ONGs aproveitam Copa do Mundo para potencializar campanhas de combate à violência contra a mulher

Enquanto a Copa do Mundo está a todo vapor, alguns países e ONGs lançaram campanhas para prevenir a violência doméstica, que aumenta durante noites de jogos e grandes eventos esportivos, de acordo com estudos. No Brasil e nos países que sediam o torneio, governos e entidades trabalham juntos para tirar de campo este tipo de crime.

1 jul 2026 - 11h51

Por Aurore Lartigue, da RFI

Nos três países-sede da Copa do Mundo de 2026, organizações que combatem a violência contra a mulher também optaram por coordenar seus esforços. A Women's Shelters Canada, a Rede Nacional de Refúgios, no México, e a National Network to End Domestic Violence, nos Estados Unidos, lançaram uma campanha internacional trilíngue para conscientizar e oferecer apoio às vítimas, bem como a seus familiares e testemunhas.

Publicidade

"Embora o resultado de cada jogo seja imprevisível, o aumento da violência doméstica não é", explica o comunicado à imprensa, que detalha as linhas de emergência e os serviços locais disponíveis em cada um dos três países.

"A violência contra as mulheres não conhece fronteiras, e a prevenção também não deveria", resume Wendy Figueroa Morales, Diretora Executiva da Rede Nacional de Refúgios.

No México, a ONU Mulheres, o Unicef, a UNFPA (agência das Nações Unidas para a saúde sexual) e o governo lançaram a campanha "Equipe Contra a Violência Doméstica", destinada a ajudar vizinhos, parentes e comunidades a reconhecerem sinais de alerta e a intervirem antes que as agressões se agravem.

Brasil também entra na luta

No Brasil, levantamentos do Fórum de Segurança Pública apontam que ocorrências envolvendo este tipo de crime aumentam ao menos 24% em noites de futebol. Por isso, no período da Copa do Mundo, o governo federal criou a campanha "Violência contra a mulher não faz parte do jogo", que aborda a relação entre o consumo abusivo de álcool e agressões contra a mulher, principalmente em dias de partidas.

As mensagens vêm sendo compartilhadas nas redes sociais do Ministério da Justiça e Segurança Pública antes dos jogos da seleção brasileira na Copa, assim como em bares e restaurantes.

Publicidade

Em caso de violência, as vítimas podem ligar para a Central de Atendimento à Mulher no número 180, que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, de forma gratuita.

"Início de uma situação assustadora"

Nesta quarta-feira (1º), a Inglaterra enfrenta a República Democrática do Congo pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Para milhões de torcedores ingleses, a partida gira apenas em torno do resultado.

Mas diversas organizações estão preocupadas com efeitos colaterais no meio familiar. Aproveitando o Mundial, a ONG Women's Aid, uma das principais organizações do Reino Unido no combate à violência doméstica, lançou a campanha "11:37 pm. The Other Kick Off" ("23h37: O Outro Pontapé Inicial", na tradução livre para o português).

De acordo com a entidade, o horário no título faz referência ao momento temido por muitas mulheres e crianças: quando um parceiro abusivo retorna para casa após assistirem às partidas nos bares e fan zones à noite.

Publicidade

A campanha foi veiculada em outdoors digitais de Londres, caminhões e cartazes colocados perto de pontos de encontro de torcedores, com QR codes que direcionam para os serviços de apoio da organização às vítimas, bem como às suas famílias e testemunhas.

"Para mulheres e crianças que sofrem violência doméstica, o começo da partida tem um significado diferente. O apito final marca o início de uma situação assustadora e potencialmente fatal", enfatiza Farah Nazeer, Diretora Executiva da Women's Aid, em um comunicado.

Mas a associação ressalta: "Mesmo sabendo que o futebol não é a causa principal da violência doméstica, também sabemos que emoções exacerbadas e o consumo de álcool podem levar a um aumento na frequência e na gravidade dessa agressão".

"Crime grave"

Na Inglaterra, onde a cultura do futebol está profundamente enraizada, diversos estudos documentaram essa correlação entre o esporte e aumento da violência doméstica. Um levantamento de 2013, publicado pela Universidade de Lancaster, que examinou relatos coletados no noroeste do país durante as Copas do Mundo de 2002, 2006 e 2010, mostrou um aumento nas agressões em noites de jogos da seleção inglesa: 38% em caso de derrota e 26% em caso de vitória ou empate.

Em 2018, durante a Copa do Mundo, o Centro Nacional de Violência Doméstica organizou uma campanha impactante: "Se a Inglaterra perder, ela também perderá". Este ano, o slogan mudou, mas a mensagem permanece a mesma.

Publicidade

"Em todo o mundo, o número de denúncias de violência doméstica à polícia aumenta com uma previsibilidade preocupante durante grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo", relatam a Unesco e a ONU Mulheres, ilustrando a natureza sistêmica do fenômeno.

Esses dados ajudam a explicar por que, no Reino Unido, as autoridades também se mobilizaram em torno do tema. O Crown Prosecution Service (CPS), responsável pelos processos criminais na Inglaterra e no País de Gales, está incentivando as vítimas a denunciarem os casos e lembrando que a violência doméstica é "um crime grave".

De acordo com o Conselho Nacional de Chefes de Polícia, mais de 300 casos foram denunciados durante a Eurocopa de 2024 por vítimas que acreditavam que o comportamento do agressor estava relacionado ao futebol. Nesse contexto, além do próprio esporte, o consumo de álcool é apontado como um fator agravante.

Questão é menos documentada na França

Na França, a relação entre grandes eventos esportivos e violência doméstica permanece muito menos documentada. Não existe um estudo nacional específico sobre a associação entre partidas de futebol ou grandes competições esportivas e esse tipo de violência. A linha direta 3919, serviço de escuta e orientação para mulheres vítimas de violência, afirmou à AFP que é difícil estabelecer uma correlação com base nas ligações recebidas.

Publicidade

As mulheres que entram em contato com o serviço "não especificam se foram agredidas porque houve uma partida no dia anterior", ressaltou Mine Günbay, diretora-geral da Federação Nacional de Solidariedade das Mulheres (FNSF), responsável pela gestão da linha 3919. Ao contrário do Reino Unido e de países que já sediaram a Copa do Mundo, a França não realiza atualmente nenhuma campanha nacional específica relacionada ao torneio.

Procuradas pela RFI, a Federação Nacional de Solidariedade das Mulheres e o Ministério da Igualdade entre Mulheres e Homens não haviam respondido aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem.

Na Argentina, a Copa do Mundo também vem sendo utilizada para ampliar a conscientização sobre outras formas de violência, como a violência econômica e o controle coercitivo.

O governo argentino forneceu às autoridades norte-americanas uma lista com mais de 13 mil pessoas registradas como inadimplentes no pagamento de pensão alimentícia, com o objetivo de impedir que assistam aos jogos da seleção nacional nos Estados Unidos, segundo o jornal La Nación.

Publicidade

"Quem não cumprir uma obrigação tão fundamental quanto alimentar os próprios filhos terá que arcar com as consequências", afirmou o chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Jorge Macri.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações