Maria Paula Carvalho, da RFI
Em um cenário internacional cada vez mais tenso, países ampliam investimentos em defesa sob o argumento de garantir a paz, impulsionando um mercado em plena expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024, o maior valor já registrado, com aumento de 9,4% em relação ao ano anterior.
A Eurosatory coincide com a cúpula do G7 na França, que reúne líderes mundiais, incluindo Donald Trump, para discutir os principais conflitos internacionais.
"Os gastos e os orçamentos estão aumentando significativamente em todos os países, principalmente na União Europeia. Isso é o que eu chamo de oportunidade", analisou em entrevista à RFI o secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa brasileiro, tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues, que veio a Paris participar da Eurosatory. O Brasil marca presença, ele destaca.
"São 24 empresas brasileiras de defesa expondo nesta feira, que é gigante — talvez a maior do mundo nessa área — e tenho certeza de que vamos fazer bonito e ter resultados expressivos."
O setor já movimenta cifras relevantes para o país.
"Nós temos muita capacidade, muita tecnologia, empresas excelentes para produção de armamento. Temos cerca de US$ 4 bilhões em exportações por ano — não é uma coisa trivial — e esperamos aumentar esse volume com o passar do tempo", completou. "A indústria de defesa brasileira está preparada para acompanhar esse aumento da produção global," concluiu o tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues.
Com mais de 2 mil expositores de 65 países, a Eurosatory reúne o que há de mais avançado em tecnologia militar. Até sexta-feira (19), empresas e delegações buscam ampliar contatos e fechar negócios.
"Ver e ser visto"
Entre os brasileiros, a Cinadra aposta na internacionalização. A empresa fabrica componentes para bombas e munições e atua nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O CEO Marcello de Brito Meira destaca a importância da visibilidade no evento:
"É o famoso ver e ser visto, num mercado global. O Brasil já foi um grande player e está voltando a se projetar nesse mercado. Então, para a gente, estar aqui é muito importante."
Ele ressalta o modelo de atuação da companhia: "Nós fabricamos no Brasil componentes para bombas, munições de artilharia, infantaria e carros de combate, tudo exportado para o mundo, tecnologia brasileira."
E completa: "Vendendo componentes, eu tenho acesso a mais mercados. Eu não sou competidor de ninguém, então consigo fornecer para várias empresas da mesma área."
O coronel Antônio Ribeiro, diretor de promoção comercial da Abimde — a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança — afirma que as empresas vêm à feira em busca de diferentes oportunidades: contratos, novos fornecedores, representantes comerciais no exterior e também para fazer benchmarking de seus produtos, avaliando se estão alinhados com a demanda do mercado.
"A França é um ponto de encontro. Iremos receber aqui delegações da África, da Ásia e até da América do Sul", completa.
"Não somente a França, mas todo esse entorno geográfico acaba refletindo e ressentindo essa movimentação política e geopolítica que a Europa está vivendo, desde o conflito na Ucrânia até essa mudança de postura de outros players. Há também a questão da migração descontrolada, que gera um problema não apenas de defesa, mas de segurança pública. Então, este é um local muito adequado para discutir todos esses aspectos", conclui.
"Espaço Brasil"
O Espaço Brasil reúne empresas de áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. O estande conta com apoio também da ApexBrasil, agência de promoção de exportações.
Para o especialista em negócios internacionais da entidade, Daniel Pirola, a feira tem alcance global:
"É a principal feira da Europa. Daqui, a gente consegue vender não só para a Europa, mas também para o Oriente Médio e boa parte da Ásia. Esta feira é uma referência mundial e, para nós, é uma baita oportunidade."
Ele destaca ainda o crescimento da participação brasileira: "Este ano, estamos batendo um recorde de expositores." E avalia o contexto internacional: "O mundo inteiro está se armando, isso já é um fato, e tem sido bom também para as empresas brasileiras de defesa."
Segundo Pirola, o país oferece uma ampla gama de produtos: "Desde software de sistemas até logística, armas e equipamentos, como coletes à prova de balas. O Brasil tem praticamente tudo o que um Exército precisa."
Realizada a cada dois anos, a Eurosatory combina feira comercial, demonstrações militares e debates, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual.
Em meio a conflitos como a guerra na Ucrânia e a instabilidade no Oriente Médio, a demanda por equipamentos militares cresce no mundo todo. Nesse contexto, o Brasil tenta se posicionar como fornecedor competitivo.
Para o general de brigada Diógenes de Souza Gomes, o principal diferencial do país é o capital humano:
"A nossa maior capacidade, a nossa maior força é o nosso pessoal. Temos um recurso humano diferenciado (...) quando falamos que estamos um pouco atrasados em tecnologia, talvez seja por falta de investimento."
Ele ressalta, no entanto, as limitações orçamentárias. "O Exército tem restrições que acabam limitando esse avanço tecnológico", aponta.
Apesar disso, destaca avanços concretos: "Hoje, o Brasil detém a tecnologia de um míssil anticarro fabricado totalmente no país, no estado da arte, com um custo muito reduzido."
E reafirma o papel institucional da força: "O Exército brasileiro mantém sua missão de defesa da soberania e da segurança das nossas fronteiras, protegendo um país gigantesco, com riquezas incontáveis."
Restrita a profissionais credenciados, entre militares, autoridades e representantes da indústria, a Eurosatory inclui conferências, demonstrações ao vivo e espaços dedicados à inovação. No conjunto, o evento se consolida como uma das principais vitrines globais do mercado de defesa.