Sami Boukhelifa, enviado especial a Mashhad, com agências
Um avião de combate escoltou a aeronave que transportava os restos mortais de Khamenei até Mashhad, cidade que abriga o santuário. A cerimônia de sepultamento, inicialmente prevista para o amanhecer, acabou sendo adiada por algumas horas. O caixão de Khamenei apareceu com os pequenos caixões de seus netos sobre ele, também mortos no ataque dos EUA e Israel contra o Irã, que desencadeou a guerra no Oriente Médio em fevereiro.
Uma multidão esteve presente para dar o último adeus ao líder iraniano, que tinha 86 anos e passou quase 37 anos à frente da República Islâmica. A última etapa do funeral de Estado transcorreu em meio à retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã, os mais importantes desde a assinatura, em 17 de junho, de um protocolo de acordo que confirmou o cessar-fogo de abril.
O presidente americano, Donald Trump, declarou nesta semana a trégua "encerrada" e atacou os dirigentes iranianos, sem descartar novas negociações. "Todas as pessoas aqui querem se vingar", disse Mohammad Afsharian, um comerciante de 41 anos, presente ao funeral, que considerou os esforços diplomáticos "praticamente enterrados". "Mesmo que chegássemos a um acordo com os Estados Unidos, continuaríamos tendo problemas com Israel", acrescentou.
Irã acusa Trump de 'ofuscar' funeral
Na madrugada desta quinta, os Estados Unidos voltaram a atacar o Irã e atingiram cerca de 90 alvos militares iranianos, de acordo com o Exército americano. O regime iraniano acusou Washington de atacar a infraestrutura civil para "ofuscar" o funeral de Khamenei. Segundo Teerã, várias pontes e a ligação ferroviária entre Teerã e Mashhad ficaram danificadas.
Ataques também foram registrados perto de uma base militar em Bushehr, no sudoeste do Irã, que abriga a única usina nuclear em funcionamento no país. O Departamento de Defesa americano negou qualquer ataque dos Estados Unidos contra o Irã "nas últimas horas".
A tensão entre os dois países cresceu na terça-feira (7), quando Washington atribuiu a Teerã ataques contra ao menos três navios comerciais no estreito de Ormuz. Desde então, o tráfego diminuiu de maneira significativa, segundo dados da plataforma de rastreamento marítimo Kpler. O Irã desafia Washington com sua intenção de cobrar pedágio dos navios que transitam pela passagem, essencial para o comércio mundial de hidrocarbonetos.
Retaliação
Em retaliação aos bombardeios americanos, o Irã voltou a atacar Kuwait, Bahrein e também o Catar, um dos mediadores nas negociações para resolver o conflito. Na Jordânia, mísseis foram interceptados pela primeira vez desde 11 de junho.
Israel, inimigo declarado da República Islâmica desde sua constituição, em 1979, declarou-se disposto nesta quinta a atacar o Irã "uma terceira vez, se necessário", e "com mais força", nas palavras de seu ministro da Defesa, Israel Katz.
Segundo o The Wall Street Journal, o governo israelense compartilhou nesta quinta-feira com Washington informações de inteligência que apontam que o Irã busca assassinar Trump. O presidente americano não usou o novo Air Force One, um Boeing 747 presenteado pelo Catar, para retornar a Washington após a cúpula da Otan. Para o The New York Times, a decisão foi motivada por questões de segurança.