O templo budista milenar na Coreia do Sul onde monges ajudam jovens a encontrar parceiros (e os incentivam a ter filhos)

Encontrar um parceiro pode ser difícil na Coreia do Sul. Por isso, um grupo de monges promove um retiro de 30 horas para ajudar os jovens solteiros.

26 jul 2026 - 09h09
Os participantes do retiro enfrentavam dificuldades para ter encontros. Por isso, eles recorreram aos monges
Os participantes do retiro enfrentavam dificuldades para ter encontros. Por isso, eles recorreram aos monges
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Um monge budista vestido com uma túnica de cor laranja escuro se coloca em frente a uma fila de jovens e diz que eles estão ali com uma missão: salvar o seu país.

Como eles devem fazer isso? Ora, encontrando parceiros e, algum dia, tendo filhos.

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Os participantes soltam risos nervosos, lançando olhares furtivos em direção às pessoas que poderão passar a ser seus futuros maridos ou esposas.

Parece o início de um novo reality show de encontros de casais. Mas é um retiro para solteiros, realizado em um templo budista do século 8°, encravado entre a exuberante vegetação do monte Palgongsan, na Coreia do Sul.

O encontro dura 30 horas e inclui uma intensa agenda de atividades ininterruptas e uma infinidade de momentos incômodos, tudo para que as pessoas possam quebrar o gelo e encontrar o amor.

"Os budistas sempre foram os primeiros a agir quando o nosso país enfrentava momentos difíceis", afirma o apresentador do retiro, Yoo Cheol-ju.

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Ele se refere à época em que o templo Donghwasa serviu de acampamento dos monges guerreiros que defenderam a Coreia das invasões japonesas no século 16. Mas, desta vez, a ameaça não vem do exterior.

"A baixa natalidade é uma crise nacional", segundo Yoo. "Precisávamos fazer algo a respeito."

Templo coreano tradicional iluminado por luzes acolhedoras à noite, com um telhado curvo, colunas de madeira, escadas de pedra rodeando um amplo pátio e visitantes caminhando pelo corredor que rodeia o templo
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Da mesma forma que no restante do mundo, o índice de nascimentos desabou na Coreia do Sul conforme o país enriqueceu.

Em 2023, o número médio de filhos de cada mulher sul-coreana ao longo da vida (a taxa de fecundidade total) caiu para um mínimo histórico de 0,72, muito abaixo do índice de reposição populacional de 2,1.

Alguns culpam o aumento vertiginoso dos preços da moradia e a falta de apoio financeiro para a criação de filhos. Outros afirmam que as mulheres estão priorizando suas carreiras profissionais ou simplesmente exercendo seu direito de opção.

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Mas os estudos demonstram que os jovens sul-coreanos também saem menos e têm menos encontros do que antes. Alguns decidem ficar solteiros, mas muitos têm dificuldades para encontrar parceiros, o que reduz o número de casamentos.

O governo sul-coreano começou a oferecer licenças-paternidade mais longas, bônus em dinheiro pelo nascimento de filhos e apartamentos com subsídios para os recém-casados.

Prefeituras e associações civis foram mais além, organizando eventos para promover encontros com o apoio do Estado, como este que acontece no templo de Donghwasa.

Eles são muito mais divertidos do que você pode imaginar.

O templo é rodeado por uma densa vegetação
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Conhecida pelo seu nome budista Sunhyeji, Kim Ah-kyung é uma das primeiras a chegar.

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A alegre jovem de 28 anos se senta na varanda de um bangalô no complexo do templo. Ela cumprimenta as outras mulheres, que começam, pouco a pouco, a chegar à sala.

Todas elas enfrentaram um processo de seleção incrivelmente competitivo, incluindo questionários e vídeos de selfies, para avaliar seu grau de seriedade em relação ao casamento e a ter filhos.

Elas foram selecionadas entre mais de 1.580 candidatas para participar do retiro, aberto a todas as pessoas, independentemente da sua religião.

Sunhyeji enfrentou muitas dificuldades para encontrar um parceiro adequado, depois que se mudou da região de Seul para trabalhar em um escritório nas províncias do sudeste do país.

"Realmente, não há oportunidades de conhecer homens", ela conta.

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"Só vou do trabalho para casa e vice-versa. Não tenho nenhum hobby. Tentei procurar um, mas todas as atividades eram individuais."

Sunhyeji destaca que, no seu escritório, as pessoas são muito mais velhas do que ela.

Os monges consideram o retiro para encontrar parceiros como um serviço para o país
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Namorar pode ser difícil na Coreia do Sul.

As pessoas costumam conhecer seus parceiros na escola, no trabalho ou no sogaeting, os encontros às cegas organizados por amigos ou familiares. Mas, fora destes ambientes, é pouco comum iniciar conversas com desconhecidos nas grandes cidades.

Além disso, o consumo de álcool diminuiu e os aplicativos de namoro nunca chegaram a decolar totalmente no país.

Em 2015, após anos de estagnação, a publicidade do Tinder passou a promovê-lo como aplicativo para fazer amigos, para atrair melhor o público jovem.

Kwon Seung-oh, de 30 anos, costuma ser chamado de Enyo. Ele sempre se sentiu incomodado com a ideia de encontrar uma mulher desconhecida na internet.

Seus amigos organizaram cerca de 10 encontros às cegas. Mas, para ele, todos pareceram ser interações superficiais, que nunca chegaram a lugar nenhum.

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Como se não bastasse, 97% dos seus colegas de trabalho, em uma grande fábrica de laticínios perto da cidade de Daegu, são homens. Por isso, ele também decidiu comparecer ao evento no templo de Donghwasa.

Os participantes foram selecionados dentre um total de 1,6 mil candidatos e esperam com nervosismo as atividades do dia
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

O cavalheirismo se faz presente antes mesmo do início do dia.

À medida que as mulheres chegam ao complexo, seus possíveis pretendentes se apressam para sair ao seu encontro, oferecendo ajuda para levar sua bagagem para os quartos.

Enyo está decidido a encontrar uma parceira.

Durante a primeira atividade do dia (as apresentações), ele distribui doces franceses que ele próprio havia preparado, gerando exclamações de admiração por parte do público.

Chega, então, o momento do primeiro encontro.

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Sunhyeji conversa com Minho, funcionário público de 32 anos com modos gentis. Eles passeiam pelo caminho arborizado que rodeia o templo e conseguem manter conversas privadas.

Mais tarde, os homens devem entregar uma rosa de plástico para a mulher que desejarem conhecer melhor, durante um encontro durante o almoço. Minho escolhe Ruby, uma amável designer de 28 anos, que combina com a sua personalidade.

Durante a refeição, sorrisos gentis e pequenos risos não faltam. Os casais descobrem seus hobbies, empregos e os programas favoritos de cada um.

A conversa flui e todos parecem estar se abrindo. Quando terminam, eles já podem ser vistos mais próximos e se reúnem junto às pias para lavar os pratos juntos.

Mas tudo isso muda radicalmente, quando chega o momento mais incômodo e desajeitado do dia: o concurso de talentos.

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Um incômodo concurso de talentos no meio do dia reuniu instrumentos musicais, cantos e danças
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Minho é o primeiro a se apresentar. Ele se movimenta com cuidado ao recordar os passos da música viral do grupo sul-coreano 2PM, My House, com seu famoso refrão: "Quero levar você para minha casa."

Sunhyeji se movimenta com naturalidade ao ritmo do novo sucesso do pop Catch Catch, enquanto Enyo entoa uma balada a plenos pulmões.

Ruby demonstra seus conhecimentos de espanhol com uma apresentação titubeante, que cativa Minho. E uma das mulheres pega uma flauta para tocar uma música da animação Guerreiras do K-Pop.

As atividades não param e começam a esgotar os participantes. Restam apenas dois minutos para respirar, antes do começo de uma rodada de encontros rápidos com chá verde (que, na verdade, ninguém bebe).

Depois, é a vez das mulheres escolherem o homem com quem terão um encontro para jantar.

Sunhyeji dá sua rosa para Minho, para grande irritação de Ruby. Nenhuma das mulheres escolheu Enyo, que acaba jantando com os demais que não conseguiram parceira.

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Por fim, para encerrar o dia, um monge ancião pronuncia um discurso entusiasmado, recordando aos participantes seu dever de procriar. Em seguida, vem o hino nacional.

Mais preocupados com seu destino amoroso do que com o dever patriótico, os jovens solteiros murmuram a letra com pouca disposição.

A intensa interação social chega a esgotar os jovens solteiros
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

As autoridades sul-coreanas vêm organizando eventos para facilitar o encontro entre solteiros desde o início da década de 2000. Há desde encontros de marcenaria até noites com DJs às margens dos rios.

Estes esforços foram realizados paralelamente aos programas governamentais de incentivo à natalidade, que custaram cerca de US$ 250 bilhões (cerca de R$ 1,3 trilhão) desde 2006. Mas, mesmo assim, os índices continuaram caindo por anos a fio.

Os números começaram a se recuperar ligeiramente em 2024. E, neste ano, espera-se que as mulheres tenham em média 1,0 filho cada uma, contra 0,8 em 2025.

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Não se sabe ao certo se esta retomada é consequência direta das iniciativas do governo.

As autoridades tentaram atribuí-la à postergação de casamentos e nascimentos causada pela pandemia. E uma numerosa geração de filhos dos baby boomers está chegando à idade de ter seus próprios filhos. Mas também pode ter ocorrido uma mudança de postura.

Uma pesquisa realizada em março revelou que a quantidade de pessoas solteiras favoráveis a se casar e ter filhos aumentou em quase 10%, em comparação com apenas dois anos atrás.

Minho (dir.) acabou formando par com Ruby (esq.), deixando Sunhyeji decepcionada.
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Tudo isso coincide com os comentários de algumas das mulheres do templo. Elas afirmam terem observado cada vez mais publicações nas redes sociais de suas amigas que se casaram e tiveram filhos.

A esta altura da noite, resta apenas uma última rodada de encontros. A energia social do grupo está se esgotando.

Yoo, o apresentador do evento, ressalta que eles ainda têm muito tempo para encontrar um parceiro. Ele destaca que a hora de dormir, às 22 h, é apenas uma sugestão e a noite pode estar "repleta de surpresas".

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Demonstrando que ele tem razão, uma das organizadoras do evento se arrisca com um participante. Ela reconhece que tem namorado, mas afirma que seu relacionamento está condenado ao fracasso.

Ruby acaba saindo para passear com Minho. Sunhyeji parece cansada. Enyo e os demais que não encontraram parceiras vão desistindo, um de cada vez.

Dos 24 participantes do frenético retiro no templo, 16 foram embora sem encontrar parceiros
Foto: BBC/Hosu Lee / BBC News Brasil

Na manhã seguinte, todos brincam e conversam enquanto enviam suas escolhas finais para Yoo, por mensagens de texto.

No final do retiro, oito casais se formaram, incluindo dois entre membros da equipe de organização e participantes. O grupo se reúne para uma foto final.

Enyo observa a cena, decepcionado por não ter encontrado uma parceira. Mas ele não desistiu e diz que estaria disposto a retornar ao retiro "se me deixarem entrar outra vez".

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Sunhyeji ficou animada. Ela ficou acordada até às três horas da manhã, conversando com outras mulheres no seu alojamento.

"Fiz muitas amigas!", exclama ela. E destaca que elas planejam sair juntas para um lanche.

Para ela, a experiência foi uma divertida noite do pijama, que a fez se sentir de novo como uma adolescente, sem medo de ser espontânea e tomar decisões corajosas.

Os homens solteiros concordam. Eles ficaram de manter contato, mas, agora, com álcool e carne sobre a mesa.

Nem todos saem do templo sem um par. Mas quase todos levam algo que, antes, não tinham: novos amigos e confiança renovada em si mesmos.

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