Polêmica dos novos vitrais para Notre-Dame reacende debate sobre preservação do patrimônio histórico

Os seis novos vitrais contemporâneos encomendados para a Catedral de Notre-Dame de Paris deverão ser inaugurados em dezembro, exatamente dois anos após a reabertura do monumento, restaurado após o incêndio de 2019. Apesar das contestações de associações de defesa do patrimônio, a fabricação das obras da artista francesa Claire Tabouret avança rapidamente.

24 jul 2026 - 12h37

Associações de defesa do patrimônio, Sites & Monuments e SOS Paris recorreram ao Tribunal Administrativo de Paris para contestar a encomenda dos vitrais contemporâneos para a Catedral de Notre-Dame de Paris. Além da ação apresentada pelas entidades, uma petição foi assinada por cerca de 300 mil pessoas.

Enquanto isso, os ateliês Simon-Marq, em Reims, seguem avançando na produção das obras. "Quase 70% da área total da encomenda já foi realizada. Três vitrais estão concluídos, um quarto ficará pronto dentro de uma semana e os outros dois já estão bem adiantados", informaram ao Le Figaro os responsáveis pelo projeto.

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Em visita aos ateliês nesta semana, a ministra da Cultura da França, Catherine Pégard, afirmou que a instalação dos novos vitrais representará "mais um momento muito importante" na história da catedral de mais de 850 anos.

Ministra acredita que vitrais conquistarão os parisienses  

A ministra aposta que a controvérsia em torno do projeto será superada quando o trabalho for apresentado ao público. Segundo ela, uma vez instaladas, as obras serão capazes de conquistar até os críticos mais resistentes. "Quando as pessoas virem essas seis janelas no local para o qual foram concebidas, elas vão conquistar até os mais céticos", declarou.

De acordo com Philippe Jost, presidente do organismo público Rebâtir Notre-Dame de Paris, os vitrais serão concluídos em setembro e instalados entre outubro e novembro, para que tudo esteja pronto para a apresentação oficial ao público em dezembro.

A ministra da Cultura da França, Catherine Pégard, com a artista Claire Tabouret; o arcebispo de Paris, Mons. Laurent Ulrich; Philippe Jost, presidente da Rebâtir Notre-Dame de Paris; Pierre-Emmanuel Taittinger e Philippe Varin, presidente e vice-presidente do Atelier Simon-Marq, em Reims, em 23 de julho de 2023.
A ministra da Cultura da França, Catherine Pégard, com a artista Claire Tabouret; o arcebispo de Paris, Mons. Laurent Ulrich; Philippe Jost, presidente da Rebâtir Notre-Dame de Paris; Pierre-Emmanuel Taittinger e Philippe Varin, presidente e vice-presidente do Atelier Simon-Marq, em Reims, em 23 de julho de 2023.
Foto: RFI

O projeto ocupa uma área total de 120 metros quadrados e será instalado em seis capelas localizadas no lado sul da nave da catedral. Cada vitral ilustra um versículo bíblico relacionado ao Pentecostes, tema escolhido pela Arquidiocese de Paris. As obras são fruto da colaboração entre Claire Tabouret e os mestres vidreiros do histórico ateliê Simon-Marq, fundado no século 17 e responsável, entre outros trabalhos, pelos famosos vitrais criados por Marc Chagall para a Catedral de Reims, localizada a cerca de 130 quilômetros a nordeste de Paris.

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Em entrevista à RFI no início deste ano, Claire Tabouret afirmou que o projeto exige humildade diante da longa história do monumento. "Fiz questão de começar a trabalhar imediatamente. É um projeto que nos lembra que fazemos parte de uma linha do tempo extremamente longa", declarou a artista.

Uma polêmica patrimonial

O projeto, financiado pelo Estado francês ao custo de cerca de € 4 milhões (mais de R$ 23 milhões), prevê a substituição de seis dos sete vitrais instalados em 1864 durante a grande restauração conduzida pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc. Diferentemente de outras partes da catedral, essas janelas não foram danificadas pelo incêndio de abril de 2019.

A catedral, que foi restaurada após o incêndio que a devastou em 2019, recebeu mais de 6 milhões de visitantes desde sua reabertura em dezembro de 2024.
Foto: RFI

Esse é justamente o principal argumento dos opositores da iniciativa. Associações como Sites & Monuments e SOS Paris recorreram à Justiça administrativa francesa para tentar impedir a substituição das obras do século 19. 

A controvérsia, porém, vai além da questão estética. Os críticos argumentam que a substituição cria um precedente perigoso para a conservação de monumentos históricos, já que uma regra fundamental da preservação patrimonial prevê que elementos originais em bom estado não sejam removidos. A Comissão Nacional da Arquitetura e do Patrimônio manifestou-se duas vezes contra a retirada dos vitrais de Viollet-le-Duc.

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As autoridades francesas respondem que a intervenção será reversível. Os vitrais do século 19 não serão destruídos. Após a restauração, quatro deles serão exibidos no Castelo de Pierrefonds, ao norte de Paris, enquanto os dois restantes ficarão expostos na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, na capital francesa.

Em maio, o Tribunal Administrativo de Paris rejeitou um pedido de suspensão urgente das obras. No entanto, ainda deverá se pronunciar sobre o mérito da ação movida pelas associações.

Para os defensores do projeto, Notre-Dame sempre incorporou contribuições artísticas de diferentes épocas ao longo de seus mais de oito séculos de história. Já os opositores temem que a substituição de elementos históricos preservados abra caminho para novas intervenções em patrimônios tombados. É essa questão de princípio, mais do que a estética dos novos vitrais, que está no centro da polêmica.

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