Em sua primeira entrevista coletiva oficial desde o início dos ataques ao Irã, o presidente norte-americano, Donald Trump, foi enfático ao falar sobre o abastecimento mundial de petróleo.
"Enquanto prosseguimos com a Operação 'Epic Fury' (Fúria Épica), também estamos focados em manter o fluxo de energia e petróleo para o mundo. Eu não vou permitir que um regime terrorista mantenha o mundo como refém e tente interromper o fornecimento global de petróleo. Se o Irã fizer algo nesse sentido, será atingido com muito mais força. Vou eliminar os alvos mais fáceis tão rapidamente que eles nunca vão conseguir se recuperar. Jamais".
A fala do presidente americano gerou forte reação da Guarda Revolucionária iraniana. O exército ideológico do Irã deixou claro que vai continuar a controlar totalmente o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, o GNL.
Com o trecho bloqueado - já que o Irã promete atacar os navios que tentarem passar pelo local - quem se aproveita do cenário conturbado é a Rússia, que vai voltar a vender petróleo para a Índia. O diretor do Observatório franco-russo em Moscou, Arnaud Dubien, qvê oportunidades para o país com a guerra no Oriente Médio.
"A curto prazo há os hidrocarbonetos, o petróleo de fato. E o último cenário é a isenção concedida pelos Estados Unidos à Índia, para que ela possa compensar os volumes perdidos no Oriente Médio com petróleo russo. E isso cai muito bem tanto para os russos quanto para os indianos, porque havia numerosos petroleiros ancorados ao largo da costa indiana esperando compradores. Assim, o petróleo russo estava disponível e será vendido com descontos menores do que aqueles praticados há algumas semanas. Isso mostra, no fim das contas, a perfeita complementaridade entre os interesses indianos e russos, e talvez a inutilidade das intenções americanas de enfraquecer esse vínculo", disse.
Segundo o especialista, "a Rússia vai conseguir escoar o petróleo que estava tendo dificuldade de vender e vai fazê-lo em melhores condições financeiras, porque os preços aumentaram. Eles passaram de US$ 60 o barril de Brent no início do ano para cerca de US$ 85 hoje".
Vantagens também para o GNL
Arnaud Dubien acrescenta que a guerra no Oriente Médio também mexe com o cenário de importações e exportações do GNL. O gás natural liquefeito é exportado principalmente pelo Catar, responsável por cerca de 20% do comércio mundial do produto.
Os ataques ao Irã, também devem fortalecer a cooperação entre a Rússia e a China.
"Existe um oleoduto que liga a Sibéria Oriental à China há cerca de quinze anos. Desde 2019, existe também um gasoduto chamado Força da Sibéria. A China, além disso, compra GNL russo, inclusive GNL sujeito a sanções. Em Moscou, muitos acreditam que os chineses vão rever sua política de abastecimento e reavaliar os riscos. Hoje, o fornecimento vindo da Rússia é considerado o menos arriscado e provavelmente o mais barato. Não há fronteira marítima entre a Rússia e a China, e ninguém imagina que a Rússia vá cortar o fornecimento de energia para a China" destacou o especialist
Ele lembrou do projeto do gasoduto Força da Sibéria II, uma infraestrutura planejada há cerca de dez anos e que deverá transportar volumes importantes. Serão "cerca de 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano", calcula.
"Hoje, muitos acreditam que esse projeto finalmente será realizado nos próximos cinco ou seis anos. Ele não permitirá à Gazprom compensar totalmente a perda do mercado europeu, mas vai consolidar essa aliança energética entre Rússia e China por décadas e décadas", finalizou.
Desde o início da guerra no Oriente Médio, os preços do petróleo e do gás têm variado intensamente, provocando forte instabilidade nas bolsas de valores pelo mundo. Diante da perspectiva de prolongamento do conflito, o barril chegou a quase US$120 essa semana e as bolsas despecaram. Analistas preveem que a volatilidade vai continuar nos mercados, refletindo as incertezas, as declarações contraditórias e os próximos ataques e invasões.