Sinais contraditórios dos Estados Unidos e do Irã sobre o andamento das negociações para pôr fim à guerra que já dura cinco meses aumentaram a incerteza nesta terça-feira, 4, com o mais recente ataque à navegação no Estreito de Ormuz destacando os riscos aos fluxos globais de energia.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na segunda-feira,3, que as negociações estavam em andamento, alertando que esta seria a "última chance" de Teerã assinar um bom acordo, mas o Irã negou que as negociações estivessem ocorrendo ou fossem planejadas.
"Elas estão acontecendo neste momento", disse Trump a repórteres em um evento no Salão Oval quando questionado sobre o andamento das negociações, afirmando que as partes estavam conversando a pedido do Irã, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, entre outros.
"Esta é a última chance para eles (o Irã) assinarem um bom acordo."
As declarações vieram após a decisão de Trump, no fim de semana, de cancelar "ataques em grande escala" que ele disse ter autorizado contra o Irã, já que as negociações estavam prestes a ocorrer, repetindo um padrão em que ele promete ataques de grande porte apenas para cancelá-los.
Na manhã desta segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, afirmou que não estavam ocorrendo negociações com os Estados Unidos e que não havia reuniões agendadas.
O Irã não tinha planos de receber delegações estrangeiras nem de enviar negociadores ao exterior nos próximos dias, disse ele.
Baghaei acrescentou que todos os negociadores iranianos estavam no país, com exceção do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, que estava em uma peregrinação religiosa no Iraque. As únicas negociações em andamento, disse ele, eram discussões com Omã sobre a gestão do Estreito de Ormuz.
A atividade de navegação no Golfo apenas reforçou o impasse em curso, já que o Irã praticamente interrompeu o tráfego por essa rota vital — pela qual passa um quinto dos embarques globais de petróleo bruto e gás natural — antes de ela ter sido bloqueada durante a guerra.
Um navio de carga informou por transmissão que havia sido atingido por um projétil desconhecido perto do estreito, na costa de Omã, informou a agência britânica Maritime Trade Operations (UKMTO).
O tráfego pelo Estreito de Ormuz permaneceu bastante lento, com três petroleiros e três graneleiros entre as seis embarcações que transitaram pelo estreito na segunda-feira, uma queda em relação às sete do dia anterior, segundo dados da Kpler.
AÇÕES SOBEM, PETRÓLEO CAI COM EXPECTATIVAS DE RESOLUÇÃO
Ainda assim, as esperanças de que as tensões entre os EUA e o Irã estivessem diminuindo novamente pressionaram os preços do petróleo para baixo, enquanto os principais índices de ações registraram alta na segunda-feira.
Os futuros do petróleo Brent caíam cerca de 7%, para cerca de US$83,77 o barril, enquanto o Dow fechou em alta recorde.
Autoridades do Golfo e analistas afirmam que o Irã está apostando que pode resistir a Washington por mais tempo, transformando as rotas comerciais, as rotas marítimas e a infraestrutura energética do Oriente Médio em pontos de pressão que elevam constantemente o custo do confronto.
O país espera que tal estratégia convença os Estados Unidos e seus aliados de que conter a crise é mais oneroso do que atender às exigências do Irã em relação ao Estreito de Ormuz.
"A grande vantagem deles é que podem prejudicar os países da região e a economia global", disse Michael Knights, do Washington Institute.
Em uma postagem no Truth Social na segunda-feira à noite, Trump chamou a liderança do Irã de "incrivelmente hipócrita", dizendo que eles haviam solicitado uma reunião e que mais negociações estavam marcadas para o "futuro imediato".
Ele também reiterou sua afirmação de que a Marinha dos EUA detém controle total sobre o Estreito de Ormuz.
"'A Muralha de Aço dos Estados Unidos!' Nada chega ao Irã, a menos que queiramos, e nada passará, a menos que um acordo — ou uma rendição total — seja alcançado", escreveu ele.
PADRÃO RECORRENTE
Os eventos da segunda-feira parecem se encaixar em um padrão desde que Trump lançou a "Operação Fúria Épica" em conjunto com Israel, há mais de cinco meses. Trump já ameaçou com ação militar várias vezes, apenas para, posteriormente, citar contatos diplomáticos como motivo para recuar.
O Irã, no entanto, rejeitou publicamente as negociações com Washington desde o colapso, no início de julho, de um memorando de entendimento assinado por ambas as partes no mês anterior, com o objetivo de pôr fim ao conflito.
Trump ainda não alcançou os objetivos que estabeleceu no início da guerra: desmantelar o programa nuclear do Irã, restringir sua capacidade de atacar rivais regionais e criar condições para que os iranianos derrubem seus governantes clericais.
As repetidas ações dos EUA têm sido recebidas com respostas cada vez mais intensas do Irã contra as forças americanas na região, os aliados árabes de Washington no Golfo e o tráfego marítimo, terminando sempre com Trump recuando.
A disputa sobre o Estreito de Ormuz continua sendo um ponto central de discórdia, com Washington afirmando que o memorando de junho exigia que o Irã abrisse a via navegável, enquanto Teerã afirma que o texto preservava explicitamente sua autoridade sobre o tráfego marítimo.