Os governos dos países da União Europeia deram o aval político ao acordo comercial entre o bloco europeu e o Mercosul, destravando uma negociação que se arrastava havia cerca de 25 anos. Assim, a aprovação abre caminho para a assinatura formal do tratado e marca uma nova etapa nas relações econômicas entre Europa e América do Sul, com impacto direto sobre o Brasil, maior economia do Mercosul. Porém, o entendimento ainda depende de trâmites internos, mas já redesenha expectativas de comércio e investimento.
O acordo Mercosul-União Europeia sempre esteve no centro de debates econômicos e ambientais. De um lado, parte do empresariado europeu e sul-americano via na parceria uma forma de ampliar mercados e reduzir custos. De outro, setores agrícolas na Europa, em especial na França, temiam o aumento da concorrência de produtos brasileiros e argentinos. Portanto, com a decisão do dia 9 de janeiro, prevaleceu a visão de que a integração econômica, acompanhada de mecanismos de proteção ambiental e sanitária, seria mais vantajosa no longo prazo para os dois lados.
Por que o acordo Mercosul-União Europeia é estratégico para o Brasil?
A importância do acordo para o Brasil associa-se principalmente à abertura de um dos maiores mercados consumidores do planeta com tarifas menores e regras mais estáveis. Assim, o país passa a ter acesso preferencial a um bloco com quase 450 milhões de habitantes e elevado poder de compra. Isso tende a favorecer exportações de bens agropecuários, industriais e de serviços. Ao mesmo tempo, empresas europeias ganham mais segurança para investir em território brasileiro, impulsionando cadeias produtivas e transferência de tecnologia.
Do ponto de vista brasileiro, o pacto funciona como uma espécie de "selo de integração" com a economia global. Afinal, em um cenário em que acordos bilaterais e regionais se multiplicam, a participação ativa nesse tipo de tratado evita que o Brasil fique isolado em relação a grandes polos comerciais. Além disso, a previsibilidade nas regras de comércio pode estimular pequenas e médias empresas a exportar. Isso reduz a dependência de poucos setores e ampliando a base exportadora.
Como o acordo reduz tarifas e abre novas frentes comerciais?
O texto do acordo prevê a redução gradual de tarifas de importação e exportação em uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Para o Brasil, isso significa baratear a entrada de produtos como carnes, soja processada, café industrializado, açúcar e etanol. Além disso, também manufaturados de setores como autopeças, máquinas, calçados e têxteis. Por fim, a eliminação ou diminuição de tarifas amplia a margem de competitividade dos produtos brasileiros diante de concorrentes de outros países que não possuem acordos semelhantes com a União Europeia.
Além da queda de tarifas, o tratado aborda barreiras não tarifárias, como exigências técnicas, sanitárias e fitossanitárias. Assim, ao harmonizar padrões ou reconhecer equivalências, o acordo tende a reduzir atrasos em portos, pedidos de reanálises e custos burocráticos. Setores que tradicionalmente enfrentam inspeções rigorosas, como o de proteína animal, podem se beneficiar de procedimentos mais previsíveis, desde que cumpram os parâmetros estabelecidos. Em paralelo, empresas brasileiras que importam máquinas e insumos europeus podem ter custos menores, o que afeta diretamente a produtividade.
- Tarifas menores para bens agropecuários e industriais brasileiros.
- Regras mais claras para certificações sanitárias e ambientais.
- Maior segurança jurídica para investimentos bilaterais.
- Acesso a tecnologia e insumos europeus a preços potencialmente reduzidos.
Por que a França se opôs ao acordo com o Mercosul?
A resistência francesa ao acordo com o Mercosul esteve ligada sobretudo à proteção do setor agrícola. A França abriga uma das agriculturas mais subsidiadas e organizadas politicamente na Europa. Produtores de carne, grãos e laticínios manifestaram preocupação com a entrada de produtos agropecuários do Mercosul, em especial do Brasil, reconhecido como grande fornecedor de carnes bovina e de frango, açúcar e etanol. O temor recorrente era o de perda de renda e de espaço de mercado dentro da própria União Europeia.
Além do aspecto econômico, o governo francês e parte da sociedade civil levantaram questionamentos ambientais. Houve pressão para que o Brasil reforçasse o combate ao desmatamento e comprovasse rastreabilidade na cadeia produtiva. Argumentava-se que produtos de áreas desmatadas ou com padrões diferentes de bem-estar animal poderiam competir com vantagem de custo em relação aos agricultores europeus, submetidos a regras ambientais e trabalhistas mais rígidas. Essa combinação de fatores transformou o acordo em tema sensível na política interna francesa.
- Medo de concorrência mais barata em carne, açúcar e grãos.
- Preocupações com legislação ambiental e desmatamento.
- Pressão de sindicatos rurais e organizações agrícolas.
- Receio de perda de influência da França no debate agrícola europeu.
Como a posição francesa foi superada e o que isso representa para o Brasil?
A aprovação do acordo pelos países da União Europeia em 2026 ocorreu após rodadas de ajustes e anexos adicionais, que incluíram salvaguardas ambientais, mecanismos de monitoramento e cláusulas de revisão. Essas medidas ajudaram a reduzir resistências em vários governos e ofereceram respostas às críticas de setores agrícolas. No caso da França, embora a oposição de parte dos produtores rurais tenha permanecida, prevaleceu a visão de que o país não poderia isolar-se dentro do próprio bloco nem bloquear uma agenda estratégica para a União Europeia como um todo.
Para o Brasil, a derrota da posição contrária francesa representa a abertura definitiva de um canal de integração com o principal parceiro comercial do país no continente europeu. A partir da implementação do acordo, empresas brasileiras ganham previsibilidade para planejar investimentos, ampliar fábricas e diversificar destinos de exportação. O tratado também tende a incentivar melhorias em rastreabilidade ambiental, governança corporativa e padrões de qualidade, já que o acesso ao mercado europeu costuma exigir certificações rigorosas.
Nos próximos anos, o desempenho brasileiro nesse novo cenário dependerá da capacidade de aproveitar as oportunidades criadas: aumentar a produtividade, investir em inovação, reforçar o controle ambiental e negociar internamente políticas de apoio a setores mais expostos à concorrência externa. A aprovação do acordo UE-Mercosul, após um quarto de século de debates, recoloca o Brasil em uma rota de maior integração comercial e regulatória com uma das regiões mais influentes do mundo.