O Museu Carnavalet comemora 160 anos com uma programação gratuita que renova sua mediação e desafia narrativas tradicionais da história de Paris. O evento destaca o protagonismo de jovens pesquisadores, abordagens lúdicas e temas periféricos, como a memória LGBTQIA+. Renovada em 2021, a instituição busca aproximar novos públicos de seu acervo de 640 mil obras por meio de visitas imersivas, festivais e da futura abertura de um Centro de Recursos para pesquisa e documentação em 2027.
O Museu Carnavalet, o mais antigo da capital francesa, completa 160 anos em um momento em que Paris volta a ser discutida como objeto histórico e laboratório urbano. A instituição, que nasceu para registrar as transformações do século 19, organiza uma celebração que busca atualizar essa vocação. A programação de outubro de 2026 não pretende apenas marcar uma data, mas reposicionar o museu diante de debates contemporâneos sobre memória, pesquisa e mediação cultural.
O aniversário reúne iniciativas que vão da pesquisa acadêmica à experimentação artística, passando por formatos de visita que deslocam o olhar tradicional sobre a cidade. A escolha por atividades gratuitas e de acesso livre reforça a intenção de ampliar o público e diversificar as formas de aproximação com o acervo. O Carnavalet chega a essa comemoração depois de uma década marcada por mudanças estruturais. A renovação concluída em 2021 reorganizou o percurso expositivo, ampliou a acessibilidade e atualizou a narrativa histórica. A celebração dos 160 anos se insere nesse processo de revisão institucional, que busca integrar temas antes periféricos na história oficial de Paris.
O museu ocupa dois edifícios históricos no Marais: o Hôtel Carnavalet, construído entre 1548 e 1560 e ampliado por François Mansart, e o Hôtel Le Peletier Saint-Fargeau, de 1688, incorporado ao conjunto apenas em 1989. A trajetória dos prédios, marcada por usos distintos ao longo dos séculos, reforça a ideia de que a história urbana é feita de camadas que se sobrepõem. Com mais de 640 mil obras, o acervo cobre períodos que vão da Pré-História à atualidade. Desde a reabertura, o museu recebeu mais de 5 milhões de visitantes.
Novas formas de ler a cidade
O festival "Paris à la loupe", realizado nos dias 2 e 3 de outubro, é o eixo intelectual da celebração. A iniciativa reúne mais de 40 jovens pesquisadores de 12 áreas distintas, em parceria com instituições municipais de memória e documentação. A proposta é apresentar recortes que ampliem o repertório de temas associados à história de Paris. O evento reforça a ideia de que a história urbana não é estática e depende de revisões constantes. Ao colocar jovens pesquisadores no centro da programação, o museu sinaliza que pretende incorporar novas abordagens ao seu trabalho de mediação.
O fim de semana "Rêver Paris" ("Sonhar Paris"), concebido pelo Comitê de Jovens Adultos, propõe uma aproximação menos convencional com as coleções. A escolha do tema onírico não busca criar uma atmosfera fantasiosa, mas testar formas alternativas de circulação pelo acervo.
A iniciativa nasceu de um processo participativo desenvolvido pelo museu com jovens entre 18 e 26 anos. "Nós imaginamos uma festa, um fim de semana festivo em vários momentos, pensado e construído para e com um público de jovens adultos. Trabalhamos durante algum tempo para chegar a isso. E um primeiro elemento importante foi ter associado a essa festa o comitê de jovens adultos do museu, para colocar em prática um projeto de participação cidadã no qual 50 jovens de 18 a 26 anos se envolvem e participam das escolhas de orientação da instituição. Durante um ano, eles estiveram conosco em intervalos regulares, e nós os consultamos. Foi muito importante para nós ouvi-los e ver como eles imaginavam o futuro do museu e, de certa forma, o futuro de Paris", afirma Néguine Matthieux, conservadora de Patrimônio do Museu Carnavalet.
Mais do que um tema festivo, a proposta procura explorar a imaginação como ferramenta de reflexão sobre a cidade. "Nós queríamos introduzir um pouco de sonho, de imaginação. É verdade que o cotidiano e a realidade andam muito presentes, e, às vezes, são um pouco difíceis. E existe essa ideia de que também precisamos escapar um pouco dessa realidade para compreender melhor o presente e a nós mesmos, para conseguir nos projetar no futuro e, talvez, para não nos impor limites. Também precisamos dizer a nós mesmos que podemos imaginar coisas para além dos modelos atuais e das dificuldades do presente, e que precisamos buscar invenção, criatividade e coisas diferentes para nos construirmos individualmente ou coletivamente a Paris de amanhã", diz.
A noite de 3 de outubro inclui um jogo imersivo criado pelo coletivo "Sculpteurs de Rêves" ("Escultores de Sonhos"), que ocupa as salas com intervenções pontuais. Nos jardins, o grupo NODZ apresentará um concerto de inspiração jazzística, acompanhado de performances e DJ set.
"Teremos uma experiência ao mesmo tempo imersiva e enigmática. A proposta é viver uma noite que revisita 160 anos de sonhos parisienses, colocando também o universo dos sonhos, da celebração e, talvez, da utopia e da imaginação no centro de tudo. Porque também precisamos disso para nos projetarmos e imaginarmos outras possibilidades. Imaginamos um jogo que reflete isso, que acompanha essa ideia. Teremos noites musicais e visitas inusitadas, singulares, criativas e até divinatórias, sempre de forma divertida", afirma Matthieux.
Narrativas alternativas
A celebração inclui visitas que abordam temas pouco explorados na história oficial da cidade. Entre elas, "Paris-ci par-là", dedicada ao século 19, e "Os objetos insólitos do museu", que apresentam peças raras e curiosas capazes de revelar aspectos menos conhecidos da vida parisiense. As visitas divinatórias, conduzidas pela cartomante Léone Metayer, utilizam o tarot de Marselha como ferramenta de interpretação simbólica das obras. A proposta não substitui a leitura histórica, mas oferece um percurso que combina jogo e observação.
As visitas "Paris Queer", realizadas pela Queer Tours France, iluminam trajetórias LGBTQIA+ que moldaram a vida cultural e política da capital. O Bingo Drag, animado pela Kings Factory, vai apresentar as práticas das cenas drag king parisienses, reforçando a dimensão comunitária da programação.
A abertura do Centro de Recursos, prevista para o primeiro trimestre de 2027, marca uma nova fase para o Carnavalet. O espaço permitirá consultar documentação, biblioteca e arquivos, além de oferecer acesso às coleções em reserva — incluindo artes gráficas, fotografias, numismática e objetos de memória. A iniciativa pretende estimular a pesquisa sobre Paris e facilitar o diálogo entre especialistas, estudantes e público geral, reforçando a ideia de que o museu não é apenas um espaço de exposição, mas também de produção e circulação de conhecimento.