Impulsionada pelo lançamento de Carla Madeira em Oeiras, a literatura brasileira vive uma fase de valorização e forte expansão em Portugal, ampliando o espaço para novos autores contemporâneos além dos clássicos. Editoras locais agora publicam essas obras na grafia original do Brasil, sem adaptações para a norma lusitana. Essa escolha reflete a familiaridade do público português com a variante brasileira e atesta a integração cultural que celebra a língua comum sem barreiras editoriais.
Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa
Na terra onde Camões escreveu "Os Lusíadas", um marco para a origem da língua portuguesa, escritores brasileiros têm ganhado mais espaço nos últimos anos - e sem precisar adaptar a linguagem para o jeito que os portugueses falam o português.
Miguel Pereira, editor responsável pelos livros de Carla em Portugal, conta que toda vez que publicam um autor brasileiro, incluem apenas a seguinte nota explicativa: "A presente edição segue a grafia original".
"Não há nenhuma vontade ou nenhuma ideia de superioridade relativamente a um português sobre o outro, porque isso não existe. A partir do momento em que estamos a falar de literatura, ou seja, da forma como os autores escrevem, e entendemos isso como manifestação artística pura, entendemos que deixava de fazer grande sentido fazer adaptações", explicou Pereira.
O editor executivo lembra que já foram feitas algumas experiências de tentar adaptar a linguagem dos escritores brasileiros para o padrão do idioma em Portugal, mas a ideia acabou abandonada. Os portugueses já habituaram os ouvidos ao jeito de falar brasileiro graças às telenovelas e às músicas, e não estranham mais a literatura produzida com a nossa variante da língua.
'Autocarro e comboio'
"O português que se fala no Brasil é tão familiar para os portugueses que não fazia sentido insistir nesse tipo de alteração. Se fôssemos fazer, realmente teríamos que fazer muitas alterações no vocabulário", afirma. "Como alterar o ônibus para autocarro e o e o trem para comboio, mas toda a gente em Portugal sabe o que é um trem."
Além de Carla Madeira, a Particular Editora trouxe para Portugal vários outros autores brasileiros contemporâneos, como Aline Bei, Rafael Montes, Socorro Acioli e Caetano Galindo.
A presença de uma nova geração de autores é sentida também pelos leitores. A professora Patrícia Cerutti, organizadora de clubes de leitura e mediadora de debates em festas literárias, nota que não é mais preciso viajar ao Brasil para trazer na mala os livros de escritores brasileiros.
"Quando eu cheguei aqui, há 8 anos, tinha muito menos autores brasileiros nas nas livrarias. Existiam alguns já muito conhecidos, mas não tinha essa profusão de autores que estão chegando e publicando tanto nas grandes editoras, quanto nas menores", ressalta. "Antigamente, se lia aqui muito autor estrangeiro de língua não portuguesa traduzido: muito inglês, muito americano, francês, italiano, espanhol."
Valorização de autores brasileiros além dos consagrados
Embora o reconhecimento obtido por Carla Madeira seja especial, ela não está sozinha. Há uma tendência de valorização da literatura brasileira.
Na festa do livro de Oeiras, onde ela vem fazer seu lançamento, outro grande destaque vem também do Brasil: é a cantora e escritora Zélia Duncan, que vai apresentar seu livro "Benditas coisas que eu não sei".
No ano passado, o festival deu destaque para o brasileiro Silviano Santiago, que veio pela primeira vez apresentar um livro em Portugal.
O curador do evento literário, Jorge Reis-Sá, garante que não se trata de um aceno exclusivo à comunidade brasileira. "Nós queremos atrair toda a gente, portugueses e brasileiros", disse. Sua ideia é que todos desfrutem de literatura de qualidade em língua portuguesa, independente do lado do Atlântico em que a obra foi produzida.