Em visita a Lourdes, na França, o papa Leão XIV reuniu milhares de fiéis, fez apelos pela paz e pediu vigilância aos bispos contra o "flagelo" da violência sexual na Igreja, defendendo a coragem de enfrentar o passado para curar feridas profundas. Antes de seguir viagem para Metz, o pontífice incluiu em sua agenda um aguardado encontro privado com vítimas de abusos clericais, tema especialmente sensível no país após relatórios apontarem mais de 330 mil menores vitimados desde 1950.
Após ter reunido cerca de 800 mil pessoas para uma missa gigante em Paris no sábado (26), o sumo pontífice de 71 anos foi saudado por milhares de pessoas ao percorrer as ruas de Lourdes em seu papamóvel. Um pouco antes, Leão XIV havia se recolhido diante da representação de "A Criança que Chora" (L'Enfant qui pleure), uma obra que simboliza o sofrimento das vítimas de violência sexual na Igreja. Em seguida, durante um encontro a portas fechadas, pediu aos bispos franceses que "prosseguissem" em sua atuação diante do "flagelo" das violências sexuais, "mantendo a mais alta vigilância".
As violências sexuais cometidas por religiosos também foram evocadas de foma indireta em sua homilia em Lourdes. Dirigindo-se a uma multidão reunida na esplanada do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, Leão XIV afirmou que a Igreja Católica deve ter a coragem de enfrentar seu passado, embora não tenha feito uma referência direta aos escândalos na instituição. "Para curar feridas profundas, infidelidades e dolorosos desvios cometidos, devemos nos colocar humildemente sob o olhar purificador do Senhor", declarou o santo padre.
Leão XIV também enviou uma mensagem especial aos doentes e às "pessoas que sofrem", assim como quem os acompanham. Além disso, o papa agradeceu longamente ao povo francês pela mobilização desde o início de sua visita e fez um chamado à conversão. "É hoje, não amanhã, que é preciso se converter", declarou, definindo esse gesto como uma forma de "abandonar o caminho da perdição para seguir o caminho da vida".
Apelo em prol da paz
Nos momentos finais da missa, o santo padre fez um apelo pela paz e pediu orações pelo fim dos conflitos no mundo. "Convido todos os fiéis e todas as comunidades cristãs a rezarem ao longo do próximo mês para que as guerras cheguem ao fim e a paz se estabeleça entre os povos em conflito", afirmou.
Diante do sumo pontífice, milhares de famílias, religiosos, pessoas em cadeiras de rodas e bebês em carrinhos se reuniram ao som de cânticos transmitidos por alto-falantes, no local que recebe cerca de três milhões de visitantes por ano. Lourdes, que conta aproximadamente com 13,6 mil habitantes, vestiu-se de branco e amarelo, as cores do Vaticano, enquanto lojas e restaurantes exibiam retratos do pontífice.
"Quando vemos esse enorme entusiasmo, pensamos que a fé católica não está perdida na França", afirmou Xavier, estudante do ensino médio de Bordeaux, de 16 anos, que acordou às 5h da manhã para se dirigir ao local da missa.
Encontro com vítimas de violências sexuais
Ainda na tarde deste domingo, o papa Leão XIV se reunirá com vítimas de violência sexual cometida por membros da Igreja Católica na França. O encontro, que será realizado de forma discreta e longe das câmeras, é um dos momentos mais aguardados da visita do sumo pontífice. Em junho deste ano, durante sua passagem por Madri, Leão XIV já havia se reunido com vítimas de abusos cometidos por membros da Igreja.
O tema é especialmente sensível na França, onde a Igreja ainda enfrenta as consequências de décadas de denúncias de abusos sexuais. Um relatório publicado em 2021 estimou que mais de 330 mil menores foram vítimas de violência sexual no âmbito de instituições católicas no país desde 1950.
Não por acaso, no dia da chegada do papa ao país, na sexta-feira (25) um coletivo de vítimas divulgou uma carta aberta na imprensa francesa pedindo que a Igreja reconheça sua responsabilidade pelos crimes cometidos em larga escala ao redor do mundo.
Um amplo esquema de segurança, com 15 mil policiais e gendarmes, foi mobilizado nesta primeira viagem apostólica de Robert Francis Prevost à França. A visita também envolve 17 mil voluntários, 2.500 jornalistas credenciados e um orçamento de € 27 milhões.
Leão XIV seguirá para Metz na manhã de segunda-feira (28), último dia de sua visita, em uma etapa com enfoque mais europeu e inter-religioso.
RFI com AFP