Sul do Líbano é devastado por incêndios e moradores da região acusam Israel de queimadas deliberadas

Enquanto o Exército israelense continua realizando ataques diários no sul do Líbano - os bombardeios do fim de semana deixaram 11 mortos, entre eles crianças -, a região também vem sendo devastada por numerosos incêndios. Moradores, ONGs e integrantes da Defesa Civil acusam Israel de ser responsável pelas queimadas e de adotar uma estratégia de destruição sistemática.

20 ago 2026 - 13h17
Resumo
Autoridades e moradores do sul do Líbano acusam Israel de adotar uma política de terra arrasada ao provocar queimadas deliberadas que já devastaram milhares de hectares de florestas e áreas agrícolas. Segundo a Defesa Civil local, os ataques do Exército israelense geram a maioria dos incêndios e impedem o trabalho dos bombeiros na região de fronteira. O governo libanês e ambientalistas denunciam a destruição sistemática como uma tentativa de tornar o território inabitável.

Amélie David, correspondente da RFI em Beirute

Incêndios consomem florestas nos arredores de Kfar Shouba, sul do Líbano, após ataques israelenses, em 5 de agosto de 2026.
Incêndios consomem florestas nos arredores de Kfar Shouba, sul do Líbano, após ataques israelenses, em 5 de agosto de 2026.
Foto: AFP - - / RFI

No início desta semana, o Exército israelense bombardeou cerca de dez localidades, na segunda-feira (17), entre elas o vilarejo de Kfar Remmane, nos arredores de Nabatiyeh. Os ataques provocaram grandes incêndios, registrados pela ONG ambiental Green Southerners e por vários veículos de comunicação locais.

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O vilarejo fronteiriço de Yaroun também foi atingido por grandes incêndios há algumas semanas. Segundo moradores, o Exército israelense teria provocado deliberadamente as queimadas depois de destruir praticamente toda a localidade: casas, locais de culto e sítios arqueológicos.

O prefeito, Hafez Ghasham, acompanha a situação por imagens de satélite. Segundo ele, não restou praticamente nada. As árvores que haviam sobrevivido foram queimadas, incluindo oliveiras e árvores frutíferas. Para o prefeito, a destruição busca transformar a região em uma terra "imprópria para a vida", apagando os vestígios da população que vivia ali.

Bombeiros são impedidos de combater os incêndios

Segundo Hussein Fakih, chefe da Defesa Civil de Nabatiyeh, 90% dos incêndios são provocados pelo Exército israelense. Em áreas ocupadas, as equipes de emergência precisam obter autorização do mecanismo responsável pela supervisão do cessar-fogo - e, portanto, da própria parte israelense - para poder atuar.

Essa autorização, segundo Fakih, às vezes não é concedida ou demora várias horas, quando o fogo já se espalhou. Mesmo quando conseguem chegar ao local, os bombeiros podem ser obrigados a abandonar a área por causa de novos ataques.

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"Às vezes ocorrem bombardeios em áreas próximas aos bombeiros para obrigá-los a deixar o local e impedir que avancem", denunciou. Segundo ele, também são registrados disparos e lançamento de bombas sonoras nas proximidades das equipes de emergência.

Oliveiras arrancadas em Kfarchouba

Em Kfarchouba, vilarejo de maioria sunita situado oficialmente na fronteira da área ocupada, moradores relataram um incêndio de grande intensidade que atingiu a parte norte da localidade no início do mês. Vários hectares de carvalhos foram destruídos depois que munições israelenses teriam provocado as queimadas.

Os moradores também denunciam a destruição de terras agrícolas. A agricultora Ferial Abdel Aal afirma que possuía uma área com 120 oliveiras, todas arrancadas durante o conflito.

"Com esta guerra, que já dura um ano e meio, eu tinha uma parcela de terra onde havia 120 oliveiras. Israel as arrancou, todas elas", afirmou.

Acusações de 'política de terra arrasada'

Entre incêndios e destruição, mais de 50 hectares de terras foram devastados por ações atribuídas ao Exército israelense no sul do Líbano, segundo as informações reunidas pela reportagem. O governo libanês, moradores e organizações ambientais acusam Israel de adotar uma 'política de terra arrasada', método de guerra que visa destruir tudo em um território, inclusive recursos naturais, e esperam que o país seja responsabilizado pelos danos ambientais.

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Procurado pela RFI, o Exército israelense não respondeu às acusações.

A ministra libanesa do Meio Ambiente, Tamara el-Zein, afirmou em meados de agosto que Israel teria queimado deliberadamente mais de 16 mil hectares de terras no Líbano desde outubro de 2023. Segundo ela, foram 8 mil hectares entre 2023 e 2024 e outros 8 mil entre março e julho de 2026. A estimativa inclui florestas, áreas arborizadas, terras agrícolas e plantações de oliveiras.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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