Em sua primeira visita oficial à França em 18 anos, o papa Leão XIV cumprirá uma intensa agenda de quatro dias por Paris, Lourdes e Metz, incluindo encontros com fiéis, líderes religiosos e vítimas de violência sexual na Igreja, além de reuniões com Emmanuel Macron. O roteiro prevê grandes eventos, como uma missa para centenas de milhares na Praça da Concórdia, o que gerou críticas de políticos sobre a laicidade do Estado e o uso de verbas públicas em um país fortemente secularizado.
A agenda de Leão XIV será carregada na França, com o início da visita previsto para a manhã de sexta-feira (25), quando será acolhido pelo presidente Emmanuel Macron no aeroporto de Orly. A primeira parada do papa será o Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa. No início da tarde, o pontífice visitará a sede da Unesco, onde fará um discurso.
Não haverá almoço nem jantar de Estado, já que ele prefere fazer suas refeições na Nunciatura Apostólica, a representação oficial da Santa Sé em Paris.
O encontro com os fiéis já ocorre no primeiro dia da viagem. A bordo do papamóvel, o Santo Padre seguirá para um encontro com os fiéis em um trajeto que irá da Igreja Notre-Dame-des-Champs até a Catedral de Notre-Dame, que deve reunir milhares de pessoas nas ruas da capital. Ele será o primeiro papa a visitar a catedral desde sua reabertura, em dezembro de 2024, e participará das vésperas reservadas ao clero.
Em Paris, os pontos altos da visita de Leão XIV serão a vigília com os jovens, no Stade de France, ainda na sexta, e a missa gigante na Praça da Concórdia, no sábado (26), para a qual já há cerca de 600 mil inscrições.
Programação em Lourdes e Metz
No fim da tarde, o pontífice retornará a Orly para seguir viagem a Lourdes, no sudoeste do país, um dos principais locais de peregrinação católica do mundo. A programação de sábado será encerrada com uma oração na gruta do santuário da cidade, onde, segundo a tradição católica, ocorreram as 18 aparições da Virgem Maria a Bernadette Soubirous, em 1858.
No domingo (27), o papa começará o dia com um encontro com os bispos da Conferência dos Bispos da França. Em seguida, celebrará uma missa no domingo na esplanada do santuário. Cerca de 200 mil pessoas são esperadas no local.
Outro grande momento esperado será o encontro do sumo pontífice com vítimas de violência sexual em Lourdes. Leão XIV se reunirá, a portas fechadas, com sete vítimas de violência sexual na Igreja.
Em seguida, o papa participará de um encontro no Accueil Notre-Dame, estrutura dedicada ao acolhimento de peregrinos doentes ou em situação de deficiência. Na ocasião, o papa pretende abordar a questão do fim da vida, tema que mobilizou amplamente a Igreja na França enquanto o Parlamento discutia e aprovava um projeto de lei sobre a ajuda para morrer. A programação do dia será encerrada com uma procissão à luz de velas.
O papa ainda marca presença em Metz, no nordeste da França, no dia 28 de setembro. Nesta última etapa da visita, haverá um encontro inter-religioso, junto a líderes muçulmanos, judeus e protestantes, e a presença de mais de 60 mil pessoas.
Leão XIV também participará de um encontro intitulado "Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade" e fará um discurso sobre a Europa na presença deEmmanuel Macron. Também está previsto um trajeto de papamóvel por um percurso de mais de dois quilômetros. No fim do dia, o presidente francês acompanhará o papa até o avião que o levará de volta, encerrando os quatro dias de visita à França.
Preocupações de fiéis e políticos
Uma foto de página inteira de Leão XIV estampa a capa do jornal La Croix desta segunda. O diário realiza uma iniciativa junto a leitores, que escreveram cartas ao Santo Padre evocando as principais preocupações dos católicos neste momento. "Entre preocupações geopolíticas, pedidos de reforma da Igreja e confidências", as mensagens são um termômetro da relação dos franceses com o sumo pontífice, diz o jornal.
O jornal Libération traz uma coluna assinada pelo deputado de esquerda Alexis Corbière, que escreve que o papa é bem-vindo na França, mas que o país não pode deixar de lado os princípios laicos da república. O texto destaca que 29% dos franceses se declaram católicos, o que mostra a importância desta religião no país.
No entanto, o parlamentar esquerdista contesta a realização da missa na Praça da Concórdia, um local com forte identidade política, onde foi selada a passagem da monarquia à república, além do uso de dinheiro público para o evento em Metz. Segundo ele, o acolhimento ao papa não pode infringir os princípios da França, onde a laicidade deve ser reafirmada e não ignorada.
Uma visita com peso histórico e político
Será a primeira visita oficial de um papa à França em 18 anos. O antecessor, papa Francisco, esteve no país em três ocasiões - em Estrasburgo (2014), Marselha (2023) e Ajaccio (2024) -, mas sem realizar uma visita de Estado. Bento XVI, por sua vez, visitou a França em 2008, enquanto João Paulo II esteve no país sete vezes, tornando-o seu destino internacional mais frequente fora da Polônia.
Diferentemente de alguns de seus predecessores, Leão XIV fala francês e tem demonstrado atenção especial ao país desde o início de seu pontificado, citando com frequência referências da espiritualidade francesa e acompanhando a evolução do catolicismo local.
Para além da agenda oficial, a visita tende a funcionar como um termômetro do espaço da religião em uma sociedade fortemente secularizada. A forma como suas mensagens serão recebidas, tanto pelo público quanto pela classe política, pode indicar até que ponto a Igreja ainda consegue influenciar o debate social na França contemporânea.