Em entrevista, Emmanuel Macron alertou para o risco de ações hostis da Rússia contra a França, como ataques cibernéticos e com drones a aeroportos, anunciando o reforço da vigilância em locais sensíveis. O presidente francês também abordou o impacto internacional na alta dos combustíveis, atribuída à crise no Oriente Médio, garantiu o abastecimento do país e defendeu a responsabilidade fiscal do orçamento de 2027 diante dos gastos com Defesa e da dívida pública.
A alta dos preços dos combustíveis e a ameaça russa estiveram entre os principais temas da entrevista de 40 minutos concedida aos jornalistas Gilles Bouleau (TF1) e Caroline Roux (France Télévisions), uma oportunidade para o presidente se dirigir à população sete meses antes das próximas eleições presidenciais.
Macron iniciou a conversa abordando temas internacionais e explicando como eles afetam o cotidiano dos franceses. O principal assunto foi o preço dos combustíveis e o crescente descontentamento social no país.
O presidente explicou que a alta da gasolina está ligada ao que ocorre no Oriente Médio, em especial ao bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pelo Irã.
"Estamos fazendo tudo para evitar a escassez de combustíveis", declarou, acrescentando que 80% dos estoques franceses estão abastecidos.
"Hoje esperamos poder agir pela via diplomática", reiterou. "Temos 20% do gás e do diesel consumidos na França vindos do Golfo Pérsico. Por isso, o mais importante é reduzir a tensão naquela região", afirmou.
Uma eventual proibição das exportações de diesel americano, medida à qual Donald Trump já manifestou apoio, seria uma decisão ruim, segundo Macron.
"Essa decisão seria ruim não apenas para o resto do mundo, mas também para a economia americana", afirmou. "Acho que todos os especialistas que o cercam e todas as refinarias americanas só podem lhe dizer a mesma coisa."
Macron alerta para atos hostis da Rússia
O presidente também foi questionado sobre a guerra na Ucrânia e a ameaça russa, em meio à continuidade dos bombardeios no território ucraniano. Em seu discurso na ONU esta semana, Macron reafirmou o apoio francês a Kiev.
Embora não tenha confirmado a existência de uma ameaça russa específica ao sul da França, admitiu que a tensão está aumentando e ressaltou que "a guerra é um problema europeu".
Questionado pelos jornalistas, afirmou que drones armados poderiam ser enviados contra aeroportos franceses. Segundo ele, como os europeus ajudam os ucranianos enquanto Kiev ataca alvos estratégicos na Rússia, a Europa acaba sendo alvo de ações hostis. Macron lembrou, ainda, que a França já sofreu ataques cibernéticos no passado.
"A Rússia realiza atos hostis que podem matar", declarou.
Macron também considerou plausível uma nova mobilização de 300 mil soldados pelo Kremlin.
"Temos que nos preparar, não estamos apáticos. Trabalhamos há meses, há anos, para desmantelar redes de desinformação."
Ele confirmou ainda que o ministro do Interior determinou o reforço da vigilância em locais sensíveis do país, como em instalações militares, infraestrutura de transporte, aeroportos e hospitais.
"A Rússia multiplica atos hostis e, por vezes, criminosos na Europa", repetiu.
"Quatro anos e meio após a invasão, a Rússia não tomou a Ucrânia como imaginava", observou. Segundo Macron, Moscou pretende continuar esse esforço territorial, mas o avanço pode levar tempo e provocar novas perdas. Enquanto isso, acrescentou, a França seguirá ajudando os ucranianos a resistir.
Dívida e orçamento
O presidente também justificou o aumento da dívida pública pelas medidas adotadas para reforçar a Defesa, aumentar a atratividade econômica da França e enfrentar crises recentes, como a pandemia de Covid-19.
Questionado sobre um possível retorno do movimento dos coletes amarelos, Macron afirmou que é normal que a população manifeste sua revolta em tempos difíceis.
"Isso não nos ajudaria coletivamente", declarou. "Se houver um movimento agora, seria contra a guerra? Não foi o governo que criou essa situação", justificou.
O presidente também lamentou que a Reforma da Previdência não tenha sido implementada como ele considera necessário.
Ao final da entrevista, Macron defendeu o projeto de orçamento para 2027 apresentado pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu. Segundo o presidente, a proposta é responsável e necessária diante do contexto internacional e da necessidade de controlar as finanças públicas.
Macron afirmou que o governo precisa fazer escolhas difíceis para preservar a capacidade de investimento do Estado, reduzir o déficit e garantir a estabilidade econômica do país.