O papa Leão XIV presidiu nesta Sexta-feira Santa (3) a primeira Via Crucis de seu pontificado, em uma cerimônia marcada por um forte apelo contra líderes que promovem guerras pelo mundo e em prol da dignidade humana.
Cerca de 20 mil fiéis se reuniram ao redor do Coliseu, um dos principais monumentos de Roma, capital da Itália, carregando velas, para acompanhar uma das cerimônias mais emblemáticas da Semana Santa católica.
A festividade narra o sofrimento de Jesus, desde sua condenação à morte até seu sepultamento, enquanto meditações e orações são lidas.
Neste ano, Leão XIV, de 70 anos, que completará seu primeiro ano como pontífice em 8 de maio, carregou a cruz em todas as 14 estações ? um gesto que não se repetia integralmente desde meados de 1990, durante o pontificado de João Paulo II.
No papado do falecido Francisco, migrantes, refugiados, pessoas com deficiência e outras pessoas em situação de vulnerabilidade se revezavam para carregar a cruz.
Ao longo da procissão, as meditações, preparadas pelo padre Francesco Patton, ex-custódio da Terra Santa, criticaram o abuso de poder, enfatizando que nenhuma autoridade é absoluta e apelando à responsabilidade moral dos líderes mundiais.
"Há aqueles que acreditam ter recebido autoridade ilimitada e pensam que podem usá-la e abusar dela à vontade", afirmou o texto da primeira estação.
A reflexão ressaltou que todo poder ? seja político, militar ou econômico ? deve ser exercido com responsabilidade, incluindo decisões sobre conflitos, justiça, educação e relações entre povos.
"Toda autoridade terá que prestar contas a Deus pela forma como exerce o poder que recebeu: o poder de julgar, mas também o poder de iniciar ou terminar uma guerra, o poder de educar na violência ou na paz, o poder de alimentar o desejo de vingança ou de reconciliação, o poder de usar a economia para oprimir povos ou para libertá-los", acrescentou.
A Via Crucis deste ano também teve como foco a dor causada pelas guerras e pelas injustiças contemporâneas. Em uma das orações, foi feito um pedido simbólico: "Dai-nos lágrimas, Senhor, para chorar pelos desastres da guerra, pelos massacres e genocídios, para chorar com mães e esposas, pelo cinismo dos tiranos e pela nossa indiferença".
Outro ponto central das meditações foi a dignidade humana. Os textos denunciaram práticas de regimes autoritários e situações em que pessoas são desumanizadas ? como tortura, abusos, exploração e exposição indevida, que tratam as vítimas como objetos.
Segundo a mensagem, a indústria do entretenimento também pratica isso quando exibe nudez para atrair mais espectadores, quando expões pessoas em público. "Cada vez que deixamos de reconhecer a dignidade dos outros, a nossa própria dignidade fica obscurecida", afirmou uma das passagens.
A celebração também deu destaque ao sofrimento das mães que perderam filhos em guerras, migrações e perseguições. Uma oração inspirada na figura de Maria recordou "as muitas mães que ainda hoje veem seus filhos presos, torturados ou mortos", convidando à empatia e à solidariedade.
"Dai-nos um coração materno, para compreender e partilhar o sofrimento dos outros, e para aprender, também desta forma, o que significa amar", destacou.
Além disso, a oitava estação lembrou que, "durante séculos, [as mulheres] choraram por si próprias e pelos seus filhos: presos durante uma manifestação, deportados por políticas desprovidas de compaixão, naufragados em viagens desesperadas de esperança, dizimados em zonas de guerra, aniquilados em campos de extermínio."
Já a 11ª estação destacou o verdadeiro significado do poder, contrapondo a lógica da força e da violência com a do amor e do perdão. Segundo o texto, o poder autêntico não está em dominar ou destruir, mas em "dar a vida" e transformar o mal por meio do amor.
As meditações também lembraram vítimas frequentemente esquecidas, como mulheres exploradas pelo tráfico humano, pessoas discriminadas pelo preconceito, pobres privados de dignidade e crianças que tiveram a infância roubada.
A mensagem implorou por consolo para "órfãos, especialmente aqueles que ficaram sozinhos por causa da guerra", "migrantes, deslocados internos e refugiados", aqueles que sofrem tortura e punições injustas, aqueles que "perderam o sentido da vida" e aqueles que morrem sozinhos.
Além disso, o rito incorporou textos de São Francisco de Assis, no ano em que é celebrado o oitavo centenário de sua morte. Patton quis convidar todos os fiéis a "percorrer o caminho das pegadas de Jesus", não "meramente ritualístico ou intelectual", mas de uma forma que "envolve toda a nossa pessoa e toda a nossa vida".
"Levem seus corpos como oferta, tomem a sua santa cruz e sigam os seus santíssimos mandamentos até o fim. Porque a Via-Sacra não é o caminho de quem vive num mundo de devoção estéril e recolhimento abstrato, mas sim o exercício de quem sabe que a fé, a esperança e a caridade devem ser encarnadas no mundo real", explicou o franciscano.