As eleições em Israel terminaram sem que o bloco governista de Benjamin Netanyahu ou a oposição liderada por Gadi Eisenkot alcançassem as 61 cadeiras necessárias para a maioria parlamentar. O pleito, marcado pela polarização após os conflitos em Gaza, abre um complexo período de negociações para a formação de coalizões. Nesse cenário fragmentado, os partidos árabes conquistaram votação expressiva e despontam como peças decisivas, enquanto Netanyahu permanece como premiê interino nas tratativas.
Com a maior parte dos votos contados nas eleições em Israel, o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aparece ligeiramente à frente do bloco de oposição liderado pelo ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot.
Nenhum dos dois, porém, está a caminho das 61 cadeiras necessárias para formar uma maioria no Knesset, o Parlamento israelense, que tem 120 assentos. Sem maioria, os blocos terão de negociar com outros partidos para tentar formar um governo.
Israel adota um sistema parlamentarista, diferente do presidencialismo brasileiro.
Os eleitores não escolhem diretamente o chefe de governo. Eles votam em um partido, e cada legenda recebe um número de cadeiras proporcional aos votos que obteve em todo o país. Só entram no Parlamento os partidos que alcançam pelo menos 3,25% dos votos.
O primeiro-ministro é quem consegue reunir o apoio da maioria do Knesset, ou seja, pelo menos 61 dos 120 deputados. Como nenhum partido jamais conquistou essa maioria sozinho, todos os governos da história de Israel foram formados por coalizões, alianças entre duas ou mais legendas. Isso dá aos partidos menores um grande poder de negociação.
O país também tem um presidente, mas o cargo é sobretudo cerimonial. Uma de suas funções principais é justamente indicar, depois da eleição, quem terá a chance de tentar formar o governo.
Partidos liderados pela minoria árabe do país conquistaram um número recorde de cadeiras e podem ter peso decisivo na formação do próximo governo. A maioria dos partidos judeus, incluindo o de Eisenkot, descartou durante a campanha governar com eles.
O resultado abre um período de negociações que pode durar semanas ou meses. Enquanto isso, Netanyahu continua no cargo.
Por que esta eleição é considerada decisiva
Esta é a primeira eleição em Israel desde os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que mataram cerca de 1,2 mil pessoas e levaram 251 reféns para Gaza. Ela também é a primeira desde as guerras que vieram depois, em Gaza, no Líbano e no Irã.
A ofensiva militar israelense em Gaza matou mais de 74,5 mil pessoas, segundo o Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas, cujos números são considerados confiáveis pela ONU.
A votação foi amplamente vista como um referendo sobre o governo de Netanyahu.
Entre os principais temas da campanha estiveram a responsabilização pelas falhas de segurança que permitiram os ataques de 7 de outubro, a condução das guerras e o serviço militar dos ultraortodoxos, historicamente isentos. Também pesaram a reforma do Judiciário proposta pelo governo e o custo de vida.
Para Eugene Rogan, diretor do Centro de Oriente Médio da Universidade de Oxford, o resultado é um retrato da polarização da sociedade israelense.
De um lado, há eleitores que querem mudança, cansados do custo de guerras sem fim. De outro, há os que veem em Netanyahu a única garantia de segurança diante do que consideram ameaças existenciais.
O resultado também interessa ao Brasil, que vive um dos piores momentos de sua relação com Israel. Em fevereiro de 2024, Israel passou a considerar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) persona non grata até que ele se desculpasse por comparar as ações do Exército israelense na Faixa de Gaza ao Holocausto.
Em resposta, Lula chamou de volta para consultas o embaixador brasileiro em Tel Aviv, Frederico Meyer, que depois foi transferido para Genebra sem que um substituto fosse nomeado para Israel.
Em 2025, o Brasil ingressou formalmente na ação na Corte Internacional de Justiça (CIJ) que acusa Israel de genocídio. No mesmo ano, o governo brasileiro não respondeu ao pedido de aprovação do diplomata Gali Dagan como novo embaixador israelense em Brasília.
Israel retirou a indicação e afirmou que as relações entre os países passariam a ser conduzidas em um nível diplomático inferior.
O cenário é bem diferente do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), período de aproximação entre os dois países. Netanyahu esteve na posse do ex-presidente, em 2019.
Lula foi reeleito no domingo (25/10), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Ele terá pela frente o governo que sair das negociações em Israel, seja ele liderado por Netanyahu ou por Eisenkot.
Quais são os números até agora
Com 85% dos votos apurados, nem Netanyahu nem Eisenkot devem ter cadeiras suficientes para formar maioria.
Na última parcial com a distribuição de assentos, com 85,6% dos votos contados, o bloco de Netanyahu somava 53 cadeiras, o de Eisenkot, 44, e os partidos árabes, 19.
O Likud, partido de Netanyahu, deve ser o maior partido individual do novo Parlamento.
Ainda faltam contar entre 430 mil e 480 mil votos por correspondência, segundo a Comissão Eleitoral Central de Israel. A maioria é de militares, mas a categoria também inclui outros eleitores autorizados a votar fora de suas seções habituais.
A contagem deve terminar na quinta-feira (29/10). Os resultados oficiais estão previstos para 4 de novembro, segundo a comissão eleitoral.
As pesquisas de boca de urna divulgadas no fechamento das seções indicavam vantagem do bloco de oposição, com 52 ou 53 cadeiras, contra 50 do bloco governista. À medida que a apuração avançou, o quadro se inverteu a favor de Netanyahu.
Ainda assim, segundo a correspondente-chefe internacional da BBC, Lyse Doucet, o Likud perdeu cadeiras, e a coalizão de Netanyahu perdeu ainda mais. Na eleição de 2022, o Likud conquistou 32 cadeiras, e a coalizão formada depois com partidos de extrema direita somava 64.
O comparecimento foi de 77,7% no fechamento das urnas. Segundo a Comissão Eleitoral Central, é o maior índice registrado nesse horário desde 1999.
O que acontece agora
Depois da divulgação dos resultados oficiais, o presidente de Israel, Isaac Herzog, vai ouvir todos os partidos eleitos. Em seguida, ele convida o líder que considerar com mais chances a tentar formar uma coalizão.
O escolhido tem 28 dias para isso, prorrogáveis por até mais 14. Se fracassar, o presidente pode indicar outro parlamentar, que terá 28 dias, sem possibilidade de prorrogação. Se ele também não conseguir formar um governo, 61 parlamentares podem solicitar ao presidente que indique outro nome, que terá 14 dias para tentar. Se essa terceira tentativa fracassar, ou ninguém apresentar a solicitação dentro do prazo previsto, novas eleições são convocadas.
Herzog afirmou nesta quarta-feira (28/10) que é preciso "fazer tudo o que for possível" para evitar mais uma rodada de votação. Entre 2019 e 2022, Israel foi às urnas cinco vezes.
Analistas israelenses apontam alguns caminhos possíveis.
Eisenkot poderia formar um governo minoritário sustentado pelos partidos árabes. Netanyahu poderia convencer Eisenkot a montar um governo de união com partidos de centro e de direita. Ou um dos lados poderia atrair uma legenda do bloco rival. Segundo o repórter da BBC Tom Bennett, qualquer uma dessas saídas provavelmente exigirá que alguém quebre promessas de campanha.
Enquanto não houver novo governo, Netanyahu segue como primeiro-ministro interino, com a maior parte de seus poderes. Ele é o recordista nessa condição: ficou um ano e meio como premiê interino, entre dezembro de 2018 e maio de 2020, período em que houve três eleições sem resultado conclusivo.
Quem disputa o governo
O bloco de Netanyahu reúne o Likud, os partidos de extrema direita Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir, e Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich, além dos partidos ultraortodoxos.
O chamado "bloco da mudança", de oposição, é liderado pelo Yashar, partido de centro criado em 2025 por Eisenkot. Fazem parte dele também o Beyachad, do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, os Democratas, de Yair Golan, e o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman.
Netanyahu, de 77 anos, é o primeiro-ministro há mais tempo no cargo na história de Israel e disputava a eleição em busca de um sétimo mandato. Há décadas ele se apresenta como o "Senhor Segurança" do país. Lidera desde 2022 a coalizão mais à direita da história israelense.
Nascido em Tel Aviv em 1949, serviu como capitão da Sayeret Matkal, unidade de elite do Exército. Seu irmão, Jonathan, morreu em 1976 comandando o resgate de reféns de um avião sequestrado em Entebbe, em Uganda, e se tornou um nome lendário no país.
Netanyahu foi embaixador de Israel na ONU e chegou ao cargo de primeiro-ministro pela primeira vez em 1996. Foi o mais jovem a ocupar o posto e o primeiro nascido depois da fundação do Estado, em 1948. Perdeu o poder em 1999, voltou em 2009 e governou por 12 anos seguidos até um breve período na oposição.
Sua candidatura veio depois do que muitos israelenses consideram a maior falha de segurança da história do país, os ataques de 7 de outubro de 2023.
Netanyahu reconheceu alguma responsabilidade, mas diz que outros também têm culpa, incluindo chefes da área de segurança. Ele rejeita a criação de uma comissão de inquérito estatal liderada pela Suprema Corte, argumentando que o Judiciário seria parcial contra ele.
Netanyahu também responde, desde 2020, a um processo por suborno, fraude e quebra de confiança em três casos diferentes. Foi o primeiro primeiro-ministro israelense a ser julgado no exercício do cargo. Ele nega as acusações, diz ser vítima de uma "caça às bruxas" política e pediu perdão ao presidente Isaac Herzog.
Em 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ele por supostos crimes ligados à ofensiva em Gaza. Netanyahu também rejeita essas acusações.
Ao longo da carreira, Netanyahu apontou o Irã como a maior ameaça a Israel. Em fevereiro de 2026, Israel e os Estados Unidos lançaram ataques contra o país que mataram o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
Netanyahu tem no presidente americano, Donald Trump, um aliado próximo. Dias antes da eleição, Trump declarou apoio a ele em sua rede social, a Truth Social, e o chamou de "grande primeiro-ministro guerreiro".
Já Gadi Eisenkot tem 66 anos, passou 40 deles no Exército e chegou ao posto de chefe do Estado-Maior, que ocupou entre 2015 e 2019, durante um governo de Netanyahu. Entrou na política em 2022, como deputado pelo partido Unidade Nacional, do qual saiu depois alegando diferenças ideológicas. Em 2025, fundou o Yashar, nome que significa "reto" ou "íntegro" em hebraico.
Filho de imigrantes marroquinos de origem modesta, nasceu em Tiberíades e foi criado em Eilat, longe dos centros de poder de Jerusalém e Tel Aviv.
Ele é mizrahi, como são chamados os judeus de origem no Oriente Médio e no Norte da África. Nenhum mizrahi jamais foi primeiro-ministro de Israel.
Seu filho mais novo, o sargento Gal Eisenkot, morreu em dezembro de 2023, após a explosão de uma bomba em um poço de túnel no norte de Gaza. Ele participava de uma operação militar na região. Dois sobrinhos de Eisenkot também morreram na guerra.
Depois dos ataques de 7 de outubro, Eisenkot integrou o gabinete de guerra de Netanyahu. Renunciou em junho de 2024, acusando o primeiro-ministro de não agir com rapidez para libertar os reféns. Netanyahu rejeita a acusação e diz que Eisenkot se opôs a operações militares decisivas em Gaza.
Apesar das críticas a Netanyahu, Eisenkot nunca se opôs à resposta militar israelense em Gaza e não defende a criação de um Estado palestino. Prometeu acabar com o governo do Hamas em Gaza em até 18 meses e abrir uma investigação sobre as falhas que levaram ao 7 de outubro.
Também propôs um serviço obrigatório para todos os cidadãos, militar ou civil, incluindo ultraortodoxos e árabes. Ele apoia a expansão dos grandes blocos de assentamentos na Cisjordânia ocupada, mas é contra o polêmico projeto E1, que prevê a construção de milhares de moradias para colonos em uma área entre Jerusalém Oriental e o assentamento de Maale Adumim.
Críticos afirmam que a obra dividiria a Cisjordânia em duas e isolaria Jerusalém Oriental do restante do território, o que inviabilizaria um Estado palestino contínuo.
Durante a campanha, Eisenkot descartou a participação de partidos árabes em seu governo. Ele não fechou a porta, porém, a uma aliança anti-Netanyahu no Parlamento que sustente um eventual governo minoritário. Para Anshel Pfeffer, correspondente da revista The Economist em Israel e biógrafo de Netanyahu, Eisenkot "não é um pacifista", mas tem "a imagem de um homem sério".
O que disseram Netanyahu e Eisenkot
Os dois afirmaram aos apoiadores que vão formar o próximo governo.
Netanyahu não declarou vitória. Ele disse que o bloco de direita tem uma "maioria clara e decisiva" entre o público judeu e defendeu a formação de "um governo forte, nacional, de direita". Também afirmou que Israel não pode ser liderado por um governo sustentado por "apoio árabe".
Eisenkot afirmou que o público israelense "votou contra a continuidade" de Netanyahu como primeiro-ministro. Ele disse ainda que, com um comparecimento tão alto, seria um erro levar o país a novas eleições.
Por que os partidos árabes podem ser decisivos
Duas listas lideradas por árabes disputaram a eleição. A Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen, é uma aliança de partidos laicos que defende igualdade de direitos para os árabes israelenses e uma solução de dois Estados para o conflito com os palestinos. O Ra'am, ou Lista Árabe Unida, de Mansour Abbas, é um partido conservador de raízes islamistas.
Os árabes representam cerca de um quinto da população de Israel, e muitos se identificam como cidadãos palestinos de Israel. Historicamente, eles comparecem menos às urnas que os eleitores judeus. Desta vez, a participação foi alta.
Ainda no dia da votação, Netanyahu chamou nas redes sociais o comparecimento árabe de "emergência" e "questão de vida ou morte" para a direita.
Segundo a correspondente da BBC no Oriente Médio Yolande Knell, Eisenkot teria dificuldade para reunir maioria sem esses partidos. Eles podem se tornar fiadores do próximo governo, desde que outras legendas aceitem se aliar a eles.
Jabareen disse que seu bloco está "pronto para abrir caminho" para tirar Netanyahu do poder. Antes da eleição, a Lista Conjunta já falava em apoiar de fora um governo alternativo, sem integrá-lo.
Dentro da oposição, apenas Yair Golan, dos Democratas, defendeu abertamente um governo em parceria com os partidos árabes. Eisenkot e os demais líderes do bloco descartaram incluí-los na coalizão, citando falta de valores em comum.
O precedente existe. Depois da eleição de 2021, o Ra'am integrou a coalizão liderada por Naftali Bennett e Yair Lapid, que durou cerca de um ano.
Para o correspondente diplomático da BBC Paul Adams, a matemática do novo Parlamento pode forçar Eisenkot a rever sua posição. Uma saída seria contar com o apoio informal dos partidos árabes em um governo minoritário. Outra seria incluir o Ra'am formalmente na coalizão.