250 anos dos Estados Unidos: as duas vidas de Lafayette, herói na França e na América

As placas de algumas ruas de Paris o apresentam como "herói da Guerra da Independência Americana de 1777 a 1782". Mais de dois séculos após sua morte, o nome de Marie-Joseph Paul Yves Roch Gilbert du Motier, o marquês de Lafayette, continua associado sobretudo ao nascimento da amizade entre a França e os Estados Unidos, uma relação que atravessou guerras, alianças e períodos de tensão.

1 jul 2026 - 12h12

Olivier Favier, da RFI

Lafayette participou de momentos decisivos tanto da Revolução Americana quanto da Revolução Francesa. Convicto defensor das liberdades políticas, atravessou diferentes regimes sem abandonar suas ideias.

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O rei Carlos X, último rei da dinastia Bourbon a governar a França, resumiu essa coerência com uma frase que se tornou célebre: "Há apenas dois homens que não mudaram de opinião desde 1789: Lafayette e eu". Embora estivessem em campos opostos, o monarca reconhecia a fidelidade do general a seus princípios. Monarquista constitucional e parlamentarista, ele defendia uma forma de governo que aproximava a França dos ideais democráticos modernos.

Em seu país, sua trajetória foi marcada por sucessos e reveses. Durante a Revolução Francesa, assumiu o comando da Guarda Nacional e tornou-se uma das personalidades mais conhecidas do período. O prestígio, porém, durou pouco. Em 1792, diante da radicalização política e de sua oposição aos jacobinos, deixou a França. Preso no exterior por ser considerado próximo demais da Revolução Francesa, passou cinco anos encarcerado.

De volta à França em 1799, encontrou em Napoleão Bonaparte um adversário declarado. A antipatia era recíproca. Durante a Restauração, retomou a carreira política como deputado e passou a integrar a ala mais progressista de uma Câmara dominada por conservadores. Seu último momento de destaque ocorreu na Revolução de Julho de 1830, quando voltou ao comando da Guarda Nacional e contribuiu para a ascensão de Luís Filipe I ao trono. Pouco depois, decepcionou-se com o novo regime. Também apoiou a luta dos poloneses por independência antes de morrer, em 1834.

"Herói de dois mundos"

Se sua carreira política na França foi marcada por avanços e frustrações, nos Estados Unidos, Lafayette construiu uma imagem quase mítica. Filho de um militar morto na Guerra dos Sete Anos, decidiu ainda muito jovem apoiar a causa dos colonos americanos contra o Império Britânico. Em 1777, aos 19 anos, foi ferido na batalha de Brandywine, um dos episódios mais importantes da Guerra da Independência Americana. 

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Sua coragem chamou a atenção de George Washington, que passou a tratá-lo como um filho adotivo. A relação entre os dois ajudou a consolidar uma amizade duradoura entre os povos francês e americano. Ao retornar à França, Lafayette utilizou sua influência para convencer o governo francês a ampliar o apoio à independência das colônias. Em 1780, embarcou novamente para a América a bordo da fragata Hermione, levando a notícia da chegada das tropas comandadas pelo general Rochambeau.

A vitória sobre os britânicos transformou Lafayette em uma celebridade internacional. Tornou-se marechal de campo na França e recebeu cidadania honorária de várias cidades americanas. Sua popularidade atravessou gerações e lhe rendeu o apelido de "herói de dois mundos", em referência ao papel desempenhado nos dois lados do Atlântico.

Uma reprodução do depoimento de Lafayette de 1784, no qual ele elogia os serviços prestados por James durante a Revolução. Libertado em 1787, James carregaria o nome Lafayette pelo resto da vida. A gravura é obra do pintor John Biennerhasset Martin, baseada em uma de suas pinturas de 1824. Ela está em exibição no Arquivo Nacional de Paris durante a exposição dedicada a Lafayette.
Uma reprodução do depoimento de Lafayette de 1784, no qual ele elogia os serviços prestados por James durante a Revolução. Libertado em 1787, James carregaria o nome Lafayette pelo resto da vida. A gravura é obra do pintor John Biennerhasset Martin, baseada em uma de suas pinturas de 1824. Ela está em exibição no Arquivo Nacional de Paris durante a exposição dedicada a Lafayette.
Foto: RFI

Abolicionista

Mas sua atuação não se limitou à política e aos conflitos militares. Lafayette também foi um dos primeiros defensores da abolição da escravidão entre as elites francesas. Amigo do filósofo Condorcet, pressionou George Washington a apoiar o fim da escravidão nos Estados Unidos, embora sem sucesso. Manteve contato com Benjamin Franklin, que o informava sobre os avanços do movimento abolicionista na Pensilvânia.

Na Guiana Francesa, onde administrava duas plantações desde 1785, tentou colocar em prática um projeto de emancipação gradual dos escravizados. O castigo corporal era proibido, e os trabalhadores recebiam salários e instrução. A Revolução Francesa e os anos de exílio impediram que a experiência fosse levada adiante, mas ela evidencia o compromisso de Lafayette com a causa abolicionista em uma época em que a escravidão continuava sendo um dos pilares da economia colonial.

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Após a abolição do tráfico de escravos, em 1815, ele continuou mobilizado contra o comércio de seres humanos e acompanhou de perto as discussões sobre o futuro do Haiti e da Libéria. Durante sua consagradora viagem pelos Estados Unidos entre 1824 e 1825, tornou-se membro honorário da Sociedade para a Emancipação dos Negros.

Os pilotos da Esquadrilha Lafayette (SPA 124) em 10 de julho de 1917 em Chaudun, França.
Foto: RFI

A visita, realizada quase cinquenta anos após a independência americana, transformou-se em uma verdadeira turnê nacional. Durante treze meses, Lafayette percorreu o país de norte a sul, passando por cidades como Portland, Nova Orleans, Savannah e Saint Louis. Por onde passava, era recebido por multidões. Demonstrava apoio às comunidades negras e indígenas e encontrava personalidades de todas as gerações. Entre as crianças que conheceu estava o futuro poeta Walt Whitman, então com apenas seis anos de idade.

Seu legado voltou a ganhar força em 1917, quando tropas americanas desembarcaram na França durante a Primeira Guerra Mundial. Em uma cerimônia realizada diante de seu túmulo, foi pronunciada a famosa frase "Lafayette, estamos aqui", símbolo da renovação da aliança entre os dois países. Embora a autoria exata da expressão continue sendo objeto de debate entre historiadores, ela consolidou definitivamente o lugar de Lafayette na memória coletiva francesa e americana.

Mais de dois séculos após sua morte, o marquês permanece associado não apenas às lutas pela independência e pelas liberdades políticas, mas também a um ideal de cooperação entre os dois lados do Atlântico. Uma figura que atravessou revoluções, monarquias e repúblicas sem jamais abandonar suas convicções.

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