Olivier Favier, da RFI
Lafayette participou de momentos decisivos tanto da Revolução Americana quanto da Revolução Francesa. Convicto defensor das liberdades políticas, atravessou diferentes regimes sem abandonar suas ideias.
O rei Carlos X, último rei da dinastia Bourbon a governar a França, resumiu essa coerência com uma frase que se tornou célebre: "Há apenas dois homens que não mudaram de opinião desde 1789: Lafayette e eu". Embora estivessem em campos opostos, o monarca reconhecia a fidelidade do general a seus princípios. Monarquista constitucional e parlamentarista, ele defendia uma forma de governo que aproximava a França dos ideais democráticos modernos.
Em seu país, sua trajetória foi marcada por sucessos e reveses. Durante a Revolução Francesa, assumiu o comando da Guarda Nacional e tornou-se uma das personalidades mais conhecidas do período. O prestígio, porém, durou pouco. Em 1792, diante da radicalização política e de sua oposição aos jacobinos, deixou a França. Preso no exterior por ser considerado próximo demais da Revolução Francesa, passou cinco anos encarcerado.
De volta à França em 1799, encontrou em Napoleão Bonaparte um adversário declarado. A antipatia era recíproca. Durante a Restauração, retomou a carreira política como deputado e passou a integrar a ala mais progressista de uma Câmara dominada por conservadores. Seu último momento de destaque ocorreu na Revolução de Julho de 1830, quando voltou ao comando da Guarda Nacional e contribuiu para a ascensão de Luís Filipe I ao trono. Pouco depois, decepcionou-se com o novo regime. Também apoiou a luta dos poloneses por independência antes de morrer, em 1834.
"Herói de dois mundos"
Se sua carreira política na França foi marcada por avanços e frustrações, nos Estados Unidos, Lafayette construiu uma imagem quase mítica. Filho de um militar morto na Guerra dos Sete Anos, decidiu ainda muito jovem apoiar a causa dos colonos americanos contra o Império Britânico. Em 1777, aos 19 anos, foi ferido na batalha de Brandywine, um dos episódios mais importantes da Guerra da Independência Americana.
Sua coragem chamou a atenção de George Washington, que passou a tratá-lo como um filho adotivo. A relação entre os dois ajudou a consolidar uma amizade duradoura entre os povos francês e americano. Ao retornar à França, Lafayette utilizou sua influência para convencer o governo francês a ampliar o apoio à independência das colônias. Em 1780, embarcou novamente para a América a bordo da fragata Hermione, levando a notícia da chegada das tropas comandadas pelo general Rochambeau.
A vitória sobre os britânicos transformou Lafayette em uma celebridade internacional. Tornou-se marechal de campo na França e recebeu cidadania honorária de várias cidades americanas. Sua popularidade atravessou gerações e lhe rendeu o apelido de "herói de dois mundos", em referência ao papel desempenhado nos dois lados do Atlântico.
Abolicionista
Mas sua atuação não se limitou à política e aos conflitos militares. Lafayette também foi um dos primeiros defensores da abolição da escravidão entre as elites francesas. Amigo do filósofo Condorcet, pressionou George Washington a apoiar o fim da escravidão nos Estados Unidos, embora sem sucesso. Manteve contato com Benjamin Franklin, que o informava sobre os avanços do movimento abolicionista na Pensilvânia.
Na Guiana Francesa, onde administrava duas plantações desde 1785, tentou colocar em prática um projeto de emancipação gradual dos escravizados. O castigo corporal era proibido, e os trabalhadores recebiam salários e instrução. A Revolução Francesa e os anos de exílio impediram que a experiência fosse levada adiante, mas ela evidencia o compromisso de Lafayette com a causa abolicionista em uma época em que a escravidão continuava sendo um dos pilares da economia colonial.
Após a abolição do tráfico de escravos, em 1815, ele continuou mobilizado contra o comércio de seres humanos e acompanhou de perto as discussões sobre o futuro do Haiti e da Libéria. Durante sua consagradora viagem pelos Estados Unidos entre 1824 e 1825, tornou-se membro honorário da Sociedade para a Emancipação dos Negros.
A visita, realizada quase cinquenta anos após a independência americana, transformou-se em uma verdadeira turnê nacional. Durante treze meses, Lafayette percorreu o país de norte a sul, passando por cidades como Portland, Nova Orleans, Savannah e Saint Louis. Por onde passava, era recebido por multidões. Demonstrava apoio às comunidades negras e indígenas e encontrava personalidades de todas as gerações. Entre as crianças que conheceu estava o futuro poeta Walt Whitman, então com apenas seis anos de idade.
Seu legado voltou a ganhar força em 1917, quando tropas americanas desembarcaram na França durante a Primeira Guerra Mundial. Em uma cerimônia realizada diante de seu túmulo, foi pronunciada a famosa frase "Lafayette, estamos aqui", símbolo da renovação da aliança entre os dois países. Embora a autoria exata da expressão continue sendo objeto de debate entre historiadores, ela consolidou definitivamente o lugar de Lafayette na memória coletiva francesa e americana.
Mais de dois séculos após sua morte, o marquês permanece associado não apenas às lutas pela independência e pelas liberdades políticas, mas também a um ideal de cooperação entre os dois lados do Atlântico. Uma figura que atravessou revoluções, monarquias e repúblicas sem jamais abandonar suas convicções.