o estudo tenha registrado alguns efeitos adversos no grupo experimental, Silva Júnior pondera que isso não inviabilizou o uso do medicamento para HIV. "Ainda é muito precoce para a gente analisar, porque somente quando se utiliza essas novas drogas em fase populacional ampla é que você vai ter a real forma de saber dos efeitos colaterais. Mas, a princípio, não se verificou tantos efeitos colaterais assim", reforça o especialista.
No Brasil, os dados do Ministério da Saúde apontam que 86% das pessoas em tratamento já estão com a carga viral indetectável, um resultado histórico impulsionado pela atuação do SUS. A chegada de novos esquemas terapêuticos representa mais um passo na evolução do combate à doença, permitindo driblar a resistência viral e melhorar a qualidade de vida. Segundo Moacyr Silva, esse progresso é motivo de celebração. "O que este estudo está indicando é uma simplificação e uma diversificação dos esquemas terapêuticos que já temos no Brasil. A gente vive uma revolução em relação ao HIV usando menos drogas, menos medicações e criando alternativas para driblar a resistência viral", conclui o infectologista. Apesar da Anvisa ter aprovado recentemente uma vacina preventiva semestral, os especialistas reforçam que, embora o controle esteja cada vez mais simples, ainda não se trata da cura definitiva.