A situação mais grave concentra-se no departamento da Gironda, no sudoeste da França, onde fica Bordeaux, uma das regiões vinícolas mais conhecidas do mundo. O incêndio iniciado na quarta-feira (22) já é considerado o mais devastador registrado no país nos últimos 50 anos e supera os grandes incêndios que atingiram a mesma área em 2022.
As chamas já consumiram mais de 22 mil hectares, área equivalente a cerca de 31 mil campos de futebol oficiais ou ao dobro da superfície da cidade de Paris. Além da destruição ambiental, o fogo já atingiu pelo menos cem edificações.
Segundo o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, a França enfrenta uma situação sem precedentes. Ele determinou o envio de um avião militar de transporte para apoiar as operações de combate às chamas.
A Gironda abriga alguns dos vinhedos mais prestigiados do planeta, responsáveis por rótulos que fizeram de Bordeaux uma referência mundial na produção de vinho. Além da ameaça à população e às áreas florestais, o avanço das chamas preocupa uma região cuja economia depende fortemente da viticultura, do turismo e das atividades associadas ao setor.
Diante do agravamento da situação, o presidente Emmanuel Macron determinou na sexta-feira (24) que as Forças Armadas reforcem ao máximo as operações da Defesa Civil. No mesmo dia, o Corpo de Bombeiros de Paris anunciou o envio de equipes adicionais para apoiar os trabalhos de combate ao fogo, em uma mobilização muito superior à observada durante os incêndios de quatro anos atrás.
As autoridades afirmam que o centro de Bordeaux não corre risco imediato, mas novas retiradas preventivas foram ordenadas durante a madrugada. O avanço das chamas em direção à área metropolitana levou milhares de pessoas a deixar suas casas, muitas delas sem saber quando poderão retornar.
No Parque de Exposições de Bordeaux, transformado às pressas em centro de acolhimento, o sentimento dominante entre os retirados é de desorientação. "É o apocalipse", resumiu ao site Franceinfo um dos moradores recebidos no local, onde milhares de pessoas passaram a noite depois das novas ordens de retirada preventiva emitidas pelas autoridades. O local recebeu uma sucessão ininterrupta de moradores ao longo da noite e da manhã, à medida que novas áreas eram incluídas nas zonas de retirada preventiva.
Segundo a reportagem, a impressão predominante entre os desalojados é a de desorientação. Em enormes galpões adaptados às pressas, famílias inteiras dividem espaço com idosos, crianças pequenas e moradores que chegaram apenas com alguns pertences pessoais.
As camas improvisadas se esgotaram rapidamente. Muitos passaram a noite em colchões espalhados pelo chão. Outros tentaram descansar sentados em cadeiras ou apoiados sobre mesas.
Espanha enfrenta emergência inédita
A onda de incêndios também atinge a Espanha. Pela primeira vez, o país decretou emergência nacional por causa do avanço das chamas. Na região de Madri, cerca de 63 mil pessoas foram retiradas de suas casas ou receberam ordem para permanecer confinadas. As autoridades também determinaram a retirada de aproximadamente 5 mil turistas de um camping em El Escorial, ao noroeste da capital.
O cheiro de queimado já alcançou áreas centrais de Madri, enquanto bombeiros continuam enfrentando incêndios descritos por autoridades locais como extremamente difíceis de controlar.
Segundo a porta-voz do Greenpeace na Espanha, Celia Ojeda, os incêndios atuais pertencem à categoria dos chamados incêndios de "sexta geração", fenômeno associado à combinação entre calor extremo, seca prolongada e vegetação altamente ressecada.
Ela afirmou à RFI que a quantidade de energia produzida por esses incêndios é tão elevada que os próprios especialistas encontram dificuldades para prever seu comportamento e sua velocidade de propagação.
Ojeda destaca ainda que as sucessivas ondas de calor registradas nos últimos anos, associadas ao aumento das temperaturas noturnas e à redução da umidade do solo, criam condições favoráveis para incêndios cada vez mais intensos e difíceis de controlar.
Sem vagas na França
Na região de Bordeaux, calor dentro dos galpões aumenta o desconforto dos moradores e filas se formam diante dos pontos de distribuição de alimentos, enquanto voluntários trabalham sem interrupção para receber novos grupos de retirados. Odile, de 90 anos, deixou sua residência acompanhada da filha. No caminho, elas recolheram um homem de 99 anos, que vive sozinho e tem deficiência visual.
"Estamos completamente exaustas", relatou a aposentada. Segundo ela, o grupo não conseguiu descansar durante a noite porque não havia mais camas disponíveis quando chegaram ao centro de acolhimento.
A principal fonte de preocupação, contudo, é a incerteza. Muitos moradores ainda não sabem se suas casas foram atingidas nem quando poderão voltar às áreas evacuadas.
Em vários pontos da região metropolitana, a fumaça e a queda de cinzas já se tornaram parte da rotina. Na sexta-feira (24), uma chuva de resíduos das queimadas cobriu partes de Bordeaux, reforçando a sensação de proximidade do desastre.
Retiradas preventivas geram dúvidas
Uma parcela dos moradores questiona a necessidade das retiradas realizadas nas últimas horas. Em algumas localidades, o fogo ainda estava distante quando a ordem foi emitida pelas autoridades.
Odile admite que teve dificuldade para compreender a decisão. Segundo ela, as chamas não pareciam representar ameaça imediata para sua cidade quando recebeu a determinação para sair.
Mesmo assim, a aposentada afirma entender a lógica adotada pelas equipes de emergência. "É melhor excesso de prudência do que prudência insuficiente", resume.
Sua principal crítica recai sobre a organização do acolhimento. Na avaliação dela, a concentração de milhares de pessoas em um único centro acabou produzindo dificuldades adicionais para quem já chegava fragilizado após horas de deslocamento e congestionamentos.
As autoridades defendem a estratégia de antecipar as retiradas para evitar situações de emergência caso os ventos alterem repentinamente a direção das chamas. Especialistas destacam que incêndios de grande intensidade podem mudar de comportamento em questão de minutos, tornando evacuações tardias muito mais arriscadas.
Enquanto isso, os bombeiros seguem mobilizados em várias frentes da Gironda. Com uma nova onda de calor prevista para os próximos dias, tanto França quanto Espanha mantêm o estado máximo de alerta enquanto equipes de emergência seguem mobilizadas para tentar conter uma crise que já se tornou uma das mais graves já registradas no sul da Europa.
RFI com AFP e Franceinfo