Itália e França haviam, no mês passado, frustrado as esperanças de um acordo em dezembro, afirmando não estar prontas para aprová-lo enquanto não fossem resolvidas as preocupações dos agricultores diante de um possível afluxo de produtos baratos vindos do Mercosul, especialmente carne bovina e açúcar.
Mas a chefe do governo italiano, Giorgia Meloni, saudou na terça-feira a disposição manifestada pela Comissão de acelerar o desbloqueio de € 45 bilhões em apoio aos agricultores, qualificando a iniciativa como um "passo positivo e significativo".
Uma fonte europeia indicou em seguida que a Itália votará a favor do acordo comercial com o Mercosul em uma reunião prevista para sexta-feira (9).
A Comissão Europeia propôs na terça-feira esse desbloqueio antecipado de parte dos recursos destinados à agricultura no próximo orçamento plurianual da União Europeia, na esperança de atrair para o campo favorável ao tratado de livre-comércio com o Mercosul os países-membros ainda hesitantes.
"Para garantir a disponibilidade de recursos adicionais a partir de 2028, a fim de responder às necessidades dos agricultores e das comunidades rurais, proponho que os Estados-membros tenham acesso, no momento da apresentação de seu plano inicial, a até dois terços do montante normalmente disponível para a revisão de meio de período", declarou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, em carta dirigida aos Estados-membros e ao Parlamento Europeu.
"Isso representa cerca de €45 bilhões, que podem ser mobilizados imediatamente para apoiar os agricultores", acrescentou ela, na véspera de uma reunião extraordinária dos ministros da Agricultura do bloco dedicada ao Mercosul.
A Comissão, apoiada por países como Alemanha e Espanha, espera assinar na segunda-feira esse tratado negociado há 25 anos, mas precisa obter a aprovação dos Estados-membros e evitar a formação de uma minoria de bloqueio de pelo menos quatro países que representem 35% da população da União Europeia.
Com Polônia e Hungria contrárias ao acordo e a França considerando que as condições ainda não são suficientes, a posição da Itália aparece como determinante. Uma votação dos embaixadores dos países-membros está marcada para sexta-feira.
'Inaceitável'
Roma e Paris uniram esforços no mês passado para impedir a assinatura do tratado já em dezembro, exigindo garantias adicionais para seus agricultores, que temem ser inundados por produtos de baixo custo, especialmente carne bovina e açúcar, provenientes dos quatro países do "Mercado Comum do Sul" (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).
A Itália não é contrária ao acordo, reiteraram na terça-feira duas fontes à Reuters, mas continua pedindo garantias, sobretudo quanto à reciprocidade, para que os produtos agrícolas importados para a UE respeitem os critérios sanitários e ambientais europeus.
Já a França, onde a indignação dos agricultores permanece forte desde a crise da dermatose nodular no mês passado, teve sua ministra da Agricultura, Annie Genevard, reafirmando na terça-feira, durante a sessão de perguntas ao governo na Assembleia Nacional, que o projeto de acordo "tal como foi assinado em Montevidéu" em dezembro de 2024 por Ursula von der Leyen é "inaceitável".
"Mesmo que o Conselho Europeu adote o acordo com o Mercosul, será depois do Parlamento Europeu que terá de se pronunciar sobre ele, e em seguida haverá uma ratificação. Portanto, em qualquer caso, a história não está escrita e a luta não terminou", advertiu.
Além da questão da reciprocidade, a reunião de quarta-feira em Bruxelas analisará o controle dos produtos importados e os níveis autorizados de resíduos de pesticidas, segundo dois diplomatas europeus.
A Comissão Europeia também terá de tranquilizar os Estados-membros quanto à continuidade da Política Agrícola Comum (PAC), já que seu projeto de fundir os recursos da PAC com os fundos de coesão regional no orçamento 2028-2034 preocupa os grandes países agrícolas.
Em sua carta divulgada na terça-feira, Ursula von der Leyen reafirma que o quadro financeiro plurianual garantirá aos agricultores o pagamento de um total de €293,7 bilhões.
Com AFP