Abelhas, minhocas, pássaros… Diversos estudos já demonstraram que os pesticidas podem causar efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies. Ainda assim, entender e medir com precisão o impacto desses produtos sobre a biodiversidade continua complexo. A pesquisa publicada nesta quarta-feira na revista Proceedings of the Royal Society B traz novos elementos: na França, a população de aves é menor nas áreas onde os pesticidas são mais comprados.
A análise que cruza duas bases de dados — sobre a comercialização de pesticidas na França e o acompanhamento de aves comuns — mostra o papel dos produtos fitossanitários no colapso da biodiversidade.
"Para 84,4% das espécies analisadas, a correlação é negativa: quanto mais pesticidas vendidos, menor a abundância de espécies e população", resume Anne‑Christine Monnet, primeira autora e pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação (Museu Nacional de História Natural da França/CNRS/Sorbonne).
"O efeito é muito forte. Muitas espécies são afetadas." Na França, a população de aves comuns do campo e de áreas urbanas caiu quase 30% nas últimas três décadas", atestou a pesquisadora.
Diferentemente de estudos anteriores, esta pesquisa analisa os efeitos de 242 substâncias diferentes, cobrindo toda a França metropolitana, e não apenas de um ou dois pesticidas específicos. Ela se concentra em todas as espécies de aves comuns que frequentam ambientes agrícolas, e não apenas naquelas especializadas nesses habitats. Além disso, os pesquisadores tentaram separar o efeito direto dos pesticidas de outros fatores ligados à intensificação da agricultura, como o tamanho das propriedades e a diversidade da paisagem.
Rouxinóis, pintassilgos e gaviões
Para chegar a esses resultados, os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e da Universidade de Poitiers usaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Produtos Fitossanitários por distribuidores autorizados. Essa base pública, criada em 2006 e acessível desde 2019, reúne informações sobre vendas de pesticidas associadas aos códigos postais dos compradores.
Para confirmar que o volume de vendas refletia a contaminação ambiental local, os pesquisadores compararam os dados com outra base sobre resíduos de pesticidas em águas superficiais. "Encontramos muitas correlações positivas", diz Anne-Christine Monnet. "Quanto mais substâncias tóxicas, mais resíduos aparecem na água."
Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa de ciência que registra variações na abundância de espécies na França. Entre os 64 tipos de aves presentes em ambientes agrícolas analisados — como rouxinóis, pintassilgos e gaviões — 54 apresentaram menor abundância nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos, de forma estatisticamente significativa ou próxima disso. "A contaminação dos campos afeta não apenas as espécies altamente dependentes desses habitats, mas todas as que os utilizam regularmente", explicam os pesquisadores.
"Os resultados são muito fortes, mesmo quando análises desse tipo costumam ter limitações", observa Stanislas Rigal, pesquisador da Fundação para a Pesquisa sobre a Biodiversidade, que não participou do estudo. A maioria das espécies analisadas responde negativamente ao aumento do uso de pesticidas.
Como os pesticidas afetam as aves
O impacto pode ser direto, quando os pássaros ingerem sementes tratadas ou se alimentam de insetos ou plantas contaminadas. Também há efeito indireto, ao reduzir recursos disponíveis, como insetos que serviriam de alimento.
Para garantir que os efeitos observados não fossem confundidos com outros fatores da agricultura intensiva, os pesquisadores incluíram em seus modelos variáveis como tipo de cultivo, tamanho das parcelas, extensão de cercas vivas, uso de arado, entre outros. "Assim, podemos verificar se os efeitos negativos dos pesticidas estão realmente ligados ao produto, e não ao tipo de cultura, por exemplo", explica Monnet.
Os autores destacam ainda que, embora o acesso ao registro de vendas de pesticidas represente um avanço importante para estudar seu impacto, a base poderia ser aprimorada ao relacionar as vendas com as parcelas específicas onde os produtos são aplicados.
Com agências