As conversas na capital italiana marcam a sétima rodada de negociações entre representantes libaneses e israelenses desde o início do processo patrocinado por Washington. Segundo autoridades norte-americanas, os debates devem se concentrar na ampliação das chamadas "zonas-piloto", áreas evacuadas por Israel e progressivamente ocupadas pelo Exército libanês, além de questões fronteiriças ainda pendentes e da construção de um entendimento mais amplo sobre segurança entre os dois países.
Embora as hostilidades tenham diminuído desde junho, Beirute continua denunciando ataques esporádicos de Israel e operações militares no sul do país. Líbano e Israel seguem tecnicamente em estado de guerra, apesar das negociações em curso.
Na véspera da abertura da rodada de Roma, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, pediu que os dois lados mantenham um espírito construtivo e busquem soluções comuns para colocar em prática o acordo assinado no fim de junho.
O entendimento prevê a retirada gradual das forças israelenses de determinadas áreas do sul libanês e sua substituição pelo Exército do Líbano. Em contrapartida, a aplicação integral do acordo está vinculada à questão do arsenal do Hezbollah, tema que permanece sem solução.
A primeira etapa do processo começou em 21 de julho, quando militares libaneses assumiram o controle de Zawtar al-Gharbiya, escolhida como primeira área-piloto. A medida permitiu o retorno de moradores deslocados pelos confrontos dos últimos meses.
Hezbollah rejeita diálogo com Israel
O principal foco de resistência ao acordo continua sendo o Hezbollah. Em pronunciamento transmitido pela televisão nesta terça-feira (4), o líder do movimento xiita apoiado pelo Irã, Naïm Kassem, afirmou que as negociações diretas entre Líbano e Israel não levarão a resultados positivos.
Segundo ele, o processo produzirá apenas "vergonha, humilhação e concessões sucessivas" para os libaneses. A declaração reforça a posição adotada pelo grupo desde a assinatura do acordo-quadro e evidencia as dificuldades enfrentadas pelas autoridades de Beirute para avançar em compromissos considerados fundamentais pelos mediadores norte-americanos.
Kassem também dirigiu críticas ao presidente libanês, Joseph Aoun. O chefe do Hezbollah acusou o dirigente de abandonar uma postura de neutralidade institucional e de contribuir para divisões internas em vez de atuar como elemento de consenso nacional.
A posição do movimento é particularmente relevante porque a questão de seu armamento se tornou um dos principais temas das negociações. O Hezbollah já declarou diversas vezes que não pretende entregar suas armas, apesar das pressões internacionais e das demandas contidas no acordo.
Foi o próprio grupo que levou o Líbano a se envolver diretamente na escalada regional ao abrir uma frente de confrontos com Israel em apoio ao Irã. Os combates provocaram intensos bombardeios israelenses e uma ofensiva terrestre que atingiu diversas localidades do sul do país.
Os Estados Unidos reconhecem a sensibilidade do momento. O embaixador norte-americano em Beirute, Michel Issa, afirmou que a implementação do acordo deve ocorrer de forma responsável e advertiu que avanços acelerados podem colocar civis em risco. Segundo ele, as partes precisam estabelecer mecanismos claros antes de ampliar o processo.
Abertura inédita ao novo governo sírio
No mesmo discurso, Naïm Kassem fez uma declaração que pode indicar uma mudança importante na relação entre o Hezbollah e a Síria pós-Assad. Pela primeira vez desde a queda do ex-ditador sírio, o líder do movimento admitiu publicamente a possibilidade de um encontro com a nova liderança de Damasco.
"Nada impede uma reunião pública entre o Hezbollah e o comando sírio quando as duas partes julgarem oportuno", afirmou.
Durante anos, o Hezbollah combateu ao lado de Bashar al-Assad na guerra civil síria e manteve uma estreita aliança política e militar com o antigo governo. A mudança de poder em Damasco levou observadores a questionar como ficariam as relações entre o grupo libanês e as novas autoridades sírias.
Kassem defendeu a construção de relações "fraternas e positivas" entre os dois países, abrindo espaço para uma aproximação que até recentemente parecia improvável.
A declaração ocorre após apelos feitos pelo presidente norte-americano, Donald Trump, para que a Síria desempenhe um papel maior na contenção do Hezbollah e na estabilização da região. O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, respondeu descartando qualquer intenção de interferir diretamente nos assuntos internos do Líbano.
O posicionamento do Hezbollah sugere que, enquanto rejeita concessões nas negociações com Israel, o movimento procura ao mesmo tempo redefinir suas alianças regionais em um Oriente Médio marcado por rápidas transformações políticas e por tentativas de reorganização dos equilíbrios de poder após meses de conflito.
Com AFP