Visita do papa à França reacende debate sobre o papel da religião na sociedade, avalia sociólogo

A visita pastoral do papa Leão XIV à França acontece em um momento simbólico para a Igreja Católica e para um dos países mais secularizados da Europa. Para o sociólogo Flávio Sofiati, professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG) e especialista em sociologia da religião, a viagem do pontífice tem como principal objetivo dialogar com as novas gerações e enfrentar um dos maiores desafios do catolicismo contemporâneo: a renovação de seus fiéis.

25 set 2026 - 11h13
Resumo
A visita pastoral do papa à França foca na juventude e reacende debates sobre a religião no país. Segundo o sociólogo Sofiati, embora a França seja laica e enfrente a perda de fiéis católicos, o catolicismo ainda influencia a esfera pública, dominado por correntes conservadoras, mas com minorias progressistas ativas. Além disso, o cenário religioso local se transforma com o avanço do islamismo e a chegada de igrejas evangélicas brasileiras em missão no continente europeu.

Para Sofiati, a visita do pontífice à França, até o dia 28, tem um caráter essencialmente pastoral e está voltada para a renovação do público católico. Segundo ele, a programação organizada em Paris deixa clara a preocupação da Igreja com as novas gerações. "É uma visita pastoral e, do meu ponto de vista, muito focada nas novas gerações, nas juventudes católicas", afirma.

O sociólogo goiano Flávio Sofiati, professor convidado da École des hautes études en sciences sociales (EHESS), em Paris.
O sociólogo goiano Flávio Sofiati, professor convidado da École des hautes études en sciences sociales (EHESS), em Paris.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

Embora a França seja reconhecida por sua tradição laica, o pesquisador considera que a religião continua presente na esfera pública. Ele lembra que a relação entre o Estado francês e a Igreja Católica passou por profundas transformações desde a Revolução Francesa (1789), mas nunca resultou no desaparecimento completo da influência religiosa.

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"A Igreja foi destituída do espaço público depois da Revolução Francesa, mas voltou a ocupar espaço na esfera pública na Segunda Guerra (1939-45), principalmente no período da invasão", explica. Apesar dos limites impostos pela laicidade, Sofiati observa que "'mesmo no caso francês, de um Estado laico, em que você tem um processo de descatolização e também do próprio esvaziamento do catolicismo na cultura francesa, mesmo assim há a presença forte do catolicismo, seja ele do ponto de vista institucional, mas também da própria catolicidade, dos grupos católicos na esfera pública e mesmo na política".

Tendência conservadora com raras exceções

O sociólogo também destaca a diversidade interna do catolicismo francês. Embora as correntes conservadoras tenham ganhado espaço nas últimas décadas, grupos progressistas seguem atuando, ainda que de forma mais periférica em relação à instituição.

"O que tem predominado, não só aqui na França, mas no mundo, é o catolicismo mais conservador. Mas no caso francês, você tem essa presença dos católicos de esquerda", diz. Em suas pesquisas, Sofiati acompanhou associações reunidas na rede Réseau du Parvis, voltadas para temas que raramente ocupam posição central na agenda da hierarquia católica.

"A maior parte dessas associações trata de temas que não são prioritários da hierarquia católica francesa, como, por exemplo, a questão LGBT ou até mesmo associações de padres casados ou associações de filhos de padres casados, temas que não estão na ordem do dia da instituição", explicou. "Em geral, esses católicos de esquerda são católicos mais à margem da institucionalidade", observa.

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Ao comparar França e Brasil, o pesquisador identifica dinâmicas religiosas distintas. Enquanto o crescimento das igrejas evangélicas transformou profundamente o cenário brasileiro, na França a principal expansão ocorre entre os muçulmanos.

"É o grupo religioso que cresce muito no contexto francês, com a migração, com os descendentes de imigrantes que já se estabeleceram, talvez seja a religião que mais cresce", afirma sobre o islamismo.

Igrejas evangélicas em 'missão na Europa'

Por outro lado, Sofiati chama atenção para um movimento inverso: a internacionalização de igrejas evangélicas brasileiras. "O que me chama atenção são as religiões evangélicas que nasceram no contexto brasileiro e que estão em missão na Europa, no norte global em geral, mas também aqui na França", diz.

Entre os exemplos citados está a Igreja Videira, fundada em Goiânia, que hoje mantém presença forte na França, na Bélgica e em outras cidades europeias.

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Para o sociólogo, as transformações religiosas observadas dos dois lados do Atlântico revelam que, apesar dos processos de secularização e das mudanças culturais em curso, a religião continua sendo uma chave importante para compreender as dinâmicas sociais e políticas contemporâneas.

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