Na Assembleia Geral da ONU, Emmanuel Macron criticou as operações militares de Israel em Gaza e na Cisjordânia, defendeu a solução de dois Estados e exaltou a importância do multilateralismo. Em resposta, o governo israelense classificou as falas do presidente francês como um "absurdo grotesco", reiterando a existência de ataques do Hamas na região. A declaração de Macron também foi criticada pelos Estados Unidos, que a consideraram desconectada da realidade.
Em sua fala, Macron destacou as violências israelenses nos territórios palestinos, evocando a passividade dos líderes sobre a questão. "Qual é a nossa credibilidade se continuarmos inertes diante de Gaza?", declarou o presidente francês, lamentando um "espetáculo que envergonha a todos".
Além disso, o presidente francês declarou que o Hamas nunca atuou na Cisjordânia, denunciando a incoerência das operações israelenses na região. "Todos aqueles que afirmam que a segurança de Israel passa pela violação da soberania de todos os seus vizinhos cometem um erro funesto", afirmou, evocando também o deslocamento de milhares de libaneses depois da destruição de seus vilarejos por soldados de Israel.
Macron ainda voltou a afirmar que a solução de dois Estados é a condição para a "segurança de hoje e de amanhã para Israel e seu povo".
No ano passado, durante a Assembleia Geral da ONU, o líder centrista encabeçou, junto à Arábia Saudita, a chamada "Declaração de Nova York", apoiada por 142 Estados, em prol do reconhecimento da Palestina.
Israel não demorou a responder às declarações do presidente francês, classificadas de "absurdo grotesco". "Os terroristas do Hamas realizam ataques contra os judeus quase todos os dias. Assassinaram inúmeros civis israelenses em Judeia e Samaria", afirmou o escritório do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em um comunicado, citando o nome bíblico da Cisjordânia, que foi invadida por Israel em 1967.
A nota ainda menciona a morte a tiros, no domingo (20), de um colono israelense na Cisjordânia, pai de seis filhos e que também tinha nacionalidade francesa. O exército de Israel afirmou ter detido o atirador palestino em um hospital e informou que soldados realizaram depois uma incursão em seu vilarejo. O governo de Netanyahu pede agora a sua execução, com base em uma nova lei.
O embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, também endossou a reação, dizendo ser "difícil imaginar um discurso mais desconectado da realidade do que o de Macron na ONU".
Multilateralismo e engajamento em prol da ONU
A fala do presidente francês durou 30 minutos, neste que será seu último discurso na Assembleia Geral da ONU deste mandato, que se encerra em 2027, sem possibilidade de reeleição. Como o presidente Lula, que foi o primeiro a discusar na terça-feira, Macron também se pronunciou em favor do multilateralismo e pediu o engajamento dos líderes em prol das Nações Unidas.
"Não cedamos!", declarou, criticando "impérios" e a "lei da selva". "Devemos, de fato, continuar a agir, hoje mais do que nunca, e ter a coragem de ser otimistas, mobilizar-nos e ser úteis", martelou. "Mais do que nunca, precisamos das nossas Nações Unidas", reiterou Macron.
O discurso contou ainda com várias indiretas ao presidente americano, Donald Trump, e contra suas ambições territoriais no Canadá e na Groenlândia. Macron também alfinetou a China e a Rússia, que bloqueiam frequetemente a adoção de resoluções no Conselho de Segurança.
O líder francês lamentou o que classificou de "moda" sobre considerar que as Nações Unidas "já não servem para grande coisa" e poderiam ser substituída por uma organização regida pela "lei do mais forte", onde seria possível "impor outro pensamento". Em um tom otimista, o presidente francês completou que "juntos" os países são "mais fortes, mais eficazes" e encerrou seu discurso com a frase: "viva as Nações Unidas".
RFI com agências