Minutos após o início do discurso do Estado da União, no qual Donald Trump apresentou seus argumentos para que eleitores mantenham os republicanos no poder nas eleições de meio de mandato, em novembro, o presidente afirmou que a queda nos preços da gasolina resolveu um "desastre" deixado por seu antecessor.
Duas semanas depois, os preços da gasolina aumentaram quase US$0,60 por galão, parte de uma crise energética crescente deflagrada quando Trump e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã em 28 de fevereiro e desencadearam um conflito regional que se expandiu para muito além das fronteiras do Irã.
A dor na bomba está rapidamente se transformando em uma dor de cabeça política para Trump e seus pares republicanos, cuja estreita maioria no Congresso parece cada vez mais frágil antes das eleições de meio de mandato.
Nesta terça-feira, os preços do petróleo bruto estavam diminuindo em relação aos ganhos dramáticos de segunda-feira, e ainda não se sabe para onde os preços da gasolina vão nos quase nove meses que antecedem a eleição de 3 de novembro. Mas mesmo antes do conflito com o Irã, eleitores dos EUA já estavam irritados com o alto custo de vida e frustrados com o fato de Trump não ter feito mais para lidar com isso, mostraram pesquisas Reuters/Ipsos.
"Não se pode esconder os preços da gasolina", disse Jacob Perry, estrategista republicano. "Você pode mentir sobre todas essas outras coisas e alegar que tudo é notícia falsa. Mas há uma placa gigante em cada esquina dizendo como as coisas estão ruins. Literalmente, todo trajeto para o trabalho é um lembrete."
FOCO DA CAMPANHA
Os democratas prometeram colocar a acessibilidade econômica no centro de suas campanhas. O partido precisa mudar apenas três cadeiras republicanas na Câmara dos Deputados para conquistar a maioria, mas tem um caminho mais difícil no Senado.
"Trump prometeu uma Era de Ouro para os Estados Unidos", disse o líder democrata da Câmara, Hakeem Jeffries, no X.
"Enquanto isso, os republicanos estão destruindo a economia, os preços da gasolina estão fora de controle e os extremistas estão gastando bilhões jogando bombas no Oriente Médio."
Alguns republicanos da Câmara, que estão se reunindo na Flórida nesta semana em um retiro político para discutir sua agenda legislativa, reconheceram que o aumento dos preços da gasolina é uma preocupação para os eleitores, mas citaram a afirmação de Trump de que o aumento seria de curta duração e disseram que os esforços do governo para aumentar a produção doméstica de energia devem diminuir o estrago.
"Todos os dias, quando as pessoas entram em um posto de gasolina e pagam o que estão pagando pelo combustível, isso dói, e nós sabemos que dói", disse o deputado Austin Scott, da Geórgia.
"Faremos o que pudermos para resolver o problema. Eles entendem que é uma questão de curto prazo."
CAMPANHA DE TRUMP
O preço médio da gasolina em todo o país nesta terça-feira era de US$3,54 o galão, um aumento de cerca de 19% desde o início da guerra, de acordo com a AAA.
Em um sinal da preocupação da Casa Branca, Trump planejou analisar diversas opções para reduzir os preços do petróleo, informou a Reuters na segunda-feira, incluindo uma possível liberação de petróleo bruto de reservas estratégicas, restringindo as exportações dos EUA e renunciando a alguns impostos federais. Trump disse na noite de segunda-feira que os EUA devem renunciar a algumas sanções relacionadas ao petróleo, embora não tenha dado detalhes.
Trump planeja discutir a economia em sua viagem a Ohio e Kentucky na quarta-feira, informou a Casa Branca.
Os preços mais altos da gasolina podem ser particularmente prejudiciais para um presidente que ganhou a Casa Branca em 2024 em grande parte com a promessa de que iria conter a inflação, diminuir as taxas de energia e reduzir o custo de vida.
O deputado Warren Davidson, republicano de Ohio, disse que o aumento dos preços da gasolina é uma "preocupação" para as eleições de meio de mandato.
"A economia sempre será um dos assuntos a serem votados", disse ele. "As outras coisas que o presidente fez em relação à economia foram tremendas, portanto, veremos o resultado."
A resposta do próprio Trump à alta dos preços parece pouco provável de aliviar a ansiedade dos norte-americanos. Em uma entrevista à Reuters na semana passada, Trump disse que não se preocupava com os preços da gasolina e previu que eles devem cair quando o conflito com o Irã terminar, acrescentando: "Se eles aumentarem, aumentaram".
Ele repetiu a afirmação nas redes sociais no fim de semana, dizendo que "os preços do petróleo no curto prazo" eram um "preço muito pequeno a pagar" pela segurança global.