A divulgação de um vídeo pelo ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, mostrando dezenas de militantes da "flotilha para Gaza" ajoelhados, com as mãos amarradas, após sua interceptação no Mediterrâneo, provocou uma onda de condenações diplomáticas na Europa e na Ásia.
As imagens, publicadas no canal do ministro no Telegram, exibem os detidos alinhados no chão enquanto o hino nacional israelense toca ao fundo. O gesto, imediatamente criticado por governos estrangeiros, reacendeu tensões sobre o tratamento dado por Israel a ativistas que tentam romper o bloqueio imposto à Faixa de Gaza.
A ministra das Relações Exteriores da Irlanda, Helen McEntee, afirmou estar "consternada e chocada" com o vídeo e denunciou o que chamou de detenção ilegal dos participantes irlandeses da flotilha, entre eles Margaret Connolly, irmã da presidente irlandesa Catherine Connolly. Para a chefe da diplomacia irlandesa, os detidos "não estão sendo tratados com a dignidade ou o respeito apropriados", e sua libertação imediata é considerada prioridade pelo governo de Dublin.
A Espanha também reagiu com dureza. O ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel Albares, classificou o tratamento dos militantes como "monstruoso, indigno e inumano", exigiu desculpas públicas de Israel e anunciou a convocação urgente da encarregada de negócios israelense em Madri. Segundo ele, cidadãos espanhóis estavam entre os detidos e foram expostos a condições que violam padrões mínimos de respeito humanitário.
A França seguiu a mesma linha e convocou o embaixador israelense em Paris. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou que o comportamento "inadmissível" de Ben Gvir exige explicações formais. Para Paris, a divulgação das imagens por um membro do governo israelense ultrapassa limites diplomáticos e compromete a relação bilateral num momento de forte sensibilidade internacional.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também criticou a conduta de seu ministro. Embora tenha defendido o direito de Israel de impedir a entrada de "flotilhas provocadoras" que, segundo ele, serviriam aos interesses do Hamas, Netanyahu afirmou que a forma como Ben Gvir tratou os militantes "não está em conformidade com os valores e normas de Israel". O premiê pediu ainda que os ativistas sejam expulsos "o mais rápido possível", reforçando a posição oficial de que a flotilha representava uma tentativa deliberada de desafiar o bloqueio.
Reações internacionais se ampliam e pressionam Israel
O governo italiano classificou como "inadmissível" o tratamento dado aos ativistas, entre eles diversos cidadãos italianos. Em comunicado conjunto, a primeira-ministra Giorgia Meloni e o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmaram que o episódio "fere a dignidade humana" e anunciaram medidas imediatas para obter a libertação dos italianos detidos. Roma também exigiu desculpas formais e convocou o embaixador israelense para prestar esclarecimentos.
A Indonésia, que confirmou a detenção de nove de seus cidadãos, incluindo dois jornalistas do jornal Republika, pediu a libertação imediata de todos os participantes e dos navios apreendidos. O governo indonésio afirmou que os detidos estavam em missão humanitária e que sua remoção forçada para território israelense ocorreu contra a vontade dos tripulantes.
A Turquia e a Espanha também condenaram a interceptação, reforçando críticas ao bloqueio imposto à Faixa de Gaza desde 2007. Segundo os organizadores da flotilha, 50 embarcações haviam partido da Turquia com o objetivo de entregar ajuda humanitária ao território palestino, devastado por dois anos de guerra e por uma trégua frágil em vigor desde outubro de 2025.
As forças israelenses interceptaram os barcos na segunda-feira (18), ao largo de Chipre, e iniciaram o transporte dos 430 participantes para o porto de Ashdod, no sul de Israel. Segundo o Ministério das Relações Exteriores israelense, todos foram transferidos para navios militares e conduzidos ao país durante a madrugada de terça para quarta-feira. Uma ONG de defesa de direitos humanos, Adalah, afirmou que alguns já haviam chegado ao porto e estavam detidos em instalações israelenses.
A organização denunciou que os participantes, que navegavam rumo a Gaza para entregar ajuda e contestar o bloqueio, foram "forçados a entrar em território israelense contra sua vontade", após serem interceptados em águas internacionais. Para Adalah, o episódio configura violação do direito internacional e reforça a necessidade de monitoramento independente das operações israelenses no Mediterrâneo.
Israel defende operação e acusa flotilha de servir ao Hamas
O Ministério das Relações Exteriores de Israel afirmou que os detidos poderão encontrar representantes consulares de seus países. Em nota, o porta-voz da pasta declarou que a flotilha "não passou de um golpe de comunicação a serviço do Hamas", movimento islamista que realizou o ataque de outubro de 2023 e desencadeou a guerra em Gaza. Segundo o governo israelense, impedir a chegada das embarcações é parte de sua estratégia para evitar que o Hamas utilize rotas marítimas para fins políticos ou logísticos.
Netanyahu reforçou essa posição ao afirmar que a flotilha representava "um plano malicioso destinado a romper o bloqueio imposto aos terroristas do Hamas". Para o premiê, a operação de interceptação foi legítima e necessária, embora tenha reconhecido que a divulgação das imagens por Ben Gvir prejudicou a imagem internacional de Israel.
O episódio ocorre meses depois de outra flotilha ter sido interceptada em abril, nas águas internacionais próximas à Grécia. Na ocasião, a maioria dos ativistas foi expulsa para países europeus, enquanto dois foram levados a Israel, detidos por vários dias e posteriormente deportados. A repetição das tentativas de romper o bloqueio evidencia a persistência de redes internacionais de solidariedade a Gaza e a crescente pressão sobre Israel para permitir maior fluxo de ajuda humanitária.
A Faixa de Gaza, sob bloqueio israelense desde 2007, enfrenta escassez crônica de alimentos, medicamentos e bens essenciais. Durante a guerra, Israel interrompeu completamente o envio de ajuda em diversos momentos, agravando a crise humanitária. A trégua iniciada em outubro de 2025 reduziu a intensidade dos combates, mas não normalizou o abastecimento do território, que continua dependente de corredores humanitários intermitentes.
Com AFP