O cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah entrou em vigor há quase dez horas, ainda que o Líbano já acuse Israel de tê-lo violado. O acordo, inicialmente previsto para durar dez dias, foi firmado após cerca de um mês e meio de guerra entre o Exército israelense e o Hezbollah, movimento libanês aliado do Irã.
Nesse contexto, o embaixador do Irã na França, Mohammad Amin Nejad, afirmou em entrevista à RFI nesta sexta-feira (17) que a trégua é "positiva", embora ressalte a necessidade de conter a violência na região.
Ao comentar o início do cessar-fogo, Nejad declarou que "só podemos nos alegrar com esse acordo, porque ele interrompe o derramamento de sangue que ocorreu no Líbano e que causou mais de um milhão de deslocados, centenas de milhares de mortos e feridos". O embaixador comentou ainda esperar que, "apesar das violações que ocorreram - e sobre as quais o governo libanês expressou sua preocupação" - isso leve a um "período de calma que beneficie a todos."
Hezbollah e soberania libanesa
A implementação do cessar-fogo e o papel do Hezbollah permaneceram pontos centrais da entrevista, uma das raras do embaixador. Questionado sobre o engajamento do grupo no acordo, o diplomata iraniano enfatizou a soberania libanesa nas decisões internas.
Segundo ele, "para o Irã, o cessar-fogo no Líbano era uma condição" no contexto das negociações com os Estados Unidos, conduzidas com mediação do governo do Paquistão. Nejad acrescentou que "nosso desejo é apoiar o cessar-fogo no Líbano. Mas foi a outra parte, isto é, Israel, que continuou a agredir seus vizinhos e não o respeitou."
Ele também destacou que a decisão final cabe aos libaneses. "O Hezbollah e o Líbano são um país soberano, que decide dentro do que é seu interesse, do interesse do povo libanês e da integridade territorial libanesa. Portanto, cabe a eles decidir."
O embaixador enfatizou ainda que "o Hezbollah e o Líbano nunca tiveram a intenção de atacar um vizinho, sempre foi o contrário."
Negociações entre Irã e Estados Unidos
O cessar-fogo ocorre em paralelo a um processo de negociações entre Irã e Estados Unidos. O embaixador afirmou que o diálogo nunca foi "totalmente interrompido".
"Estávamos sempre em uma fase de negociação. Na guerra de 12 dias e nos acontecimentos de 27 de fevereiro - uma agressão brutal e sem declaração - estávamos no meio das negociações", disse.
Ele acrescentou que a disposição para o diálogo permanece. "Desta vez também aceitamos negociar porque sempre preferimos dialogar a combater. Na situação atual, os dois lados voltaram a uma lógica de negociação. Há sempre mediações e contatos."
Questionado sobre a possibilidade de um formato semelhante ao de rodadas anteriores, afirmou:
"Estamos sempre abertos à negociação, desde que os interesses dos dois lados sejam atendidos e se chegue a um compromisso."
Programa nuclear iraniano
As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que um acordo estaria próximo e de que o Irã teria aceitado se desfazer de seu urânio enriquecido, também foram abordadas.
O embaixador replicou que "o urânio enriquecido foi bombardeado pelos Estados Unidos, como eles afirmaram". Ao ser questionado sobre a posse do material, ele afirmou que o mesmo "estava sob supervisão e inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica."
Nejad acrescentou que, "antes da agressão de 27 de fevereiro, já havíamos aceitado diluir e reduzir grande parte do que tínhamos no acordo de 2015. Portanto, isso não é um problema."
Ele rejeita enfaticamente a ideia de bloqueio iraniano nas negociações:
"Não foi o Irã que bloqueou o processo, mas sim a intenção de fazer guerra e invadir o Irã."
Sobre a atividade nuclear do país, o diplomata insistiu que "nosso programa nuclear era pacífico. Estava sob inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica, e não havia nenhuma dúvida. Entre 2015 e 2018, houve 15 relatórios confirmando o caráter pacífico das instalações nucleares iranianas." E concluiu: "Nunca tivemos a intenção de ter a bomba atômica."
Estreito de Ormuz e segurança regional
Outro ponto abordado foi o estreito de Ormuz, área estratégica para o comércio mundial de energia. O diplomata comentou especulações sobre a possibilidade de cobrança pelo trânsito de navios. Segundo ele, "a origem dessa situação vem da insegurança e da instabilidade na região, resultantes de guerras e tensões militares ao redor do Irã".
Sobre as acusações de que o estreito de Ormuz teria sido minado, o embaixador iraniano afirmou que "não foi minado, mas a segurança exige estabilidade nessa região."
Em relação à iniciativa da França e do Reino Unido de coordenar medidas para segurança do estreito, considerou a proposta desnecessária.
"Na minha opinião, não há necessidade disso, porque o Irã, ao longo desses 47 anos, sempre foi o garantidor da segurança na região e continuará sendo."
Diante das preocupações sobre a instabilidade atual, reconheceu: "Claro, porque se trata de uma agressão. É preciso ver por que a região se tornou desestabilizada."
Por fim, ao ser questionado sobre a capacidade iraniana de garantir a segurança do estreito sem cobrança de passagem, afirmou: "Isso sempre foi a intenção e a política do Irã."