Reunidos em Estrasburgo, no nordeste da França, os eurodeputados validaram o acordo por ampla maioria — 440 votos a favor, 151 contra e 50 abstenções. A decisão cumpre o engajamento assumido no encontro entre a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e Trump, no ano passado, em Turnberry, na Escócia, em troca do limite de 15% para as tarifas impostas pelo presidente americano às importações europeias no ano anterior.
Os deputados, que consideravam o acordo negociado por Bruxelas excessivamente desequilibrado, superaram boa parte das divisões após garantir uma série de salvaguardas destinadas a proteger os interesses europeus diante de Donald Trump.
A reação não ocorreu por acaso: os parlamentares enfrentaram crises sucessivas com o presidente americano desde seu retorno à Casa Branca — da ameaça de anexar a Groenlândia às investidas contra normas digitais e ambientais da UE, passando por sanções ao ex-comissário Thierry Breton e tarifas punitivas sobre automóveis e aço.
Reforçar a posição europeia
Durante debate realizado na segunda-feira (15) em Estrasburgo, o vice-presidente da Comissão Europeia, Stéphane Séjourné, avaliou que o voto é "um passo importante" para o bloco. Segundo ele, a aprovação do compromisso "representa uma oportunidade de avançar e reforçar nossa posição em relação aos americanos".
No conteúdo do acordo fechado em maio entre os Estados-membros, os deputados europeus obtiveram a inclusão de uma cláusula que determina a expiração automática do tratado no fim de 2029 — após o término do mandato de Donald Trump — salvo se uma prorrogação for votada até lá.
A Comissão Europeia também se reserva ao direito de suspender o pacto tarifário caso Trump não elimine, até o fim do ano, as sobretaxas de 50% impostas a centenas de produtos que contenham aço e alumínio.
No entanto, o acordo aprovado hoje não impede que Trump continue a usar a ameaça tarifária como instrumento de pressão contra a União Europeia. Antes de viajar ao encontro dos líderes do G7 em Evian, o presidente americano ameaçou o champanhe e outros vinhos franceses de novos impostos caso Paris não renuncie à taxação das grandes empresas de tecnologia americanas.
Direita e centro comemoram, esquerda protesta
As diferentes reações sobre a aprovação do acordo evidenciam as diferenças entre os parlamentares sobre a questão.
O PPE, maior grupo de direita no Parlamento Europeu, votou a favor do compromisso, alegando a necessidade de preservar o gigantesco fluxo comercial entre a UE e Estados Unidos. "É uma escolha estratégica que vai reforçar nossa parceria transatlântica, proteger empregos e fortalecer nossas indústrias", celebrou a croata Zeljana Zovko, líder do PPE para as questões relacionadas ao comércio.
Karin Karlsbro, do grupo Renew (centro), afirmou estar "orgulhosa" de o Parlamento ter resistido às "manobras coercitivas de Trump". Para ela, o voto oferece "uma base de estabilidade diante do caos que Trump continua a semear".
Graças às salvaguardas negociadas, "não cederemos a qualquer chantagem, e se os Estados Unidos não respeitarem seus compromissos, teremos condições de reagir — e o faremos", defendeu o eurodeputado social‑democrata alemão Bernd Lange.
As garantias obtidas, porém, não eliminaram todas as resistências, sobretudo à esquerda. "É uma verdadeira humilhação para a União Europeia. Mais uma vez, nos curvamos diante dos Estados Unidos", criticou Emma Fourreau, da bancada A Esquerda.
A extrema direita mostrou-se dividida: enquanto o grupo ECR (Conservadores e Reformistas) apoiou o texto, os Patriotas pela Europa denunciaram uma "capitulação".
Validação formal
Os 27 Estados‑membros — cuja aprovação também é necessária — já haviam endossado provisoriamente, no fim de maio, o compromisso alcançado com o Parlamento. Com o aval definitivo dos eurodeputados, resta apenas a validação formal dos governos nacionais para concluir a ratificação.
O calendário permite cumprir o ultimato fixado por Donald Trump, que deu aos europeus até 4 de julho, data das comemorações dos 250 anos dos Estados Unidos, para honrar seus compromissos.
Com AFP