ONGs de direitos humanos relataram dezenas de mortes desde o início do movimento, há duas semanas. A República Islâmica enfrenta as maiores mobilizações dos últimos três anos e um de seus principais desafios desde a sua fundação, em 1979.
De acordo com um vídeo autenticado pela AFP, uma manifestação começou no final da noite de sábado em um bairro da zona norte de Teerã. Fogos de artifício foram lançados sobre a Praça Punak. Os manifestantes batiam panelas e entoavam slogans em apoio à dinastia Pahlavi, deposta pela Revolução Islâmica de 1979.
Vídeos compartilhados nas redes sociais, que a AFP não pôde verificar até o momento, mostraram manifestações semelhantes em outras partes da capital, como em Mashhad.
Poucas informações estão sendo divulgadas sobre a situação no terreno, já que os iranianos estão sem acesso à internet desde quinta-feira, após uma decisão das autoridades, segundo a ONG de monitoramento de segurança cibernética Netblocks. Este apagão visa "ocultar a violência infligida durante a repressão", alertaram os cineastas dissidentes iranianos Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof.
No sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em sua plataforma Truth Social que o Irã "anseia por liberdade" e que os Estados Unidos "estão prontos para ajudar". Anteriormente, ele havia ameaçado "atingir o país com força" caso houvesse uma repressão violenta dos protestos.
O jornal The New York Times informa que Trump foi informado sobre as opções disponíveis para possíveis ataques, incluindo direcionados a áreas civis. O diário, citando fontes anônimas, enfatiza que ainda não foi tomada uma decisão final, mas que o governo está "considerando seriamente" uma nova intervenção, após o bombardeio de três importantes instalações nucleares iranianas em junho.
Corpos empilhados
Desde o início dos protestos, em 28 de dezembro - inicialmente ligados ao custo de vida no país -, pelo menos 51 manifestantes foram mortos e centenas ficaram feridos, informou na sexta-feira a organização Iran Human Rights, com sede na Noruega. Entre as vítimas, estão nove crianças. A organização divulgou imagens que mostram corpos de manifestantes empilhados em um hospital de Teerã.
Após uma grande mobilização na quinta-feira, novas manifestações sacudiram Teerã e outras grandes cidades na noite de sexta para sábado, de acordo com imagens verificadas pela AFP e transmitidas nas redes sociais via satélite. No distrito de Saadatabad, em Teerã, iranianos entoaram slogans antigovernamentais, incluindo "Morte a Khamenei", em referência ao líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.
O ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, figura proeminente da oposição iraniana exilada nos Estados Unidos, convocou os iranianos no sábado a "se prepararem para tomar" os centros das cidades.
O aiatolá Ali Khamenei afirmou que os manifestantes são "vândalos" e "sabotadores" agindo em nome de Donald Trump. Os militares iranianos, por sua vez, disseram que protegeriam os "interesses nacionais" contra um "inimigo que busca perturbar a ordem e a paz".
Militares são sepultados
A televisão estatal transmitiu no sábado imagens dos funerais em Shiraz (sul do Irã) de membros das forças de segurança mortos durante os protestos. Também exibiu imagens de prédios em chamas, incluindo mesquitas.
Muitas capitais ocidentais condenaram o uso da força contra os manifestantes. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou o total apoio da Europa às "mulheres e homens iranianos que exigem liberdade", denunciando a "repressão violenta".
Em Londres, a bandeira da República Islâmica foi brevemente substituída pela bandeira da antiga monarquia, adornada com um leão e um sol, na fachada da embaixada iraniana por um manifestante durante um protesto com centenas de pessoas.
O governo iraniano não enfrentava um nível de protesto como esse desde o desencadeado pela morte sob custódia, em 2022, de Mahsa Amini, uma jovem curda presa por violar o rígido código de vestimenta para mulheres.
Essa mobilização ocorre em um país enfraquecido pela guerra com Israel em junho e pelos golpes sofridos por vários de seus aliados regionais, bem como pelas sanções relacionadas ao seu programa nuclear, restabelecidas em setembro pela ONU.
Com informações da AFP