Milei reforça ataques a Lula enquanto chanceler brasileiro pede o cessar imediato das agressões

O presidente argentino, Javier Milei, demonstrou que não está disposto a cessar os ataques ao presidente Lula, apesar do pedido do chanceler brasileiro, Mauro Vieira, que, em entrevista ao jornal Clarín, disse que a "Argentina deveria cessar imediatamente as agressões para normalizar a relação com o Brasil". Apesar das acusações de Milei, seu ministro das Relações Exteriores admitiu que não há provas de uma campanha anti-Argentina financiada pelo governo brasileiro.

10 ago 2026 - 08h37

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, concedeu entrevista ao jornal argentino Clarín, na qual incitou Javier Milei a cessar as agressões contra o presidente Lula e a instituições brasileiras.
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, concedeu entrevista ao jornal argentino Clarín, na qual incitou Javier Milei a cessar as agressões contra o presidente Lula e a instituições brasileiras.
Foto: © Nelson Almeida / AFP / RFI

Javier Milei voltou a usar as redes sociais para amplificar ataques ao presidente Lula. Primeiro, republicou declarações de um legislador norte-americano contra o presidente brasileiro, nas quais o republicano Carlos Antonio Gimenez conclui que "os brasileiros merecem muito mais do que este porco", depois de definir Lula como "delinquente".

Publicidade

"O ódio e o desprezo com o qual o delinquente Lula da Silva se expressa em relação ao nosso secretário de Estado, Marco Rubio, vem diretamente dos seus chefes na ditadura castro-comunista", escreveu, na rede X, o congressista dos Estados Unidos, reproduzido por Milei.

"Os brasileiros merecem muito mais do que este porco", qualificou o deputado norte-americano, de origem cubana, cujo ataque Milei fez questão de amplificar.

Em seguida, Milei compartilhou uma postagem de um veículo denominado "Meio Independente", que reproduz acusações de "corrupto" e "criminoso" feitas pelo mesmo legislador norte-americano ao presidente brasileiro.

"Congressista americano Carlos Gimenez denuncia Lula: 'Corrupto e criminoso que destruiu o Brasil'. O republicano afirma que o petista 'habilita todas as ditaduras comunistas do hemisfério' e que deve ser responsabilizado", diz a publicação reproduzida por Milei.

Publicidade

Desta vez, no entanto, Milei acompanhou a publicação com um comentário irônico, em sintonia com as acusações das últimas duas semanas: "Ups".

Brasil pede o fim das agressões

As novas provocações de Milei contra o presidente Lula acontecem no momento em que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, afirma que a "Argentina deve cessar imediatamente as agressões".

"Deve parar imediatamente com este tipo de agressões para trabalharmos o vínculo bilateral, tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial, importantíssima. E devemos saber se o atual governo argentino pensa do mesmo modo em relação ao Brasil. Essas ofensas foram graves. Portanto, deve-se preservar esta relação, suspender as agressões e retomar o caminho da normalidade no vínculo binacional", pediu o chanceler brasileiro em entrevista ao jornal argentino Clarín.

"É necessário um gesto: parar com as agressões. É um gesto simples diante da importância das relações bilaterais", acrescentou o ministro.

No entanto, diversas fontes diplomáticas, de um lado e do outro da fronteira, veem como "improvável" que Milei pare com os ataques até o final da campanha eleitoral brasileira. As agressões fariam parte de uma estratégia para desgastar o presidente brasileiro e esperar que Lula entre no bate-boca, favorecendo o candidato Flávio Bolsonaro, aliado de Milei.

Neste domingo (9), o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, voltou a Buenos Aires depois que o governo brasileiro reduziu a representação diplomática entre os dois países ao nível de encarregado de negócios.

Publicidade

A decisão foi comunicada pessoalmente por Vieira a Raimondi no dia 4 de agosto, depois de Milei ter repetido que o presidente Lula era "ladrão", "corrupto" e "presidiário" numa entrevista ao canal de TV LN+ em 2 de agosto. Porém, no mesmo dia em que o chanceler Mauro Vieira reduzia o nível da relação diplomática com a Argentina, Milei voltava a repetir os adjetivos contra Lula em outra entrevista ao canal "La Casa Streaming", no YouTube.

"A nossa situação bilateral, entre Brasil e Argentina, chegou ao ponto de ser administrada por encarregados de negócios, devido às agressões do presidente argentino não somente a pessoas, mas também ao Brasil, às instituições brasileiras, aos Poderes e ao presidente do Supremo Tribunal Federal, que teve papel fundamental para parar um golpe militar e para castigar os culpados", descreveu Mauro Vieira ao jornal Clarín.

"E o presidente Milei não o fez uma vez, mas em várias ocasiões em menos de uma semana, sendo a primeira de todas na convenção do Partido Liberal. (Foi) Um fato surpreendente para brasileiros e argentinos as imagens desse evento, essa atitude do presidente argentino com palavras graves... Uma coisa assustadora que se repetiu outras vezes", definiu o ministro brasileiro.

Acusações sem provas

Javier Milei insultou o presidente Lula, chamando-o de "ladrão" e de "presidiário" durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em 25 de julho, em São Paulo. Não há precedentes de um presidente atacar outro no território do país vizinho.

Publicidade

Os ataques incluíram o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, denominado por Milei como "lixo calvo" por não ter autorizado o presidente argentino a visitar Jair Bolsonaro na prisão domiciliar, onde cumpre sentença de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.

Outro agravante: Milei proferiu os insultos ao lado do ministro das Relações Exteriores da Argentina, o chanceler Pablo Quirno, que aplaudiu e incentivou cada palavra do presidente argentino.

No dia seguinte à convocação do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas, Milei voltou a acusar o governo brasileiro de impulsionar uma campanha "anti-Argentina", na qual os argentinos seriam acusados de racismo.

"Quem investiu mais dinheiro nesta campanha anti-Argentina foi o Brasil. Uns 25% dos recursos (financeiros) saíram do Governo do Brasil", acusou Milei, sem apresentar nem citar provas.

Publicidade

Milei usa um estudo da empresa Monitor Digital, entre dezembro de 2022 e julho de 2026, sobre os países estrangeiros que mais publicam sobre a Argentina nas redes sociais. Em momento nenhum, o estudo menciona mensagens de ódio, nem sugere que haja governos por trás das publicações, tampouco que elas estejam relacionadas apenas ao recente campeonato mundial de futebol. Apenas identifica os países de origem das conversas.

A lista é liderada pelo Brasil, com 22%, seguido pelo México (15%), pelos Estados Unidos (13%) e pela Espanha (11%).

Em entrevista ao jornal Infobae, na semana passada, o chanceler argentino, Pablo Quirno, admitiu que não há provas do envolvimento do governo brasileiro numa suposta campanha.

"O número certo é de 22% de mensagens vindas do Brasil na campanha anti-Argentina", corrigiu o ministro argentino, afirmando, erroneamente, que o período analisado foi apenas o recente campeonato mundial de futebol.

"Foi durante a Copa do Mundo, sim. Foi um estudo publicado nas redes sociais. É evidente que há dinheiro por trás", concluiu Pablo Quirno, sem apresentar provas.

Publicidade

Perguntado sobre quem, no Brasil, teria impulsionado as mensagens contra a Argentina, o chanceler admitiu: "Não tenho provas para incriminar ninguém. Seguramente, vieram do Brasil".

Disputa eleitoral

O ministro argentino também deu a entender que o presidente Milei não vai parar com a sua estratégia de atacar Lula como parte do que chama de "fragor eleitoral".

"Estamos jogando um jogo muito importante para a região. Antes de o presidente Milei chegar ao poder, a região estava nas mãos de (Rafael) Correa (ex-presidente do Equador, fora do poder desde 2017), de Evo Morales (ex-presidente da Bolívia, fora do poder desde 2019), de (Gabriel) Boric (ex-presidente do Chile, 2022-2026) e de Lula", argumentou.

O chanceler Pablo Quirno também acusou o Itamaraty de "jogar a pedra e esconder a mão" ao retirar o embaixador argentino de Brasília sem usar a palavra "expulsar" e de omitir que havia solicitado sua saída do país. "O Itamaraty omitiu dizer que pediu o retiro do nosso embaixador", cutucou o argentino.

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações