O que é o 'teste de Narva', símbolo da tensão entre Europa e EUA sobre papel da Otan em caso de conflito

Líderes se reúnem esta semana para a Conferência de Segurança de Munique, em um momento crucial para a segurança europeia.

10 fev 2026 - 10h49
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, na Conferência de Segurança de Munique no ano passado
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, na Conferência de Segurança de Munique no ano passado
Foto: EPA / BBC News Brasil

Faz um ano desde que o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, fez um discurso surpreendente na Conferência de Segurança de Munique, criticando a Europa por suas políticas de imigração e liberdade de expressão e afirmando que a maior ameaça que o continente enfrenta vem de dentro.

Este ano, a conferência, que começa esta semana, mais uma vez promete ser decisiva. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio, lidera a delegação americana, enquanto mais de 50 outros líderes mundiais foram convidados. Isso ocorre em um momento em que a segurança da Europa parece cada vez mais precária.

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A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no final do ano passado, pediu à Europa que "se sustentasse por si própria" e assumisse a "responsabilidade principal pela sua própria defesa", aumentando os receios de que os EUA estejam cada vez menos dispostos a apoiar a defesa da Europa.

Mas é a crise da Groenlândia que realmente abalou a estrutura da aliança entre os EUA e a Europa. Donald Trump afirmou em inúmeras ocasiões que "precisa assumir o controle" da ilha para o bem da segurança dos EUA e global. Por algum tempo, ele não descartou o uso da força.

Protesto em Nuuk, na Groenlândia, contra investida dos Estados Unidos, em janeiro passado
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A Groenlândia é um território autônomo que pertence à Dinamarca. Não houve surpresa, portanto, quando o primeiro-ministro dinamarquês disse que uma tomada de poder militar hostil pelos EUA significaria o fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que sustentou a segurança da Europa nos últimos 77 anos.

A crise da Groenlândia foi evitada por enquanto, já que a Casa Branca estava distraída com outras prioridades. Mas deixou uma questão incômoda pairando sobre a Conferência de Segurança de Munique: os laços de segurança entre a Europa e os EUA estão irremediavelmente danificados?

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Eles mudaram, não há dúvida, mas não se desintegraram.

Alex Younger, que foi chefe do Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido, o MI6, de 2014 a 2020, disse à BBC News que, embora a aliança transatlântica não vá voltar a ser como era, ela não está rompida.

"Ainda nos beneficiamos enormemente de nossa relação de segurança, militar e de inteligência com os Estados Unidos", disse ele, que também acredita, como muitos, que Trump está certo em fazer a Europa arcar com uma parcela maior da responsabilidade por sua própria defesa.

"Você tem um continente de 500 milhões [Europa], pedindo a um país de 300 milhões [EUA] para lidar com um de 140 milhões [Rússia]. É o contrário do que se espera", disse.

Esse desequilíbrio, que leva o contribuinte americano efetivamente a subsidiar as necessidades de defesa da Europa há décadas, sustentou grande parte do ressentimento da Casa Branca em relação ao continente.

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Invasão da Ucrânia pela Rússia está prestes a completar cinco anos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas as divisões na aliança vão muito além do número de tropas e da irritação com os países da Otan, como a Espanha, que não têm conseguido atingir o mínimo de 2% do PIB em defesa (a Rússia atualmente gasta mais de 7% em defesa, enquanto o Reino Unido gasta pouco menos de 2,5%).

Em relação ao comércio, à migração e à liberdade de expressão, a equipe de Trump tem divergências acentuadas com a Europa. Enquanto isso, governos europeus democraticamente eleitos estão alarmados com a relação entre Trump e Vladimir Putin e sua propensão a culpar a Ucrânia pela invasão russa.

Os organizadores da Conferência de Segurança de Munique publicaram um relatório antes do evento, no qual Tobias Bunde, diretor de pesquisa e política, afirma que houve uma ruptura fundamental com a estratégia americana do pós-Segunda Guerra Mundial.

Essa estratégia, argumenta ele, baseava-se em três pilares: a crença nos benefícios das instituições multilaterais, a integração econômica e a convicção de que a democracia e os direitos humanos não são apenas valores, mas ativos estratégicos.

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'Um alerta chocante para a Europa'

Grande parte do pensamento da Casa Branca pode ser vista na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington, descreve o documento como "um alerta real, doloroso e chocante para a Europa" e "um momento de profunda divergência entre a visão que a Europa tem de si mesma e a visão de Trump para o continente".

Donald Trump abalou profundamente as relações entre os EUA e a Europa
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

A estratégia declara como prioridade uma nova política de apoio a grupos hostis aos próprios governos europeus que supostamente são aliados de Washington. Ela promove o "cultivo da resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias" e afirma que as políticas migratórias podem levar ao risco de "apagamento civilizacional".

No entanto, o documento sustenta que "a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos".

"A reação da maioria da Europa a esta Estratégia de Segurança Nacional provavelmente será o mesmo choque estarrecido que a reação ao discurso do vice-presidente JD Vance em Munique", disse o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

"Atualmente, estamos testemunhando a ascensão de atores políticos que não prometem reforma ou reparação", afirma Sophie Eisentraut, da Conferência de Segurança de Munique. "Mas que são muito explícitos em seu desejo de demolir as instituições existentes, e nós os chamamos de demolidores."

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O teste 'Narva'

Mas a questão fundamental em tudo isso é: "O Artigo 5 ainda funciona?".

O Artigo 5 é a parte da carta da Otan que estipula que um ataque a um país será considerado um ataque a todos. De 1949 até um ano atrás, era dado como certo que, caso a Rússia invadisse um Estado da Otan como a Lituânia, toda a força da aliança, apoiada pelo poderio militar dos EUA viria em seu auxílio.

Embora autoridades da Otan tenham insistido que o Artigo 5 ainda está vivo e em pleno vigor, a imprevisibilidade de Trump, aliada ao desprezo que seu governo demonstra pela Europa, inevitavelmente o põe em xeque.

É o que se chama de de "teste de Narva". Narva é uma cidade de maioria russófona na Estônia, situada às margens do rio Narva, na fronteira com a Rússia. Se, hipoteticamente, a Rússia tentasse agarrá-la sob o pretexto de "vir em auxílio de seus compatriotas russos", será que o governo de Trump viria em socorro da Estônia?

A mesma questão pode ser igualmente aplicada a uma futura, e ainda hipotética, ação russa no estreito de Suwalki, que separa Belarus do enclave russo de Kaliningrado, no Mar Báltico. Ou, aliás, no arquipélago ártico de Svalbard, administrado pela Noruega, onde a Rússia já possui uma colônia em Barentsburg.

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Dadas as recentes ambições territoriais de Trump de tomar a Groenlândia da Dinamarca, membro da Otan, ninguém pode prever com certeza como ele reagiria. E isso, em um momento em que a Rússia está travando uma guerra em grande escala contra um país europeu, a Ucrânia, pode levar a erros de cálculo perigosos.

A Conferência de Segurança de Munique desta semana deve fornecer algumas respostas sobre para onde a aliança transatlântica está caminhando. Mas elas podem não ser o que a Europa quer ouvir.

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