A ONU e entidades internacionais condenaram o fechamento do tradicional jornal russo Novaya Gazeta, forçado a encerrar suas atividades após três décadas devido à crescente repressão estatal e à sua oposição à guerra na Ucrânia. Alvo de ordem de despejo e com contas bloqueadas pelo Kremlin, o periódico, cujo ex-editor venceu o Nobel da Paz, tornou-se símbolo da resistência jornalística, enfrentando histórico de censura e o assassinato de seis colaboradores por expor a corrupção do governo.
A decisão representa "um novo golpe contra os meios de comunicação independentes que ainda subsistem na Federação Russa", afirmou Türk em comunicado. Ele também pediu às autoridades russas para deixarem de adotar medidas que dificultem a cobertura jornalística sobre temas de interesse público.
O veículo se posicionou contra a invasão em larga escala da Ucrânia ordenada pelo presidente Vladimir Putin em fevereiro de 2022. Desde então, tentava sobreviver em um ambiente cada vez mais hostil, marcado pelo endurecimento da repressão política.
"O Novaya Gazeta deixa de existir. As autoridades e os serviços de segurança russos obrigaram a redação a encerrar suas atividades", declarou Serguei Sokolov em vídeo publicado no YouTube.
O ex-editor-chefe Dmitri Muratov, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2021, conjuntamente com a jornalista filipina Maria Ressa, por seus esforços em defesa da liberdade de expressão, afirmou à AFP que o fechamento do jornal faz parte da "gigantesca campanha militar" conduzida pelo Kremlin.
"Somos opositores ferrenhos da guerra, em todas as suas formas. E somos um elemento que o poder considera necessário destruir", disse.
💔 | Novaya Gazeta, the Moscow-based newspaper founded in 1993, has announced it is closing after more than three decades of work. https://t.co/FPoU6DOpNq
— Novaya Gazeta Europe (@novayagazeta_en) October 30, 2026
Em março de 2022, o Novaya Gazeta suspendeu sua edição impressa, mas continuava publicando conteúdo online. Em setembro, foi incluído por Moscou na lista de "agentes estrangeiros", classificação que impõe uma série de restrições administrativas e é amplamente utilizada para sufocar vozes dissidentes.
Desta vez, porém, a redação reconheceu que as autoridades atingiram seu objetivo. "Eles nos mataram", afirmou o jornal em comunicado, ao informar que recebeu uma ordem de despejo que o obriga a deixar sua sede em Moscou até 9 de novembro. Ao mesmo tempo, o sistema de recebimento de doações foi bloqueado, deixando o veículo "totalmente" sem financiamento.
"Trinta anos de uma vida compartilhada com o país e seus cidadãos estão chegando ao fim, deixando-nos na rua, sem meios de subsistência e sob a ameaça constante de repressão", lamentou o jornal.
Defesa dos direitos humanos
Sokolov acusou o Kremlin de ter "aniquilado" os direitos humanos na Rússia e afirmou que sua defesa passou a ser "equiparada a um crime".
"As eleições e os órgãos eleitos foram suprimidos. As instituições da sociedade civil foram desmanteladas", afirmou.
Segundo ele, o "assassinato" do Novaya Gazeta é "mais uma prova" de que o Estado russo comete uma "traição" ao renegar a própria Constituição, que proíbe, entre outras práticas, a censura.
"Obrigado a todos que nos ouviram", acrescentou Sokolov, com semblante sombrio, ao anunciar que uma "última edição" será publicada antes do encerramento definitivo do jornal.
"O Novaya Gazeta permanecerá, acima de tudo e para sempre, como símbolo de um jornalismo livre, pluralista, independente e rigoroso. Um exemplo para toda a profissão em todo o mundo", declarou Thibaut Bruttin, diretor-geral da ONG Repórteres Sem Fronteiras.
O Comitê Nobel Norueguês disse estar "profundamente preocupado" e pediu a Moscou que "ponha fim à repressão".
Jornal investigativo e repórteres assassinados
Fundado em 1993 com o apoio do último líder soviético, Mikhail Gorbachev, o Novaya Gazeta publicou reportagens sobre alguns dos temas mais sensíveis da Rússia, incluindo crimes cometidos pelo Exército russo, corrupção entre integrantes da elite política, as atividades do Grupo Wagner e a perseguição a homossexuais na Chechênia.
O jornal pagou um alto preço por esse trabalho. Seis jornalistas ou colaboradores ligados ao veículo foram assassinados, entre eles Anna Politkovskaya, que documentou crimes de guerra na Chechênia e foi morta a tiros em Moscou em 2006.
"Nossos anos de vida foram felizes, ricos em criação, esperanças, leitores, amigos, textos e filmes. Mas também houve momentos de profunda amargura e desespero", resumiu Sokolov na mensagem em vídeo divulgada nesta sexta-feira.
Em meados de outubro, autoridades russas realizaram uma busca na residência do editor e o interrogaram no âmbito de uma investigação envolvendo seu colega Oleg Roldugin, que está em prisão domiciliar à espera de julgamento.
Os investigadores acusam o jornalista investigativo, conhecido por suas reportagens sobre corrupção nas mais altas esferas do poder russo, de ter "coletado e divulgado ilegalmente informações digitais contendo dados pessoais". Se condenado, ele poderá pegar até seis anos de prisão.
Após a adoção, na primavera de 2022, de leis que preveem duras penas para críticas ao Exército russo, parte da equipe do Novaya Gazeta deixou o país e lançou, do exterior, o portal Novaya Gazeta Europe. O veículo acabou classificado por Moscou como "organização indesejada" e teve suas atividades proibidas na Rússia.
Com agências