O ataque ocorreu por volta das 22h de sábado (25), quando um veículo avançou contra pedestres nas proximidades do Parque Tiergarten, uma extensa área verde no centro de Berlim por onde passa o trecho final da Parada do Orgulho Gay, conhecida na Alemanha como Christopher Street Day. O termo faz referência à Christopher Street, rua de Nova York onde fica o bar Stonewall, palco emblemático dos confrontos de junho de 1969 que deram origem ao movimento pelos direitos LGBTQIA+.
Segundo os bombeiros, 11 dos feridos sofreram lesões graves, e três permanecem em estado crítico. Outras 30 pessoas receberam atendimento médico e psicológico após testemunharem a cena.
A investigação se concentra agora na identificação de todos os envolvidos e na reconstrução da dinâmica do ataque. O veículo utilizado, descrito pela polícia como uma minivan ou um utilitário esportivo de pequeno porte, foi encontrado abandonado e completamente destruído após o impacto. Os investigadores trabalham com a hipótese de que uma ou mais pessoas tenham deixado o local depois da colisão.
Durante a madrugada, equipes reforçadas por policiais enviados de outras regiões da Alemanha realizaram buscas na área do Tiergarten com apoio de helicópteros equipados com câmeras térmicas. Sem localizar o suspeito, as autoridades decidiram ampliar a operação para toda a cidade de Berlim.
A polícia também apura relatos de testemunhas segundo os quais algumas pessoas teriam sido esfaqueadas após o atropelamento. Até a tarde deste domingo, as autoridades não haviam confirmado quantos casos teriam ocorrido nem esclarecido se esses episódios têm relação direta com o ataque principal.
A divulgação de um mandado público de procura demonstra a prioridade atribuída ao caso pelas forças de segurança alemãs. O alerta distribuído pela polícia inclui a fotografia e a descrição física de Abdul B., que continuava foragido até a divulgação das informações mais recentes.
Evento reúne centenas de milhares de pessoas
O ataque ocorreu durante um dos eventos mais tradicionais do calendário da capital alemã. A Parada do Orgulho de Berlim está entre as maiores manifestações LGBT da Europa e costuma reunir centenas de milhares de participantes vindos de diferentes partes da Alemanha e do exterior.
Neste ano, a programação incluiu desfiles, apresentações musicais e atividades culturais realizadas desde sexta-feira (24) na região do Portão de Brandemburgo, um dos principais símbolos da cidade. O ponto atingido pelo veículo ficava a algumas centenas de metros da área principal das comemorações.
Segundo as autoridades, quando o ataque aconteceu grande parte do público já havia começado a deixar a região. Ainda assim, o episódio levou os organizadores a cancelar imediatamente todas as atividades previstas para o encerramento da festa.
Pelas redes sociais, os responsáveis pelo evento pediram que os participantes deixassem a área e retornassem para casa. A polícia orientou o público a evitar os trechos arborizados do Tiergarten enquanto as buscas pelos suspeitos estavam em andamento, recomendando a utilização apenas das vias urbanas da região.
Mais de 2.200 policiais haviam sido mobilizados para garantir a segurança do evento ainda antes do ataque. O efetivo foi posteriormente reforçado com agentes de outras partes do país.
Governo trata caso como ataque
As autoridades alemãs passaram a classificar o episódio como um ataque poucas horas depois dos fatos.
O prefeito de Berlim, Kai Wegner, afirmou que a cidade havia sido atingida em um dos símbolos de sua identidade pública: a defesa da diversidade e das liberdades individuais. Segundo ele, uma celebração que transcende a própria comunidade LGBT e reúne diferentes setores da sociedade foi alvo de violência "da forma mais brutal possível".
"Depois de uma Parada do Orgulho pacífica e colorida, o encontro por uma Berlim tolerante e pacífica foi alvo da forma mais brutal possível. Berlim é a cidade da liberdade, e nossa liberdade foi atacada hoje da maneira mais terrível", declarou.
O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, também utilizou o termo "ataque" ao comentar o episódio.
Em comunicado divulgado pelo governo federal, o chanceler Friedrich Merz prometeu uma investigação completa do caso. Segundo um porta-voz, o governo está determinado a esclarecer integralmente as circunstâncias do episódio e garantir a punição dos responsáveis.
"O chanceler e o ministro do Interior atuarão com determinação especial para fazer plena luz sobre esse ato abominável e garantir sua punição", afirmou o comunicado.
Episódio reacende debate sobre segurança
O caso ocorre em um momento de forte sensibilidade política em torno dos temas da segurança pública e do extremismo conservador na Alemanha.
Nos últimos anos, o país registrou uma série de ataques violentos envolvendo armas brancas e veículos lançados contra multidões, episódios que alimentaram o debate nacional sobre imigração, radicalização e prevenção ao terrorismo.
Embora os investigadores ainda não tenham esclarecido a motivação do ataque de sábado nem definido quantas pessoas participaram da ação, a referência da polícia a possíveis vínculos do principal suspeito com círculos islamistas atraiu atenção imediata das autoridades federais e dos dirigentes políticos alemães.
Enquanto a investigação prossegue, a prioridade das forças de segurança permanece a mesma: localizar o suspeito apontado pela polícia e esclarecer se ele agiu sozinho ou contou com apoio de outras pessoas. Até o início deste domingo, nenhuma prisão havia sido anunciada.
RFI com AFP