Cinco vítimas de abuso sexual do mosaicista e ex-jesuíta Marko Rupnik enviaram carta aberta ao Papa criticando a falta de informações e a inércia do Vaticano diante do caso, classificando a omissão como violência contínua. Elas elogiaram a cobertura de obras do artista em Lourdes antes da visita papal, mas cobraram justiça efetiva. Expulso de sua congregação em 2023 por abusos diversos, Rupnik tem peças famosas em santuários pelo mundo, como no Santuário Nacional de Aparecida, no Brasil.
Cinco supostas vítimas de abuso sexual por parte do artista esloveno de mosaicos sacros Marko Rupnik, ex-sacerdote jesuíta, enviaram uma carta aberta ao papa Leão XIV na qual criticam o que chamam de "silêncio prolongado" em torno do caso.
As mulheres classificam a falta de informação como "uma violência adicional e contínua" contra elas. "Decidimos escrever por ocasião de sua viagem à França ? e, especificamente, de sua visita a Lourdes, onde encontrará vítimas de abuso como nós", diz o texto.
Rupnik é autor dos mosaicos da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, no Santuário de Lourdes, porém as obras foram cobertas para a visita do pontífice, que começa na próxima sexta-feira (25).
"Um gesto poderoso e corajoso que apreciamos imensamente, sobretudo porque jamais vivenciamos uma atmosfera de solidariedade; pelo contrário, sempre enfrentamos forte oposição e hostilidade", acrescenta a carta, que é assinada por Gloria Branciani, Mirjam Kovac, irmã Samuelle, Vida Bernard e Pia (esta última usa um pseudônimo por temor de represálias).
As cinco são ex-integrantes da Comunidade Inácio de Loyola, da qual Rupnik, 71, foi membro destacado antes de ser expulso, há cinco anos.
O documento foi divulgado pela advogada das freiras, Laura Sgrò, e diz que as vítimas ficaram sabendo somente pela imprensa sobre um processo contra o artista no Vaticano. Além disso, acusa o Dicastério para a Doutrina da Fé, principal órgão da Santa Sé em matéria de teologia, de ter ignorado reiterados apelos de Sgrò para obter esclarecimentos sobre o caso.
"Este silêncio ruidoso e prolongado é vivido por nós, vítimas, como uma violência adicional e contínua, que se soma, com o peso de uma pedra enorme, à violência que já sofremos. Violência sexual, física, psicológica, espiritual, uma violência prolongada na alma, à qual agora se acrescenta também esta nova e dolorosa violência do silêncio e do abandono do sistema judiciário", afirma o texto.
As freiras alegam ter sido chamadas de "meretrizes e mentirosas" e de ter "recebido dinheiro para acusar Rupnik".
"Tornamo-nos, a contragosto, um exemplo negativo. Porque a mensagem passada por nossas denúncias é esta: é inútil denunciar um abuso à autoridade eclesiástica porque não acontece nada, ninguém vai pagar, e as vítimas nunca terão justiça. Porque nós, Santidade, perdemos todo o rastro da justiça", diz a carta, finalizando com um apelo "por verdade" ao Papa.
Rupnik, ex-integrante da Companhia de Jesus, foi expulso da ordem em 2023, após ser acusado de abusos sexuais, físicos e psicológicos. Embora alguns de seus mosaicos tenham sido cobertos, suas obras permanecem expostas em dezenas de igrejas e santuários ao redor do mundo, incluindo o Santuário Nacional de Aparecida, maior templo católico do Brasil.