Líbano e Israel retomam negociações em Roma sob pressão do Hezbollah e impasse sobre desarmamento

Líbano e Israel retomaram nesta terça-feira (4), em Roma, negociações mediadas pelos Estados Unidos para tentar implementar o acordo de segurança firmado no fim de junho. O entendimento prevê retiradas graduais das forças israelenses do sul do território libanês e a expansão do controle do Exército do Líbano sobre áreas evacuadas. O Hezbollah voltou a rejeitar o processo, atacou o presidente Joseph Aoun e, pela primeira vez, admitiu a possibilidade de diálogo com as novas autoridades da Síria.

4 ago 2026 - 06h37

As conversas na capital italiana marcam a sétima rodada de negociações entre representantes libaneses e israelenses desde o início do processo patrocinado por Washington. Segundo autoridades norte-americanas, os debates devem se concentrar na ampliação das chamadas "zonas-piloto", áreas evacuadas por Israel e progressivamente ocupadas pelo Exército libanês, além de questões fronteiriças ainda pendentes e da construção de um entendimento mais amplo sobre segurança entre os dois países.

Soldados libaneses montam guarda na cidade de Zawtar al-Gharbiyeh, após a retirada das forças israelenses prevista em um acordo mediado pelos Estados Unidos, no sul do Líbano, em 26 de julho de 2026.
Soldados libaneses montam guarda na cidade de Zawtar al-Gharbiyeh, após a retirada das forças israelenses prevista em um acordo mediado pelos Estados Unidos, no sul do Líbano, em 26 de julho de 2026.
Foto: REUTERS - Aziz Taher / RFI

Embora as hostilidades tenham diminuído desde junho, Beirute continua denunciando ataques esporádicos de Israel e operações militares no sul do país. Líbano e Israel seguem tecnicamente em estado de guerra, apesar das negociações em curso.

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Na véspera da abertura da rodada de Roma, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, pediu que os dois lados mantenham um espírito construtivo e busquem soluções comuns para colocar em prática o acordo assinado no fim de junho.

O entendimento prevê a retirada gradual das forças israelenses de determinadas áreas do sul libanês e sua substituição pelo Exército do Líbano. Em contrapartida, a aplicação integral do acordo está vinculada à questão do arsenal do Hezbollah, tema que permanece sem solução.

A primeira etapa do processo começou em 21 de julho, quando militares libaneses assumiram o controle de Zawtar al-Gharbiya, escolhida como primeira área-piloto. A medida permitiu o retorno de moradores deslocados pelos confrontos dos últimos meses.

Hezbollah rejeita diálogo com Israel

O principal foco de resistência ao acordo continua sendo o Hezbollah. Em pronunciamento transmitido pela televisão nesta terça-feira (4), o líder do movimento xiita apoiado pelo Irã, Naïm Kassem, afirmou que as negociações diretas entre Líbano e Israel não levarão a resultados positivos.

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Segundo ele, o processo produzirá apenas "vergonha, humilhação e concessões sucessivas" para os libaneses. A declaração reforça a posição adotada pelo grupo desde a assinatura do acordo-quadro e evidencia as dificuldades enfrentadas pelas autoridades de Beirute para avançar em compromissos considerados fundamentais pelos mediadores norte-americanos.

Kassem também dirigiu críticas ao presidente libanês, Joseph Aoun. O chefe do Hezbollah acusou o dirigente de abandonar uma postura de neutralidade institucional e de contribuir para divisões internas em vez de atuar como elemento de consenso nacional.

A posição do movimento é particularmente relevante porque a questão de seu armamento se tornou um dos principais temas das negociações. O Hezbollah já declarou diversas vezes que não pretende entregar suas armas, apesar das pressões internacionais e das demandas contidas no acordo.

Foi o próprio grupo que levou o Líbano a se envolver diretamente na escalada regional ao abrir uma frente de confrontos com Israel em apoio ao Irã. Os combates provocaram intensos bombardeios israelenses e uma ofensiva terrestre que atingiu diversas localidades do sul do país.

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Os Estados Unidos reconhecem a sensibilidade do momento. O embaixador norte-americano em Beirute, Michel Issa, afirmou que a implementação do acordo deve ocorrer de forma responsável e advertiu que avanços acelerados podem colocar civis em risco. Segundo ele, as partes precisam estabelecer mecanismos claros antes de ampliar o processo.

Abertura inédita ao novo governo sírio

No mesmo discurso, Naïm Kassem fez uma declaração que pode indicar uma mudança importante na relação entre o Hezbollah e a Síria pós-Assad. Pela primeira vez desde a queda do ex-ditador sírio, o líder do movimento admitiu publicamente a possibilidade de um encontro com a nova liderança de Damasco.

"Nada impede uma reunião pública entre o Hezbollah e o comando sírio quando as duas partes julgarem oportuno", afirmou.

Durante anos, o Hezbollah combateu ao lado de Bashar al-Assad na guerra civil síria e manteve uma estreita aliança política e militar com o antigo governo. A mudança de poder em Damasco levou observadores a questionar como ficariam as relações entre o grupo libanês e as novas autoridades sírias.

Kassem defendeu a construção de relações "fraternas e positivas" entre os dois países, abrindo espaço para uma aproximação que até recentemente parecia improvável.

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A declaração ocorre após apelos feitos pelo presidente norte-americano, Donald Trump, para que a Síria desempenhe um papel maior na contenção do Hezbollah e na estabilização da região. O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, respondeu descartando qualquer intenção de interferir diretamente nos assuntos internos do Líbano.

O posicionamento do Hezbollah sugere que, enquanto rejeita concessões nas negociações com Israel, o movimento procura ao mesmo tempo redefinir suas alianças regionais em um Oriente Médio marcado por rápidas transformações políticas e por tentativas de reorganização dos equilíbrios de poder após meses de conflito.

Com AFP

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